Relatórios da Polícia Federal até então mantidos em segredo foram liberados nesta quinta-feira (30) pelo ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça e detalham a suspeita de que o senador Jaques Wagner (PT-BA) atuou no Senado em favor do Banco Master em troca de vantagens financeiras e presentes de alto valor. O material faz parte da nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em junho, quando o parlamentar teve endereços vasculhados e foi apontado como articulador de mudanças na margem do crédito consignado, tema de interesse direto da instituição financeira.
Entre as novas evidências surgem 74 chamadas telefônicas entre Wagner e o ex-sócio do banco, Augusto Ferreira Lima, além de vinhos de importação superior a R$ 5 mil, ingressos VIP para shows de Taylor Swift e a promessa de transporte em jato particular. A polícia ainda menciona repasses que totalizam R$ 3,5 milhões a empresas da família do senador e a cessão de um apartamento avaliado em R$ 2,45 milhões em Salvador.
Sigilo derrubado pelo STF
O desbloqueio dos autos ocorreu a pedido da Procuradoria-Geral da República, que viu “interesse público” na publicidade dos dados. Mendonça autorizou e, com isso, vieram a público centenas de páginas de diálogos, planilhas e fotos apreendidas nos celulares de Augusto Lima e de outros investigados. Os documentos se somam aos indícios já apresentados em junho, quando Wagner foi alvo de busca e apreensão.
A PF sustenta que o senador usou influência política para acelerar ou moldar projetos de lei que ampliariam o mercado de consignados, elevando o limite de comprometimento de renda de servidores e aposentados — medida que abriria caminho para ganhos bilionários do Banco Master. Em contrapartida, haveria pagamentos indiretos ao parlamentar e a pessoas de seu círculo mais próximo.
Mimos de alto valor: vinhos e Taylor Swift
Garrafas de até R$ 5,3 mil
Um dos relatórios descreve conversa de dezembro de 2024 entre Augusto Lima e sua secretária. Eles combinam o envio de “lembranças de fim de ano” a políticos baianos, incluindo Jaques Wagner, o governador Jerônimo Rodrigues (PT), o ex-governador Rui Costa (PT), o prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil), e o ex-prefeito ACM Neto (União Brasil). As “lembranças” eram garrafas de vinho cotadas entre R$ 2,5 mil e R$ 5,3 mil.
Os agentes localizaram imagens das caixas de bebida, trocadas pelo aplicativo de mensagens, e concluíram que os brindes “efetivamente foram enviados”. Embora o valor unitário seja menor do que os milhões apurados na investigação, a PF afirma que o gesto pode configurar vantagem indevida a agente público.
Sete ingressos para a turnê da estrela pop
Outro capítulo que chama atenção envolve shows da cantora Taylor Swift. Documentos mostram que, em agosto de 2023, Augusto Lima comprou dois ingressos de categoria premium, desembolsando R$ 63.339 para atender familiares de Wagner. Em novembro do mesmo ano, a empresa Reag Investimentos, também investigada, custeou cinco entradas de camarote avaliadas em aproximadamente R$ 3,5 mil. O total atribuído ao benefício chega a R$ 66.839.
Para os investigadores, a oferta dos bilhetes reforça a tese de “proximidade interessada” entre o banqueiro e o senador, que já era observada em outras trocas de mensagens.
Relação estreita confirmada por 74 ligações
A análise do celular de Augusto Lima registrou 74 chamadas de áudio entre ele e Jaques Wagner entre novembro de 2023 e maio de 2025, somando 5h32min de conversa. A PF destaca que, diferentemente de outros interlocutores, os dois preferiam ligações a mensagens de texto, possivelmente para reduzir rastros digitais.
Em uma delas, o banqueiro oferece sua casa na ilha da Paixão, no litoral norte da Bahia, e coloca à disposição um avião particular para buscar Wagner e familiares. A troca termina em tom de intimidade: “A gente ama vocês”, escreve a esposa do senador; “Amamos vocês!!”, devolve Lima.
“Marketing” de proximidade ao governo
Trechos extraídos do aparelho de Daniel Vorcaro, outro ex-sócio do Master, mostram que a turma do banco via vantagem em propagar a imagem de que era “próxima do governo”. Vorcaro orienta um interlocutor a levar tal narrativa “ao presidente Lula e à base aliada”. A pessoa responde: “Vou mandar então pra tio Guiga e Jaques”, citando Wagner e Guilherme Sodré, amigo do senador. A PF vê nesses diálogos a tentativa de transformar relações pessoais em ativo de mercado.

Imagem: Internet
Encontros discretos no gabinete
Os investigadores mapearam agendas que indicam pelo menos três reuniões presenciais em Brasília, sempre no gabinete de Jaques Wagner, espaço considerado “mais protegido e discreto” pelo próprio senador em áudio endereçado a Lima. Um desses encontros, marcado para 29 de abril de 2024, teria contado com a presença do advogado-geral da União, Jorge Messias, a quem Wagner chama apenas de “Messias”.
No celular do banqueiro, há um contato salvo sob o nome de Messias, mas sem mensagens armazenadas. A ausência de conversa é explicada pela ativação de recurso que apaga o histórico automaticamente, o que a polícia considera mais um indício de tentativa de sigilo.
Reuniões em dias-chave no Congresso
As datas dos encontros coincidem com momentos decisivos na tramitação de projetos de interesse do Banco Master. Em pelo menos duas ocasiões, votações sobre consignado avançaram logo após reuniões descritas nos chats. A PF cruzou horários e concluiu que Lima esteve no Senado em intervalos de poucas horas antes ou depois de votações relevantes.
Suspeitas de propina e lavagem de dinheiro
Além dos brindes, a PF aponta que Augusto Lima teria bancado a compra de um apartamento em área nobre de Salvador, avaliado em R$ 2,45 milhões, para a família de Wagner. Outro eixo da investigação mira pagamentos de R$ 3,5 milhões a empresas ligadas ao clã do senador, feitos entre 2022 e 2024. A suspeita é de que essas transferências camuflaram propina por meio de contratos de fachada.
Os investigadores falam em possível prática dos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Se denunciado e condenado, o parlamentar pode enfrentar penas que, somadas, superam 20 anos de prisão, além de perda de mandato e inabilitação para funções públicas.
O que dizem os citados
Até o fechamento desta reportagem, Jaques Wagner não havia se manifestado publicamente sobre o conteúdo recém-divulgado. Em ocasiões anteriores, ele negou ter recebido propina ou favorecido o Banco Master. A defesa sustenta que as relações com Augusto Lima são “de amizade” e que os presentes “não comprometeram a independência parlamentar”.
Rui Costa, Jerônimo Rodrigues, Bruno Reis, ACM Neto e Antônio Rueda, citados apenas como destinatários dos vinhos, não respondem a inquérito na Operação Compliance Zero. Procurados, eles informaram, por meio de assessorias, que não tinham conhecimento da origem dos brindes ou confirmaram a devolução dos presentes após a deflagração da operação.
A defesa de Augusto Lima diz que as interações ocorreram dentro da legalidade e que o empresário “jamais pediu contrapartida”. A Reag Investimentos afirmou que colaborará com as autoridades e que o patrocínio dos ingressos “teve caráter institucional”.
O Banco Master, por sua vez, declarou que não compactua com práticas ilícitas, que mantém rígidos controles de compliance e que segue colaborando com a apuração.
