O fim de semana de convenções partidárias colocou, oficialmente, Luiz Inácio Lula da Silva e Renan Santos na corrida ao Palácio do Planalto em 2026. O PT chancelou, no domingo (2), a sétima candidatura do presidente, que prometeu uma gestão “mais combativa” e apresentou um pacote de propostas sociais e econômicas. Já no sábado (1), o recém-criado Missão carimbou o nome do fundador do MBL como aposta para enfrentar, ao mesmo tempo, Lula e um eventual bolsonarismo remanescente.
Os dois eventos, acompanhados por repórteres que participaram do podcast “O Assunto”, revelaram o tom que cada campanha pretende adotar: o petista disposto a “brigar” com o Congresso para retomar a iniciativa política, e o estreante Renan procurando capitalizar a insatisfação de parte do eleitorado com a polarização ao se apresentar como o “adversário de ambos os extremos”.
O que marcou a convenção do PT
Pedir desculpas para avançar
Falando por pouco mais de uma hora no centro de convenções em São Paulo, Lula iniciou seu discurso reconhecendo “erros que machucaram o povo brasileiro”, em referência indireta a crises econômicas, equívocos na comunicação e casos de corrupção que afetaram administrações petistas anteriores. O pedido de desculpas, segundo relato da repórter Nayara Felizardo, funcionou como porta de entrada para uma defesa enfática de seus três mandatos completados até agora.
“Lulinha Porreta” e o recado ao Congresso
Ao declarar que não voltará a ser “Lulinha Paz e Amor”, mas sim “Lulinha Porreta”, o presidente avisou que planeja confrontar as regras atuais das emendas parlamentares. O alvo principal são as chamadas emendas de relator, vistas pelo Planalto como obstáculo para programas prioritários do Executivo. Lula garantiu que, se reeleito, vai “disputar palmo a palmo” o Orçamento com deputados e senadores.
Pontos centrais do pacote de promessas
- Educação: retomada do Minha Casa Minha Vida Estudantil, ampliação de creches e a promessa de universalizar o tempo integral no ensino fundamental.
- Transição energética: incentivo fiscal à indústria de painéis solares e veículos elétricos, além de metas de descarbonização para 2035.
- Idosos: criação de um auxílio de cuidado permanente para famílias com pessoas acima de 75 anos em situação de vulnerabilidade.
- Indústria militar: modernização dos estaleiros da Marinha e conclusão do cargueiro KC-390 como vitrines de tecnologia nacional.
- Terras raras: mapeamento geológico e linhas de crédito especiais para a exploração sustentável desses minerais estratégicos.
Janja, Haddad e recados internos
No momento mais simbólico da convenção, Lula quebrou o protocolo ao convidar a primeira-dama, Janja, para discursar. O gesto, segundo o colunista Bernardo Mello Franco, reforça o papel crescente da socióloga na construção da imagem pública do petista. No campo político, outro recado foi direcionado a Fernando Haddad, apresentado como “sucessor natural” para 2030, após desconforto gerado por especulações em torno do ministro Camilo Santana (Educação).
A largada de Renan Santos
Do MBL ao Missão
Empresário, ativista digital e estreante em eleições majoritárias, Renan Santos migrou da coordenação do Movimento Brasil Livre para liderar o Partido Missão, legenda que conseguiu registro definitivo apenas no ano passado. A convenção presencial em Brasília ratificou o nome anunciado dias antes em reunião remota da executiva nacional.
Rejeição à “terceira via”
Diante de cerca de dois mil apoiadores, o candidato rejeitou o rótulo de terceira via. “Nós não somos muleta de ninguém, somos a oposição real”, declarou, numa fala que mirou tanto o lulismo quanto resquícios do bolsonarismo. O posicionamento foi sublinhado por críticas diretas ao senador Flávio Bolsonaro, acusado por Renan de “trair o combate à corrupção”.
Segurança pública como carro-chefe
O endurecimento nas políticas de segurança pública dominou metade do discurso, relatou a repórter Rosana Cerqueira. Entre as propostas anunciadas estão:

Imagem: Internet
- Ampliação do excludente de ilicitude para operações policiais em áreas consideradas de “alto risco”.
- Programa federal para equipar guardas municipais com armas de grosso calibre.
- Criação de um “Fundo Anticrime” abastecido por bens apreendidos do tráfico.
- Tolerância zero a crimes contra o patrimônio, com a frase de efeito “quem roubar vai tombar”, que repercutiu negativamente entre organizações de direitos humanos.
O que dizem os analistas
Bernardo Mello Franco e o choque de narrativas
Convidado do episódio 1.775 de “O Assunto”, o colunista avalia que Lula aposta na continuidade de um eleitorado fiel, mas procura imunizar-se de ataques sobre corrupção ao pedir desculpas logo de saída. Já Renan Santos, “sem rejeição consolidada”, tenta ocupar o espaço que ficou órfão após a implosão de candidaturas de centro em 2022, mas corre o risco de ficar restrito a nichos digitais se não ampliar alianças.
Tempo de TV, base partidária e ruas
Na projeção do Tribunal Superior Eleitoral, o PT contará com a segunda maior fatia de tempo de rádio e TV, atrás apenas do PL. O Missão, por ser sigla recém-chegada, terá espaço reduzido: aproximadamente 20 segundos por bloco. Para Mello Franco, a diferença exigirá de Renan uma campanha “quase artesanal”, depositando fichas nas redes sociais e em caravanas pelo interior para compensar a pouca exposição no horário eleitoral gratuito.
O papel das emendas parlamentares
Ao prometer guerra ao Congresso, Lula testa os limites de uma aliança multipartidária que inclui legenda de centro como o MDB. Analistas ouvidos pelo podcast lembram que o mecanismo das emendas é hoje uma das principais moedas de negociação entre Executivo e Legislativo. Uma mudança brusca pode frear a governabilidade logo no primeiro ano de um eventual novo mandato.
Repercussão nas bases e próximos passos
Mobilização petista
Lideranças de movimentos sociais, centrais sindicais e coletivos de economia solidária já planejam mutirões de filiação e eventos temáticos em universidades para sustentar a campanha do PT. A meta é repetir a mobilização de 2022, quando a militância digital e presencial foi decisiva contra a máquina de notícias falsas identificada na época.
Estratégia do Missão
Em conversa reservada após a convenção, assessores de Renan Santos revelaram que a prioridade, nas próximas semanas, será fechar coligações regionais que garantam estrutura mínima nos estados. A sigla negocia, por exemplo, apoiar candidaturas governistas no Sul e no Centro-Oeste em troca de palanques para o presidenciável.
Por que o fim de semana muda o jogo
Com as duas homologações, o leque de candidaturas competitivas começa a ganhar contornos mais claros. Os discursos opostos de Lula e Renan estabelecem linhas de conflito que deverão pautar o debate público: orçamento versus emendas, garantias de direitos versus combate duro ao crime, experiência de governo versus outsider digital. A partir de agora, cada passo desses candidatos passará a ser escrutinado por um eleitorado ainda dividido — e por partidos que aguardam a definição dos cenários para decidir onde pousar.
