Manter a saúde em dia é hoje o maior desejo de quase um quinto da população brasileira. Levantamento realizado pela Quaest entre 10 e 13 de agosto indica que 19% dos eleitores colocam “ter saúde” no topo de suas aspirações pessoais, à frente de ambições como morar em um lugar sem violência (15%) e garantir a felicidade da família e dos amigos (12%).
Os números fazem parte de uma série de pesquisas encomendadas pela Globo e pelo jornal O Globo para acompanhar o humor do eleitorado até o primeiro turno das eleições de 2026. Foram ouvidas 2.004 pessoas em todos os estados, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
O ranking completo dos desejos
Além dos três primeiros colocados, outros temas revelam onde apertam os sapatos dos brasileiros. Ter a casa própria aparece em quarto lugar, com 10%, empatado com “obter uma educação de qualidade para si e para a família”. O acesso regular à alimentação surge logo depois (8%), seguido por abrir o próprio negócio (5%), ver os filhos na faculdade (5%) e liquidar dívidas (4%). Os desejos de ficar rico, conquistar um bom emprego ou viajar empatam em 3%. Apenas 3% citaram algo diferente da lista sugerida, e não houve registro de indecisos.
Como o sonho de saúde varia pelo país
Nordeste – Na região, o porcentual dos que priorizam a saúde chega a 25%, seis pontos acima da média nacional. O dado confirma a posição histórica do tema entre as maiores preocupações nordestinas, tradicionalmente associadas a déficits de atendimento e infraestrutura hospitalar.
Sudeste – O quadro muda nos quatro estados mais populosos do país: aqui, o desejo principal é viver num local sem violência (17%), enquanto saúde fica em segundo plano, embora ainda com dois dígitos.
Demais regiões – No Sul, Centro-Oeste e Norte, o sonho de manter a saúde se mantém próximo à média, variando entre 17% e 20%.
Idade, renda e grau de instrução influenciam prioridades
Faixas etárias
- 16 a 34 anos – Para 15% dos jovens, a maior ambição é ver família e amigos felizes. Saúde aparece em segundo lugar, e segurança em terceiro.
- 35 a 59 anos – O desejo por saúde ultrapassa 18%, mas divide espaço com casa própria e segurança.
- 60 anos ou mais – Entre os mais velhos, a preocupação com o bem-estar físico dispara para 26%, consolidando a liderança do tema.
Nível de escolaridade
No segmento com ensino superior, a violência assume o posto de maior preocupação (22%). Já entre quem concluiu apenas o ensino fundamental ou médio, cuidar da saúde se mantém como prioridade absoluta.
Renda familiar
O estudo mostra que quanto menor o rendimento, maior a importância de sonhos relacionados a patrimônio básico. Nas famílias que recebem até dois salários mínimos, 13% elegem a casa própria como principal objetivo – proporção que cai para 9% na faixa de dois a cinco salários mínimos e chega a 6% entre aqueles com renda acima de cinco salários.
Recorte político expõe clivagens sobre segurança pública
Quando o público é dividido por posicionamento ideológico, o desejo de viver livre da violência desponta entre eleitores que se identificam com a direita. O tema ocupa o primeiro lugar para 20% dos direitistas não bolsonaristas e para 18% dos bolsonaristas. No centro e na esquerda, porém, o sonho de manter ou recuperar a saúde permanece na ponta.
Metodologia e próximos passos
A Quaest entrevistou presencialmente 2.004 pessoas em 120 municípios, registrando a pesquisa na Justiça Eleitoral sob o número BR-06773/2026. O instituto adota ponderação por sexo, idade, região, escolaridade, renda e religião, de modo a espelhar o perfil socioeconômico do eleitorado.

Imagem: Internet
Até 3 de outubro, véspera do primeiro turno, estão programadas outras 129 rodadas de sondagens encomendadas à Quaest e ao Datafolha. Além de medir corrida presidencial, os levantamentos abordarão disputas estaduais e vagas ao Senado.
Por que saúde domina o imaginário coletivo
Especialistas atribuem a centralidade do tema a fatores estruturais e conjunturais. De um lado, o envelhecimento da população e a prevalência crescente de doenças crônicas exigem mais atenção individual e coletiva. De outro, a pandemia de covid-19 expôs fragilidades do sistema, amplificando a percepção de que sem saúde nenhum outro projeto de vida se sustenta.
Segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil possui 45 mil equipes de Estratégia de Saúde da Família, mas a distribuição desigual de médicos e equipamentos faz com que filas para exames e consultas ainda dominem o noticiário local em muitas cidades. “Quando o cidadão lista seu maior sonho, ele está na prática expressando carências que experimenta no dia a dia”, avalia a socióloga Ana Viana, professora da UFRN.
Segurança pública aparece como segundo grande desejo
Com 15% das menções totais, viver em um lugar sem violência sintetiza a apreensão gerada por indicadores persistentes de criminalidade. Em 2023, o Brasil registrou 47 mil homicídios, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Embora os dados mostrem ligeira queda em relação a 2022, a sensação de insegurança permanece elevada, sobretudo nos centros urbanos.
No Sudeste, essa preocupação supera a busca por saúde, reflexo do peso populacional de Rio de Janeiro e São Paulo, onde crimes patrimoniais e confrontos armados dominam o cotidiano. Entre os entrevistados com diploma universitário, o tema também assume primazia, indicando que a violência alcança todas as classes, mesmo as de maior renda.
Casa própria e educação dividem o quarto lugar
Para 10% dos brasileiros, conquistar as chaves de um imóvel é o ápice do projeto de vida. O percentual reforça o impacto de programas habitacionais como o Minha Casa, Minha Vida e revela o peso do aluguel no orçamento de famílias de baixa renda. Empatado com o sonho da casa está o desejo de garantir educação de qualidade. A demanda se reflete nas longas filas por vagas em creches públicas e na expansão da rede federal de institutos tecnológicos.
Alimentação, emprego e riqueza: metas mais distantes
Ter comida na mesa diariamente foi a resposta de 8% dos entrevistados, número que chama atenção diante da recente queda nos índices de insegurança alimentar. Já o objetivo de ficar rico, ter um bom emprego ou viajar passou de forma modesta pelos questionários, com 3% cada. Para analistas, a baixa adesão pode indicar que, em um cenário de desafios básicos, metas de consumo ou lazer ficam para segundo plano.
Retrato de um país que prioriza o essencial
Na soma dos resultados, três eixos – saúde, segurança e bem-estar familiar – concentram quase metade dos sonhos dos eleitores. O dado sugere que, diante da volatilidade econômica e das incertezas políticas, a população foca no que considera indispensável para levar a vida adiante. Para candidatos e formuladores de políticas públicas, o recado é claro: propostas que mexam nesse tripé serão observadas de lupa pelo eleitor em 2026.
