PF abre inquérito contra Lulinha após pressão política e autorização de André Mendonça

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    A Polícia Federal ganhou sinal verde do Supremo Tribunal Federal para abrir um inquérito específico sobre Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha. A autorização foi dada pelo ministro André Mendonça num momento em que a corporação vinha sendo cobrada, dentro e fora do STF, por não investigar o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enquanto avançava sobre parlamentares ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

    Com a decisão, a PF passa a apurar se Lulinha praticou tráfico de influência e corrupção ao tentar favorecer o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, em negociações com o Ministério da Saúde para fornecimento de medicamentos à base de canabidiol. A medida é vista nos bastidores como uma resposta direta às pressões da oposição e a críticas internas no Supremo sobre suposta seletividade nas investigações.

    Pressão política e incômodo no STF

    Nos últimos meses, deputados da base bolsonarista vinham acusando a PF de agir com dois pesos e duas medidas: de um lado, avançava sobre Flávio e Eduardo Bolsonaro; de outro, não abria procedimento exclusivo contra Lulinha. Segundo parlamentares oposicionistas, as queixas se intensificaram após vir a público que o filho do presidente fez cerca de 1,5 mil transações bancárias que somaram R$ 19,5 milhões entre 2022 e 2026, informação obtida a partir da quebra de sigilo determinada em outra investigação.

    O desconforto também ganhou eco dentro do próprio Supremo. Fontes que acompanham os inquéritos afirmam que ministros vinham cobrando, reservadamente, critérios uniformes na escolha dos alvos. Diante desse cenário, a PF pediu formalmente a instauração de um inquérito apartado e o sorteio do relator recaiu sobre André Mendonça. Na decisão que autorizou o procedimento, o ministro destacou a “necessidade de apuração isenta e abrangente”.

    De onde surgiu a suspeita

    Durante a Operação Sem Desconto, que investiga fraudes bilionárias no INSS, a PF identificou interlocuções do lobista “Careca do INSS” com empresários do setor de cannabis medicinal. Embora não tenham sido detectados indícios contra Lulinha nas fraudes previdenciárias, agentes mapearam conversas que apontariam tentativa de aproximar o lobista do Ministério da Saúde na gestão petista.

    Segundo relatório já juntado aos autos, Camilo Antunes buscava vender, por meio da empresa World Cannabis, lotes de medicamentos de canabidiol ao governo em 2024 e 2025. O contrato, estimado em dezenas de milhões de reais, não saiu do papel. A PF quer saber se Lulinha usou sua influência para abrir portas na pasta e, em contrapartida, se recebeu benefícios financeiros ou outras vantagens.

    A viagem a Portugal

    Um dos episódios que embasaram o pedido de inquérito foi uma viagem de Lulinha e Camilo Antunes a Portugal, em novembro de 2024, para visitar uma fábrica europeia de fármacos derivados de cannabis. A defesa confirma a presença do filho do presidente, mas afirma que foi “uma ida de caráter técnico, sem qualquer desdobramento comercial” e bancada pelo próprio lobista.

    Agenda no Ministério da Saúde

    Outro ponto sob escrutínio é uma reunião em janeiro de 2025 entre Camilo Antunes e Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo do ministério e braço direito da ministra à época. Barbosa alegou, em nota enviada à imprensa, que a audiência ocorreu “dentro das atribuições do cargo” e não resultou em contratação. Meses depois, ele deixou a pasta e foi trabalhar no Palácio do Planalto, o que alimentou especulações sobre eventual lobby bem-sucedido.

    Argumentos da defesa

    Advogado de Lulinha, Marco Aurélio de Carvalho diz que a PF faz “pesca probatória” depois de não encontrar ligação do cliente com o esquema de fraudes no INSS. “Ele não tem relação direta ou indireta com benefícios previdenciários nem com negócios de Roberta Luchsinger”, afirma, referindo-se à empresária que intermediou o encontro entre Lulinha e o lobista. A defesa da empresária também nega repasses de qualquer valor ao filho do presidente.

