Lula relata diálogo cordial com Trump, mas critica segundo escalão dos EUA e defende investigações sobre o filho

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    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em entrevista concedida na manhã deste domingo (23) no Palácio da Alvorada, que suas conversas telefônicas com Donald Trump ocorrem num clima “civilizado e muito respeitoso”, mas que o entendimento se desfaz quando assessores de segundo escalão do governo norte-americano assumem a condução das políticas. A avaliação de Lula veio dois dias depois de uma ligação de 1 h20 com o mandatário dos Estados Unidos, na qual discutiram o recente aumento de tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros.

    Do diálogo, surgiu a promessa de retomada imediata das tratativas técnicas entre Brasília e Washington. Antes mesmo do fim de semana, o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, contatou o ministro brasileiro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, propondo reunião para esta semana. Lula diz esperar “frutos gostosos e saborosos” da reaproximação, mas adverte que o país não aceitará “intromissão de ninguém” em questões internas.

    “Falamos bem, mas depois eles fazem o impensável”

    Segundo Lula, a relação pessoal com Trump contrasta com medidas que considera “injustificáveis” adotadas logo em seguida por equipes técnicas norte-americanas. “Conversamos, tudo vai bem, e depois o segundo escalão toma atitudes que são impensáveis”, relatou. O presidente brasileiro diz não saber se a origem da rigidez tarifária parte de Trump ou de seus assessores, mas sugere que o republicano seria “melhor na relação política” que sua equipe.

    As novas barreiras comerciais, definidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), foram justificadas por alegações de violações ambientais e de uso de trabalho escravo em cadeias produtivas ligadas ao Brasil. Lula rebateu os argumentos durante a ligação, classificando-os como “mentirosos”. Ele destacou o menor índice de desmatamento da série histórica e lembrou sua trajetória política contra o trabalho análogo ao escravo. Nos bastidores, o petista acredita que as críticas veladamente miram a China, principal parceira comercial do Brasil.

    Agenda bilateral reativada

    • Ligação entre Lula e Trump ocorreu na sexta-feira (21), durou 1 h20 e foi descrita como “amistosa e cordial”.
    • No mesmo dia, Trump telefonou ao secretário de Comércio norte-americano, que entrou em contato com o ministro brasileiro Márcio Elias Rosa.
    • Negociadores dos dois países devem se reunir nesta semana para discutir os aumentos tarifários.

    Lula lembrou que Brasil e Estados Unidos mantêm relações diplomáticas há 203 anos e são, segundo ele, “as duas maiores democracias do hemisfério”. Aos 80 anos, tanto ele quanto Trump – citou – deveriam “dar bons exemplos ao mundo”. No entendimento do Planalto, a primeira mostra concreta de boa vontade será a suspensão ou revisão dos sobretaxas recém-impostas.

    Presidente reitera que não barrará investigações

    Durante a mesma entrevista, Lula tratou das apurações da Polícia Federal envolvendo seu filho Fábio Luís, o Lulinha, e o ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. Ele disse não interferir no trabalho da corporação e garantiu que eventuais irregularidades serão punidas. “Ninguém está impune se cometeu erro. Meu filho sabe que, se errou, será julgado e terá de provar a inocência”, declarou.

    Lulinha é alvo de três inquéritos que investigam suspeitas de tráfico de influência e corrupção. Uma das linhas apura suposta atuação para favorecer o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, em negócios com o Ministério da Saúde. O lobista é apontado como operador de desvios em benefícios previdenciários.

    Linha do canabidiol

    A PF também detectou que Marcola recebeu minuta de contrato para fornecimento de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde. O documento foi encaminhado por Roberta Luchsinger, empresária que buscava firmar o acordo com a pasta – negócio que não chegou a ser concluído. No início deste mês, veio à tona uma transferência de R$ 249 mil de Roberta a Marcola; o ex-assessor afirma tratar-se de empréstimo pessoal já quitado.

    Pressão tarifária e narrativa ambiental

    O “tarifaço” norte-americano atinge setores estratégicos da economia brasileira e foi anunciado com base em relatórios ambientais e trabalhistas. Lula contesta os fundamentos: “Temos o menor desmatamento da história e combatemos o trabalho escravo desde sempre. Não posso aceitar que culpem o Brasil por comprar produto de país que tenha trabalho escravo; não tenho como fiscalizar terceiros”.

    Para o governo brasileiro, a menção ao desmatamento e a condições laborais abre brecha para barreiras disfarçadas de preocupações socioambientais, penalizando a competitividade do agronegócio e da indústria nacionais. A ofensiva tarifária também coincide com tensões geopolíticas entre Washington e Pequim; ainda assim, investidores observam que um acerto rápido pode evitar escalada protecionista.

    Próximos passos

    1. Reunião técnica entre ministros e representantes comerciais deve detalhar produtos e percentuais afetados.
    2. Se houver avanço, Planalto prevê anúncio conjunto sobre revisão das tarifas.
    3. Brasília espera negociar compensações, como facilitação de exportações ou cooperação em tecnologia.

    Lula encerrou a entrevista reafirmando a disposição de “manter relação civilizada” com os Estados Unidos, mas frisou que soberania e reputação brasileira “não estão à venda”. Questionado se teme novo atrito caso o segundo escalão americano volte a agir de forma unilateral, respondeu: “Espero que, desta vez, a conversa produza resultado prático. Se não produzir, vamos defender nossos interesses como sempre fizemos”.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.