TSE barra ONG espanhola e reforça exigências para missões internacionais nas eleições de 2026

    0

    O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) negou credenciamento ao Eurolat Global Democracy Forum, grupo sediado em Madri, para atuar como missão internacional de observação nas eleições brasileiras de 2026. A Corte concluiu que a entidade não atende às exigências de legitimidade acadêmica ou institucional previstas na Resolução 23.678/2021, que condiciona a presença de observadores estrangeiros a vínculos claros com universidades, centros de pesquisa ou organismos multilaterais reconhecidos.

    A negativa interrompe a tentativa do foro espanhol de ingressar no processo eleitoral brasileiro e sinaliza que, apesar de o TSE pretender ampliar a transparência do pleito, só serão aceitas missões com histórico técnico e reputação consolidada. Outros dois pedidos seguem em análise, enquanto organismos como OEA e União Europeia já receberam aval para acompanhar a votação.

    Por que o pedido foi rejeitado

    A diretoria de Assuntos Internacionais do TSE — criada neste ano pelo presidente da Corte, ministro Nunes Marques — avaliou que o Eurolat Global Democracy Forum carece de estrutura institucional minimamente equiparável a organizações multilaterais ou acadêmicas. Embora ostente o slogan “por eleições livres, transparentes e confiáveis”, o grupo funciona como ONG de debate cívico e não possui mandato governamental, chancela legislativa nem histórico reconhecido na área eleitoral.

    Outro ponto decisivo foi a possível confusão com a Assembleia Parlamentar Euro-Latino-Americana (EUROLAT) — braço oficial de cooperação entre União Europeia e Américas, criado em 2006 e ligado diretamente ao Parlamento Europeu. Para o TSE, a semelhança nominal poderia induzir a erro sobre a natureza privada da ONG espanhola.

    Histórico dos integrantes pesou

    • Ahmed Abeeb, apresentado como chefe da missão, foi vice-presidente das Maldivas e cumpre condenação de 20 anos por corrupção em seu país.
    • Maurício Galante, brasileiro radicado no Texas e vereador da cidade de Arlington, figura como representante do grupo. Ele se autodeclara presidente do Instituto Harpia nos Estados Unidos, entidade que no Brasil é comandada pelo ex-deputado Major Vitor Hugo e tem o ex-presidente Jair Bolsonaro como presidente de honra.
    • Alguns membros mantêm interlocução frequente com o jornalista Paulo Figueiredo, crítico contumaz do sistema eleitoral brasileiro, o que acendeu alerta na área técnica do TSE sobre possível uso político da observação.

    Ao rejeitar o pedido, o Tribunal reforçou que observadores estrangeiros devem manter imparcialidade e possuir “conduta ilibada”, requisitos previstos na norma que disciplina missões internacionais.

    Como funciona o credenciamento de missões internacionais

    A Resolução 23.678/2021 estabelece que cada organização interessada deve:

    1. Enviar solicitação formal ao TSE detalhando objetivos, metodologia e composição da delegação;
    2. Apresentar histórico de participação em processos eleitorais ou pesquisas acadêmicas reconhecidas;
    3. Assinar acordo específico com a Justiça Eleitoral, comprometendo-se a seguir regras de não interferência e publicação de relatório técnico ao final da missão.

    São considerados automaticamente aptos a pleitear credenciamento:

    • Organismos internacionais e regionais (OEA, UE, ONU, Uniore);
    • Governos estrangeiros, por meio de suas chancelarias;
    • Universidades e centros de pesquisa de reputação consolidada;
    • Personalidades com reconhecida experiência em observação eleitoral.

    Garantia de relatórios confiáveis

    Cada missão produz relatório independente sobre a integridade do pleito. Por isso, a equipe técnica do TSE conduz triagem prévia rigorosa, para assegurar que os documentos sejam elaborados por especialistas e não alimentem narrativas infundadas sobre o sistema eletrônico de votação.

