Uso de títulos religiosos nas urnas cresce e já marca 404 candidaturas para 2026

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    Pastor, irmã, pai de santo ou bispo: as urnas de 2026 receberão ao menos 404 candidaturas que carregam algum desses títulos religiosos ao lado do nome civil. O número, tabulado a partir dos registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), revela o avanço de estratégias eleitorais que apostam na identificação confessional como ferramenta de conquista de votos.

    Do total, 73% exibem as variações “pastor”, “pastora” ou a sigla “PR” — 295 registros –, sinal da força do segmento evangélico na arena política. Outros termos, como “irmão” e “irmã”, aparecem 43 vezes; já designações ligadas a religiões de matriz africana, como “pai”, “mãe” ou nomes de orixás, somam 28 ocorrências.

    Quem são os “pastores” e os “irmãos”

    Embora “pastor” seja, em tese, um cargo de ordenação dentro de igrejas protestantes, nem sempre quem leva o título à urna exerce a função religiosa em tempo integral. Apenas 35 dos 404 postulantes declararam ao TSE ter como ocupação “sacerdote ou membro de ordem ou seita religiosa”. Entre eles, 28 vestem a marca pastoral, quatro se apresentam como padres, dois adotam o título de “mãe” e um se descreve como bispo.

    Fora desse grupo, a palavra funciona como sinalizador identitário. Segundo Emanuel Freitas, professor de teoria política da Universidade Estadual do Ceará que estuda a relação entre religião e poder, o dado indica que “a autodeclaração pastoral serve mais para articular uma plataforma política do que para demarcar uma biografia religiosa”. Para Freitas, boa parte dos candidatos vê na etiqueta evangélica um atalho para dialogar com um eleitorado que se reconhece nessa comunidade de fé.

    43 “irmãos” e “irmãs” na fila

    A designação fraterna, comum em círculos pentecostais e também entre freiras católicas, surge 43 vezes nas candidaturas deste ciclo. Por não carregar necessariamente investidura clerical, o termo sugere, de acordo com analistas, tentativa de construir proximidade simbólica: o eleitor lê “irmão” e associa o político a alguém que compartilha valores e práticas da congregação.

    Matriz africana também se faz notar

    Candidatos ligados a religiões afro-brasileiras, historicamente menos representados nos parlamentos, registraram 28 nomes com referências diretas a orixás ou às expressões “pai” e “mãe”. Embora representem apenas 7% do total religioso, esses registros indicam a busca por visibilidade diante de um cenário em que a intolerância contra terreiros continua alta.

    Agenda confessional vira estratégia eleitoral

    Para Emanuel Freitas, não se trata meramente de fé na esfera privada: “Existe a oferta de candidatos que mobilizam a agenda religiosa porque há demanda por propostas entendidas como próprias da religião”, aponta. A politização da identidade confessional ganhou tração ao longo da última década, turbinada por pautas morais, defesa da liberdade de culto e discurso antipolítica tradicional.

    Casos emblemáticos, como o da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro — evangélica, mesmo sem ostentar título na urna —, ilustram o fenômeno de personalidades que convertem capital simbólico religioso em capital político. A exposição pública em templos, lives de oração e cultos televisionados cria ambiente fértil para pré-campanhas mesmo antes da formalização junto ao TSE.

    Quase todos miram o Legislativo

    A concentração é maciça nas corridas proporcionais. Dos 404 candidatos mapeados, 389 — 96% — disputam cadeiras nas assembleias estaduais, Câmara Federal ou Câmara Legislativa do DF.

    • 220 buscam mandato de deputado estadual;
    • 157 tentam vaga de deputado federal;
    • 12 concorrem a deputado distrital;
    • 7 entraram como segundo suplente de senador.

    As disputas majoritárias reúnem exceções: quatro candidaturas ao Senado, três a vice-governador e uma a primeiro suplente de senador. O foco no Legislativo se explica, segundo cientistas políticos, pela maior capilaridade das igrejas na base social e pela viabilidade de eleição com votações menores, em comparação ao Executivo.

    Partidos com mais nomes religiosos

    Nem sempre legendas declaradamente confissionais lideram o ranking. O MDB, tradicionalmente associado ao centro e pragmatismo político, reúne 37 postulantes que carregam títulos religiosos. Na sequência aparecem o Republicanos, braço político da Igreja Universal do Reino de Deus, com 30; e o Democracia Cristã (DC), com 28.

    Distribuição por estado

    O Rio de Janeiro desponta como a unidade federativa com mais candidaturas identificadas: 50. A diversidade de campos evangélicos fluminenses, somada à força midiática de grandes denominações, sustenta o protagonismo. São Paulo surge logo atrás, com 49 registros, seguido por Pernambuco, que apresenta 31 postulantes. A presença maciça no Sudeste não impede que outros estados lancem representantes; a lista percorre todo o país, refletindo a capilaridade das igrejas.

    Quando a fé vira cabo eleitoral

    Especialistas recordam que a Constituição brasileira garante liberdade religiosa, mas a legislação eleitoral proíbe abuso de poder religioso — modalidade ainda em debate no Tribunal Superior Eleitoral. A fronteira entre livre manifestação de crença e uso indevido de estruturas eclesiásticas para coagir o voto permanece tênue.

    A despeito das controvérsias, temporadas eleitorais vêm mostrando que púlpitos, cultos e festividades religiosas se transformam em palanques. Comissões de fé dentro dos partidos negociam apoio, gravam jingles e mobilizam caravanas às urnas. A adoção do título no registro oficial é a face mais visível dessa engrenagem.

    Não é fenômeno exclusivo dos evangélicos

    Católicos, espíritas e umbandistas também testam a força da identidade religiosa no pleito, embora em menor escala. Dez sacerdotes católicos que adotam o termo “padre” concorrem este ano. Apóstolos, reverendos e frades somam sete inscrições, demonstrando que a tendência, ainda que mais robusta entre pentecostais, atravessa diferentes tradições.

    Perspectivas para 2026

    O uso sistemático de títulos religiosos sugere que a mistura entre fé e política continuará a influenciar a composição do Congresso e das assembleias. Mesmo se parte desses 404 nomes não conquistar mandato, a simples presença nas cédulas alimenta debates sobre laicidade do Estado, representação de minorias e limites entre crença pessoal e interesse público.

    Aos eleitores caberá avaliar se o currículo pastoral ou a identidade fraterna sinalizam compromisso ético ou apenas estratégia de marketing. Nas urnas, a palavra final pertence ao voto secreto; fora delas, o tema deve render discussões acaloradas sobre o papel da religião no desenho das políticas públicas.{internal_links}

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.