    Carvalho sustenta que toda a movimentação financeira de seu cliente é “lastreada por atividades empresariais lícitas” e ressalta que, até agora, não há denúncia do Ministério Público. “Se houver irregularidade comprovada, ele próprio já disse que deve ser investigado; mas abrir novo inquérito só porque o anterior não deu em nada é irregular”, conclui.

    Quem é o “Careca do INSS”

    Figura já conhecida nos corredores de Brasília, Antônio Camilo Antunes ganhou o apelido de “Careca do INSS” após ser apontado como articulador de esquemas que desviavam aposentadorias e pensões mediante falsificação de laudos. Na Operação Sem Desconto, ele aparece como um dos beneficiários diretos das fraudes, com suspeita de ter movimentado milhões em contas no exterior.

    Com trânsito em diferentes ministérios desde governos anteriores, Antunes mudou o foco para o mercado de cannabis medicinal a partir de 2023. Para isso, contratou Roberta Luchsinger—figura conhecida por doações políticas e eventos de luxo—com a missão de abrir portas no governo para a World Cannabis. A investigação quer saber se Lulinha entrou nesse circuito como facilitador.

    Movimentações financeiras em debate

    O relatório que derrubou as resistências internas menciona 1,5 mil transações bancárias atribuídas a Lulinha entre 2022 e 2026, somando R$ 19,5 milhões. A defesa argumenta que a maior parte se refere a repasses entre contas da própria família, dividendos de participações empresariais e investimentos em startups de tecnologia ambiental.

    Investigadores enxergam, porém, incompatibilidade entre parte dos créditos recebidos e o faturamento oficial das empresas ligadas a Lulinha. Cruzamentos preliminares indicam depósitos em espécie e repasses de terceiros que ainda não foram identificados. Um dos objetivos do novo inquérito é rastrear essas origens e descobrir se há conexão com o suposto lobby no Ministério da Saúde.

    Próximos passos da investigação

    Com o inquérito instaurado, a PF deverá intimar Lulinha a prestar depoimento nas próximas semanas. Também deve colher esclarecimentos de Swedenberger Barbosa, Roberta Luchsinger e Camilo Antunes. A corporação pretende pedir quebra de sigilo telefônico e telemático do grupo para reconstituir eventuais tratativas não documentadas em agendas oficiais.

    O prazo inicial para conclusão é de 90 dias, prorrogáveis mediante autorização do relator. Ao fim, o Ministério Público Federal avaliará se oferece denúncia ou se arquiva o caso. No Supremo, interlocutores de André Mendonça dizem que o ministro pretende acompanhar de perto a coleta de provas para evitar alegações de “investigação política”.

    Clima de tensão no Planalto

    No Palácio do Planalto, auxiliares de Lula admitem preocupação com o impacto político da investigação em ano de articulações no Congresso. A ordem é evitar manifestações públicas que soem como interferência na PF ou no STF. O presidente, por sua vez, mantém discurso de que “ninguém está acima da lei”, repetindo a frase usada quando vieram a público as suspeitas sobre os filhos de Bolsonaro.

    Para a oposição, o inquérito reforça a narrativa de que o governo petista não está imune a escândalos. Parlamentares prometem convocar envolvidos para prestar esclarecimentos em comissões da Câmara e do Senado. Já na base governista, líderes acreditam que a investigação não produzirá fatos concretos e que o episódio deve arrefecer após a entrega do relatório da PF.

    Impacto na relação PF-governo

    A abertura do inquérito ocorre num momento em que a PF busca preservar a imagem de autonomia conquistada nos últimos anos. Delegados ouvidos reservadamente afirmam que o caso servirá de “teste” para demonstrar independência tanto em relação ao Executivo quanto a pressões de oposicionistas.

    Seja qual for o desfecho, o processo coloca novamente holofotes sobre a atuação dos filhos de presidentes e a fronteira, por vezes nebulosa, entre influência política e lobby ilegal em Brasília.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.