    Pedidos ainda em análise

    Até agora, apenas o Eurolat Global Democracy Forum foi formalmente recusado. Permanecem em exame:

    • Transparencia Electoral – entidade que atua na América Latina com foco em integridade e equidade de processos eleitorais;
    • Outro grupo (nome não divulgado pelo Tribunal) cujo dossiê está sob verificação documental.

    Segundo o TSE, a tramitação costuma levar de 30 a 60 dias, pois envolve consulta à assessoria internacional, à Procuradoria-Geral Eleitoral e à presidência da Corte.

    Quem já foi credenciado

    Para 2026, as seguintes organizações e blocos regionais receberam sinal verde e devem enviar delegações ao Brasil:

    • Organização dos Estados Americanos (OEA)
    • União Europeia (UE)
    • União Interamericana de Organismos Eleitorais (Uniore)
    • Rede dos Organismos Jurisdicionais e de Administração Eleitoral da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (Rojae-CPLP)

    Os observadores dessas entidades costumam chegar ao país cerca de duas semanas antes da votação, acompanham testes de integridade das urnas, vistoriam seções eleitorais em diferentes estados e divulgam relatório preliminar em até 48 horas após o encerramento da apuração.

    Impacto da rejeição

    A decisão de barrar a ONG espanhola deve funcionar como baliza para outras organizações civis que pretendem se credenciar. Técnicos do TSE ponderam que, embora a Justiça Eleitoral aceite entidades da sociedade civil, elas precisam provar independência financeira, qualificação técnica dos quadros e ausência de interesses político-partidários diretos.

    Em nota interna, a Corte ressaltou que “transparência não se confunde com abrir espaço para grupos sem idoneidade ou credenciais que garantam contribuição efetiva à lisura do processo”. A rejeição foi comunicada ao Itamaraty, que costuma apoiar missões oficiais estrangeiras em logística e contatos institucionais.

    Cenário para o pleito de 2026

    Com o veto ao Eurolat Global, o TSE mantém a lista de missões estrangeiras em patamar semelhante ao de eleições anteriores, quando cerca de uma dezena de delegações acompanharam o processo. A expectativa da Corte é concluir todas as análises até o fim do primeiro semestre de 2026, garantindo tempo hábil para organização logística das equipes aprovadas.

    Enquanto isso, a Justiça Eleitoral prossegue com seu calendário de testes públicos de segurança das urnas e de ampliação de parcerias com universidades brasileiras, abrindo espaço para auditorias acadêmicas independentes. Esses esforços fazem parte da estratégia de blindar o pleito contra campanhas de desinformação que, nos últimos anos, miraram o sistema eletrônico de votação.

    Repercussão política

    Lideranças de partidos governistas elogiaram o rigor do TSE, alegando proteção à credibilidade institucional. Já parlamentares da oposição acusaram a Corte de adotar critérios subjetivos para barrar grupos que divergem publicamente do modelo eleitoral brasileiro. Nos bastidores, ministros do Tribunal rebatem afirmando que todas as decisões são fundamentadas e passíveis de questionamento no próprio TSE ou no Supremo Tribunal Federal.

    Por ora, a Corte não vê necessidade de rever a resolução que regula missões internacionais, mas admite editar portaria especificando melhor critérios de idoneidade de dirigentes das entidades que pedirem credenciamento — um reflexo direto da polêmica envolvendo o Eurolat Global Democracy Forum.

    Próximos passos

    O TSE deve divulgar, até dezembro, nova lista provisória de organizações habilitadas e, em paralelo, abrir inscrições para observadores nacionais, tradicionalmente compostos por organizações da sociedade civil e entidades acadêmicas brasileiras. A fase seguinte será a assinatura dos acordos de missão, que detalham cronograma, acesso a locais de votação e regras de confidencialidade.

    Para o eleitor, pouca coisa muda: urnas permanecerão as mesmas, regras de votação continuam idênticas às de 2022 e os relatórios internacionais só costumam ganhar visibilidade após o resultado oficial. Ainda assim, o aval — ou a crítica — de observadores estrangeiros tem peso simbólico relevante no contexto geopolítico e serve como termômetro da imagem democrática do país no exterior.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.