Quase seis em cada dez políticos que estiveram nas urnas em 2022 voltam a concorrer em 2026 usando um crachá partidário diferente. É o que revela um levantamento inédito a partir dos registros entregues ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE): 3.681 dos 6.318 candidatos que participam das duas disputas — equivalentes a 58% do total — mudaram de sigla no intervalo de quatro anos.
A dança das cadeiras envolve legendas tradicionais e também novatas. De um lado, 3.271 postulantes simplesmente saltaram de um partido antigo para outro que já existia em 2022; de outro, 410 optaram por abrigar-se em agremiações criadas depois do pleito passado. O movimento reforça a volatilidade das filiações no país e reposiciona forças já na largada da corrida de 2026, cujo prazo de registro terminou em 15 de agosto e agora passa pelo crivo do TSE.
Quem mais ganhou – e quem mais perdeu – concorrentes
O Partido Liberal (PL) foi o maior imã de filiações no ciclo: 349 candidatos vindos de outras legendas agora disputam sob a bandeira liberal. Em seguida aparecem Podemos (291), Republicanos (283), MDB (279) e PSD (250). A lista dos dez maiores beneficiados se completa com PSDB (231), União Brasil (200), Avante (193), Novo (187) e PSB (180).
Top 5 partidos que mais atraíram candidatos
- PL – 349 novos nomes
- Podemos – 291
- Republicanos – 283
- MDB – 279
- PSD – 250
Na outra ponta, o União Brasil amarga o maior êxodo: 273 políticos que representaram a sigla em 2022 buscaram novos ares. PL (216), PP (204), Republicanos (194) e PSD (194) também viram esquadrões inteiros se dissipar.
Top 5 partidos que mais perderam candidatos
- União Brasil – 273 baixas
- PL – 216
- PP – 204
- Republicanos – 194
- PSD – 194
Saldos: quem ficou no azul e quem afundou
Ao comparar entradas e saídas, o partido Novo exibe o melhor resultado líquido: adquiriu 187 candidatos e perdeu apenas 14, encerrando o ciclo com um superávit de 173 nomes. A sigla atraiu quadros de 23 partidos diferentes; as principais origens foram PL (26), PTB (20) e Podemos (15).
No sentido oposto, o PRTB registrou o pior desfalque. Dos filiados que enfrentaram as urnas por lá em 2022, 85 migraram para 22 legendas distintas, principalmente Novo (13), PL (12) e Democracia Cristã (8).
Impacto das fusões, incorporações e novos nomes
As mexidas no tabuleiro partidário também explicam parte do vai-e-vem. Entre os atuais candidatos, 944 concorreram em 2022 por siglas que deixaram de existir, mudaram de nome ou foram absorvidas por outras legendas.
Principais reconfigurações
- Patriota + PTB = PRD
– Do antigo Patriota, 206 postulantes se espalharam por outras siglas, inclusive o recém-criado PRD.
– Entre ex-PTB, 167 buscaram novo abrigo. - PSC incorporado ao Podemos
– O desaparecimento do PSC, em junho de 2023, enviou 189 políticos à lista de filiados do Podemos ou de outras casas. - PMN vira Mobiliza
– Com a troca de nome, 152 candidatos que usaram a sigla PMN em 2022 aparecem agora como Mobiliza. - PROS funde-se ao Solidariedade
– A incorporação, selada em fevereiro de 2023, mantém 134 ex-PROS na eleição de 2026. - PMB rebatizado como Democrata
– Dos antigos filiados, 96 permanecem na disputa com o rótulo novo.
Somadas, essas alterações criaram atalhos obrigatórios para quem pretendia permanecer candidato: bastava seguir o partido sucessor ou negociar com outra legenda — decisão que ampliou ainda mais a circulação de filiados pelo sistema.
Como o estudo foi realizado
Os dados saíram do repositório oficial de Dados Eleitorais do TSE e foram cruzados pelo CPF de cada concorrente. O recorte inclui somente políticos que disputaram cargo eletivo em 2022 e registraram nova candidatura agora em 2026. O prazo de entrega de documentação encerrou-se no último dia 15; a partir de agora, a Justiça Eleitoral analisa eventuais impugnações de registro.

Imagem: Internet
Ao todo, 34 legendas válidas participam do pleito de 2026. Destas, 23 receberam ao menos um candidato vindo de sigla diversa, e 22 perderam integrantes que vestiram outra camisa. Só as siglas nanicas PCB, UP e PCO praticamente não sofreram alterações relevantes, com migrações inferiores a três nomes.
Efeitos práticos na campanha
A troca de partido muda cálculos em várias frentes. Primeiro, altera o montante de fundo partidário e de tempo de rádio e TV, já que esses recursos são distribuídos conforme o volume de representantes e de votos recebidos no ciclo anterior. Segundo, interfere na estratégia de coligações e federações, pois a chegada de nomes competitivos pode fortalecer chapas regionais ou nacionais.
Para os candidatos, a decisão envolve fatores como afinidade programática, visibilidade, acesso à máquina partidária e, não raro, negociações por vaga em coligações majoritárias. Muitos avaliam também a formação de federações, que obrigam partidos a atuar juntos por ao menos quatro anos e reduzem riscos de isolamento político.
Janela partidária não é exigida para quem não tem mandato
Enquanto detentores de mandato precisam respeitar a “janela partidária” — período específico em que a mudança de legenda não implica perda de cargo —, candidatos sem cargo eletivo têm liberdade para mudar de sigla a qualquer momento. Isso ajuda a explicar o percentual elevado de migração entre um pleito e outro.
O que esperar até a votação
Com os registros sob análise, o TSE tem até o início de setembro para deferir ou impugnar candidaturas. Mudanças de partido posteriores ao prazo final não são mais permitidas, mas cancelamentos ou renúncias ainda podem alterar o quadro. Qualquer impugnação influenciará a contabilidade de tempo de propaganda e poderá, novamente, reconfigurar a correlação de forças internas nas legendas.
Mesmo estabilizado o mapa partidário, a eleição de 2026 já nasce com um índice recorde de migração — uma marca que sinaliza tanto a fragmentação quanto a fluidez das alianças políticas no país.
