A retirada do sigilo sobre a 9ª fase da Operação Compliance Zero, determinada pelo ministro André Mendonça, expôs na quinta-feira (30) os motivos que levaram a Polícia Federal a pedir o monitoramento telefônico do senador Jaques Wagner (PT-BA). Um dia depois, o ex-governador da Bahia declarou, em entrevista à Rádio Baiana FM, que “vai provar a inocência” e que segue concentrado na campanha pela reeleição ao Senado.
Os investigadores afirmam que Wagner atuou no Congresso para favorecer o Banco Master e, em troca, teria recebido um apartamento avaliado em R$ 2,5 milhões e repasses a empresas ligadas à família. O parlamentar nega qualquer benefício ilícito, assegura que o imóvel jamais integrou seu patrimônio e lembra que denúncias anteriores – como as relacionadas às obras da Arena Fonte Nova, em 2018 – não resultaram em condenação.
Decisão do STF escancara detalhes da investigação
Em junho, Mendonça autorizou buscas, quebras de sigilo e a interceptação de celulares do senador e do ex-sócio do banco, Augusto Lima. A decisão permaneceu sob sigilo até quinta, quando passou a ser pública. De acordo com a Polícia Federal, as conversas por voz eram o principal canal para “tratativas sensíveis”, estratégia que dificultava a produção de registros escritos.
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Risco de vazamentos antecipou escutas
O inquérito menciona a preocupação com um possível vazamento: no mesmo dia em que a PF protocolou o pedido de mandados, um dos alvos solicitou audiência particular com o ministro do STF. Fontes ouvidas pela TV Globo confirmam que o requerente foi o próprio Jaques Wagner. A corporação interpretou o gesto como indício de que informações sobre a operação poderiam ter chegado ao grupo investigado.
Além do parlamentar, o ex-sócio Augusto Lima e outros aliados estariam monitorando agentes públicos que atuavam no caso, segundo relatório policial. Para os investigadores, acessar em tempo real áudios, chamadas e mensagens de ambos era crucial para preservar a apuração.
Suspeita de troca de favores no Congresso
Relatórios da Operação Compliance Zero apontam que o Banco Master, comandado por Daniel Vorcaro, montou um esquema bilionário de fraudes, lavagem de dinheiro e obstrução da Justiça. Nesse contexto, Wagner teria usado o mandato para defender interesses do grupo em comissões legislativas e articulações partidárias.
Benefícios financeiros na mira
A PF sustenta que, como contrapartida, o senador teria recebido o apartamento de luxo em Salvador e repasses indiretos a empresas de parentes. Os investigadores elencam movimentações bancárias, troca de mensagens entre Augusto Lima e o parlamentar, além de registros de reuniões presenciais em Brasília e em São Paulo.
Wagner refuta a acusação: “Nunca atuei em favor do Banco Master ou de qualquer instituição financeira”, declarou na entrevista. Segundo o petista, o imóvel mencionado foi apenas oferecido, mas não chegou a ser adquirido, nem consta em sua declaração de bens.
Pronunciamento do senador e impacto eleitoral
No mesmo dia em que o STF liberou os autos, Wagner recorreu ao rádio para reafirmar a confiança no desfecho do caso. “Estou absolutamente tranquilo. O inquérito demora, mas tenho certeza de que vou comprovar minha inocência”, afirmou, destacando que a convenção partidária deste sábado (1º) contará com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Faltando pouco mais de dois meses para o pleito, o petista lidera a chapa governista na disputa por uma das vagas do Senado destinadas à Bahia. Aliados avaliam que a exposição do processo pode mobilizar a oposição, mas também permitir que o próprio parlamentar divulgue sua versão antes que denúncias ganhem força nas redes sociais.

Imagem: Internet
Liberdade para PF e MP
Ao comentar a operação, Wagner reconheceu a autonomia dos órgãos de controle: “A Polícia Federal e o Ministério Público têm total liberdade para investigar.” Ele, no entanto, reiterou que qualquer deliberação judicial deve respeitar o devido processo legal e os direitos de defesa.
Operação Compliance Zero: panorama geral
Lançada em 2025, a operação mira um esquema que, segundo a PF, se infiltrou em múltiplas frentes do mercado financeiro para desviar recursos e lavar dinheiro no exterior. Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, é apontado como líder da organização criminosa.
Nove fases e efeitos políticos
Desde a primeira etapa, agentes cumpriram mais de 200 mandados de busca em oito estados e bloquearam valores que superam R$ 5 bilhões. A 9ª fase, deflagrada em junho, concentrou-se em mapear a suposta rede de proteção política que blindava o banco. A inclusão de um senador da base governista ampliou a repercussão e colocou o Planalto em posição defensiva.
Para investigadores, o caso combina delitos clássicos do colarinho-branco – corrupção, evasão de divisas e lavagem – com estratégias modernas de criptografia, firmas offshore e uso de influenciadores de mercado. Já a defesa de Vorcaro alega perseguição regulatória e nega que a instituição tenha se beneficiado de decisões parlamentares.
Próximos passos do inquérito
Com o material apreendido – computadores, celulares e documentos digitais – a PF deverá produzir novo laudo pericial antes de decidir se pede indiciamento formal de Jaques Wagner e Augusto Lima. O relatório será enviado à Procuradoria-Geral da República, que avaliará eventual denúncia ao Supremo.
Advogados do senador pretendem requerer acesso integral às mensagens interceptadas e, se necessário, solicitar que peritos independentes atestem a autenticidade dos áudios. Eles também cogitam acionar o Conselho de Ética do Senado para reclamar de “vazamentos seletivos” que, na visão da equipe, têm finalidade eleitoral.
Histórico de investigações contra Jaques Wagner
Ex-governador por dois mandatos e ministro em gestões petistas, Wagner já figurou em outros inquéritos de grande repercussão. Em 2018, foi alvo de busca da Operação Cartão Vermelho, que investigava sobrepreço na reforma da Arena Fonte Nova. O procedimento foi arquivado sem acusação, após o Ministério Público concluir que não havia provas suficientes.
O senador costuma atribuir a frequência de suspeitas ao seu histórico político na Bahia, reduto crucial para o PT no Nordeste. “Não é a primeira vez que me investigam em véspera de eleição”, costuma dizer a interlocutores. A avaliação interna é de que o arquivamento de processos anteriores ajudará a narrativa de que ficará, mais uma vez, livre de culpa.
Enquanto a disputa eleitoral se intensifica, o desfecho da nova investigação deve se prolongar para além da votação de outubro. Até lá, Jaques Wagner aposta na visibilidade de palanque ao lado de Lula para conter o desgaste político e manter o favoritismo nas pesquisas.
