A urna eletrônica chega às eleições gerais de 2026 com três décadas de serviço, mais de 1,4 milhão de equipamentos fabricados e nenhum caso de fraude comprovada que alterasse resultados, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O marco reacende a discussão sobre como o dispositivo é produzido, quem o fabrica e quais barreiras de segurança sustentam a confiança na votação informatizada.
Desde 1996, quatro empresas venceram licitações para montar 14 modelos diferentes de urnas, sempre a partir de projetos desenvolvidos pela própria Justiça Eleitoral. Os contratos incluem especificações técnicas que ultrapassam 500 páginas, protótipos submetidos a testes públicos e fiscalização presencial de servidores do TSE em todo o processo industrial.
Quais empresas já fabricaram as urnas
O TSE é o autor do desenho de hardware e software, mas a produção física é terceirizada a fabricantes que se habilitam em pregões. Até hoje, quatro grupos participaram dessa etapa:
- Positivo Tecnologia – responsável pelos modelos UE2020 e UE2022, usados nas eleições municipais de 2024 e agora nos pleitos de 2026;
- Diebold/Diebold Procomp – construiu séries consecutivas entre 2004 e 2015, incluindo as urnas de 2006, 2010 e 2014;
- Unisys Brasil – montou o primeiro lote, de 1996, e o modelo de 2002;
- Procomp Indústria Eletrônica – entregou os dispositivos de 1998 e 2000.
Ao contrário do que circula em redes sociais, a Smartmatic — fornecedora de sistemas de votação usados, entre outros países, na Venezuela — nunca participou da produção brasileira. A menção à empresa voltou ao debate após declaração do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a diplomatas estrangeiros. O TSE reagiu publicamente e reiterou que a companhia não integra, nem jamais integrou, a cadeia de fornecimento nacional.
Da licitação à entrega: o caminho da urna
1. Edital técnico detalhado
Cada concorrência começa com um pacote de exigências que define microprocessadores, mecanismos de criptografia, blindagem contra interferências, requisitos de acessibilidade e prazos de suporte. O documento, que ultrapassa 500 páginas, impede que a iniciativa privada ofereça um “produto de prateleira”. Tudo é calibrado para atender ao modelo desenhado pelo TSE.
2. Protótipos e testes controlados
Depois da escolha do fornecedor, a empresa constrói protótipos que passam por inspeção de técnicos da Justiça Eleitoral. Só após a aprovação dessa fase piloto a fabricação em escala começa, sempre com auditores em ciclos regulares dentro da linha de montagem.
3. Fiscalização externa
Além dos servidores do tribunal, partidos políticos, Ministério Público, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Polícia Federal podem acompanhar etapas de desenvolvimento, lacração e distribuição. Em média, mais de 40 oportunidades formais de auditoria se sucedem entre o lançamento do edital e a totalização dos votos.
Camadas de segurança: como o sistema é blindado
- Assinatura digital: garante que o software carregado seja exatamente aquele lacrado pelo TSE.
- Criptografia de dados: tanto os votos gravados na mídia de resultado quanto a transmissão para a totalização utilizam chaves públicas certificadas pela ICP-Brasil.
- Lacração física: gabinetes recebem selos numerados, fotografados e catalogados; qualquer violação gera troca imediata do equipamento.
- Teste Público de Segurança (TPS): hackers, peritos e acadêmicos são convidados a buscar vulnerabilidades em ambiente controlado. Correções são implementadas antes do pleito.
- Boletim de urna impresso: ao fim da votação, cada equipamento emite um relatório com a contagem local. Partidos e cidadãos podem fotografar e comparar com o resultado final publicado na internet.
Essas camadas, afirma o TSE, evitaram a reprodução de fraudes típicas da era do papel, como “urna grávida” (cédulas já preenchidas), “voto formiguinha” (substituição de cédulas) ou “mapismo” (adulteração de mapas de apuração).

Imagem: Internet
Evolução tecnológica em 14 versões
A cada ciclo, a Justiça Eleitoral incorpora avanços de processamento, consumo de energia e acessibilidade. O modelo UE2020, primeiro a embarcar processadores 18 vezes mais rápidos que a geração anterior, ampliou recursos a pessoas com deficiência: sintetizador de voz, saída para fone, teclado em braile e intérprete de Libras na tela. A UE2022 repetiu a arquitetura, mas adicionou módulos de memória de estado sólido mais longevos e chips de criptografia encapsulados para dificultar engenharia reversa.
Ao todo, 14 modelos nasceram desde 1996. A combinação entre substituição gradual de unidades antigas e manutenção preventiva faz com que cerca de 30% da frota seja renovada a cada eleição geral, obedecendo limites orçamentários definidos em lei.
Rapidez na divulgação de resultados
No Brasil pré-urnas eletrônicas, a apuração podia levar semanas. Hoje, municípios de pequeno porte concluem a totalização minutos após o fechamento das seções, e estados de eleitorado denso informam resultados parciais em poucas horas. O ganho vem da eliminação de etapas manuais de contagem, transporte físico de boletins e digitação em centrais de processamento.
Para o pleito de 2026, mais de 158 milhões de eleitores estão aptos a votar. Todos os boletins das 577 mil seções serão transmitidos por rede privada virtual (VPN) diretamente aos centros de totalização dos tribunais regionais. Cada arquivo leva, em média, três segundos para viajar da escola ao datacenter, segundo números divulgados pela Justiça Eleitoral.
Trinta anos sem fraude comprovada
Desde a estreia nacional em 1996, nenhuma fraude capaz de alterar o resultado final foi verificada. O TSE aponta que todas as denúncias recebidas em três décadas foram investigadas; algumas identificaram falhas operacionais, mas nenhuma manipulação intencional do sistema. Graças à possibilidade de comparar boletins impressos na seção com os dados recebidos pelo tribunal, qualquer tentativa de adulteração digital ou física seria revelada imediatamente por fiscais partidários ou pela própria imprensa.
Com o debate sobre segurança e legitimidade das urnas mais uma vez em foco, a Justiça Eleitoral reforça que a combinação entre projeto próprio, fabricação supervisionada e auditoria aberta é o tripé que sustenta a confiabilidade do processo e, por consequência, a rapidez com que o país consegue conhecer seus representantes desde 1996.
