Lula telefona para Putin, discute guerra na Ucrânia e cita expansão comercial entre Brasil e Rússia

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    Em conversa por telefone na manhã desta terça-feira (4), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva propôs ao líder russo Vladimir Putin novas iniciativas para aumentar o fluxo comercial entre Brasil e Rússia. Ao mesmo tempo, os dois chefes de Estado trocaram impressões sobre a guerra na Ucrânia, tema a respeito do qual Putin agradeceu os esforços diplomáticos conduzidos pelo governo brasileiro.

    Segundo comunicado distribuído pelo Kremlin, a ligação partiu do Palácio do Planalto e resultou em acordo para que os dois países mantenham coordenação estreita na Organização das Nações Unidas (ONU) e em outros fóruns multilaterais, onde costumam alinhar posições em debates sobre segurança internacional, energia e agricultura.

    Intensificar negócios e alinhar posições internacionais

    Autoridades russas informaram que Lula e Putin avaliaram caminhos práticos para elevar o comércio bilateral, que já tem nos fertilizantes um de seus pilares. A intenção é diversificar a pauta de exportações brasileiras — hoje concentrada em proteína animal, soja e café — e abrir espaço para que empresas dos dois países atuem em setores de energia, tecnologia e defesa.

    Durante a conversa, os presidentes ressaltaram que Moscou e Brasília costumam votar de forma semelhante em resoluções da Assembleia Geral da ONU. O entendimento, segundo ambos, deve facilitar negociações conjuntas em painéis sobre mudanças climáticas, segurança alimentar e governança da internet.

    A guerra na Ucrânia e o papel diplomático brasileiro

    Putin aproveitou o contato para registrar gratidão pela postura de Lula de insistir em uma saída política para o conflito que se arrasta desde fevereiro de 2022. O brasileiro tem reiterado a disposição de ajudar na mediação, embora defenda que a iniciativa inclua União Europeia, Estados Unidos, China e o próprio Conselho de Segurança da ONU.

    Nos bastidores do Itamaraty, diplomatas relatam que o telefonema responde a um pedido feito pelo presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, durante a última cúpula do G7, realizada entre 15 e 17 de junho, em Biarritz, na França. Na ocasião, Lula compareceu como convidado e ouviu de Zelensky a solicitação para que usasse sua relação com Moscou em favor do diálogo.

    Contexto do G7: convite ao Brasil e pressão por negociações

    Embora o Brasil não integre o grupo que reúne Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Japão, Lula participou da reunião deste ano a convite da presidência francesa. O Palácio do Eliseu buscava envolver potências emergentes em discussões sobre segurança global, crise climática e reforma das instituições de Bretton Woods.

    A presença de Zelensky no encontro transformou o G7 em arena de pressão pela ampliação de sanções contra Moscou e, paralelamente, abriu espaço para iniciativas de mediação. O pedido feito a Lula reflete a avaliação de Kiev de que o líder brasileiro, ao manter diálogo aberto com Putin, poderia interceder por corredores humanitários e, futuramente, por um cessar-fogo supervisionado.

    Brasil defende saída negociada

    Desde o início da guerra, o governo brasileiro sustenta que medidas unilaterais não bastam para conter a violência. No Conselho de Segurança, o país tem votado a favor de resoluções humanitárias e se abstido em textos que, na avaliação de seus diplomatas, contribuiriam para o “isolamento absoluto” da Rússia, considerado contraproducente para um processo de paz.

    A conversa desta terça reforça a linha adotada por Brasília: manter canais abertos com ambos os beligerantes e oferecer o Brasil como eventual sede de tratativas, caso exista vontade política mútua.

    Contato frequente: janeiro marcou diálogo sobre Venezuela

    O telefonema não foi o primeiro contato direto entre os dois presidentes neste ano. Em janeiro, Lula e Putin conversaram sobre a crise na Venezuela após a breve detenção de Nicolás Maduro por autoridades norte-americanas em aeroporto internacional. Na ocasião, defenderam a soberania venezuelana e manifestaram intenção de usar a ONU e o Brics para arrefecer tensões na América Latina.

    Além do eixo geopolítico, a chamada de janeiro serviu para revisar a agenda de cooperação bilateral. Setores como agricultura, energia, defesa, ciência e tecnologia foram apontados como prioritários. O diálogo desta terça-feira reafirma esse roteiro, agora com ênfase adicional na segurança alimentar, tema sensível diante da interrupção do corredor de exportação de grãos ucranianos pelo Mar Negro.

    Comércio em números e perspectivas

    • De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, a corrente de comércio entre Brasil e Rússia totalizou US$ 11,2 bilhões em 2023.
    • Os fertilizantes respondem por quase 60% das vendas russas ao mercado brasileiro, enquanto carne bovina, aves e soja lideram as exportações brasileiras.
    • Negociadores trabalham para incluir equipamentos de geração de energia, insumos farmacêuticos e soluções de tecnologia da informação na cesta bilateral.

    A intenção, conforme fontes nos dois governos, é retomar missões empresariais em Moscou e São Paulo ainda no segundo semestre. Existe também a expectativa de que o Novo Banco de Desenvolvimento, braço financeiro do Brics, ofereça crédito concessional para projetos conjuntos em infraestrutura e inovação.

    Próximos passos e sinalização política

    Ainda não há confirmação oficial sobre um encontro presencial. Auxiliares do Planalto admitem, contudo, que Lula estuda viajar a Moscou antes da próxima cúpula do Brics, marcada para novembro, em Kazan. O gesto poderia fortalecer o discurso brasileiro de engajamento ativo com diferentes polos de poder, ao mesmo tempo em que preserva a relação histórica com Estados Unidos e União Europeia.

    A movimentação é observada com cautela em Washington e Bruxelas, onde se teme que a diplomacia de equilíbrio de Lula acabe relativizando violações de soberania. O governo brasileiro, por sua vez, responde que a multiplicidade de diálogos é condição necessária para conquistar credibilidade como mediador.

    Fóruns multilaterais e reforma da governança global

    Na ligação, Putin e Lula concordaram em acelerar a coordenação dentro da ONU e do G20. Para o Palácio Itamaraty, a coincidência de posições sobre reforma do Conselho de Segurança — ambos defendem ampliação de assentos permanentes para emergentes — justifica a parceria.

    No Brics, a expectativa é que o bloco aprove até o fim do ano novo mecanismo de compensação em moedas locais, reduzindo a dependência do dólar em transações internas. A medida interessa a Brasília como forma de proteger exportadores brasileiros de volatilidades cambiais.

    Repercussão interna e avaliação de analistas

    Líderes do agronegócio brasileiro viram a conversa como sinal positivo para a regularidade no fornecimento de insumos. Agentes do mercado financeiro, contudo, aguardam detalhes sobre possíveis contratos na área de energia antes de revisar projeções de investimento.

    Especialistas em relações internacionais recordam que o Brasil historicamente cultiva laços com Moscou sem comprometer parcerias ocidentais. O desafio, observam, será equilibrar críticas ao conflito na Ucrânia com a defesa de um pragmatismo comercial cada vez mais necessário para a safra brasileira.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.