Juro elevado derruba criação de empregos formais; pior primeiro semestre desde 2020

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    A desaceleração da economia brasileira ficou explícita nos números divulgados pelo Ministério do Trabalho: entre janeiro e junho de 2026 foram abertas 921,6 mil vagas com carteira assinada, 25% a menos que no mesmo período do ano passado. Trata-se do resultado mais fraco para um primeiro semestre desde 2020, quando o auge da pandemia encerrou postos formais.

    O recuo acontece em meio ao juro básico em 14,25% ao ano, patamar que o Banco Central manteve elevado mesmo após três cortes sucessivos. Na prática, o custo do crédito asfixia investimentos empresariais e, como consequência, limita a contratação de trabalhadores.

    Retrato do emprego formal no semestre

    Saldo positivo, mas menor

    Apesar da perda de fôlego, o saldo acumulado de vagas permaneceu positivo. O estoque de vínculos celetistas chegou a 48,03 milhões em junho, ligeiramente acima dos 47,88 milhões registrados em maio e superior aos 47,07 milhões de um ano antes. A expansão, porém, foi a mais contida em seis anos, refletindo uma travagem gradual da atividade.

    Influência dos juros na contratação

    Autoridades e analistas convergem na explicação. Com a Selic batendo recorde mundial em termos reais, empresas seguram planos de expansão. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, acrescentou outros fatores de pressão, como o pacote tarifário dos Estados Unidos e os choques geopolíticos no Oriente Médio e na Ucrânia, que encarecem insumos e afetam a demanda externa por produtos brasileiros.

    Desempenho de junho: pior resultado em seis anos

    No mês de junho, 145,1 mil novos postos foram criados. Houve 2,22 milhões de admissões e 2,07 milhões de desligamentos. O desempenho representa retração de 10,4% em relação ao mesmo mês de 2025 e configura o pior junho desde 2020.

    Números mensais de janeiro a junho

    • Janeiro: 206,6 mil vagas
    • Fevereiro: 192,4 mil vagas
    • Março: 126,3 mil vagas
    • Abril: 105,0 mil vagas
    • Maio: 146,0 mil vagas
    • Junho: 145,1 mil vagas

    A curva mostra desaceleração progressiva, compatível com o aperto monetário prolongado.

    Setores que ainda geram emprego

    Todos os cinco grandes segmentos acompanhados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) contrataram em junho, mas em ritmo desigual:

    1. Serviços – maior criador de postos, puxado por saúde, educação e tecnologia.
    2. Comércio – avanço discreto, concentrado em vendas on-line e farmácias.
    3. Construção – demanda por obras habitacionais ainda sustenta contratações.
    4. Indústria – saldo positivo, porém modesto, limitado por custos financeiros altos.
    5. Agropecuária – movimento sazonal de colheita favoreceu o campo.

    Destaque regional

    As cinco regiões do país terminaram junho no azul. Sudeste e Sul responderam por mais da metade das novas vagas, impulsionadas por polos de serviços. Norte e Nordeste sentiram mais intensamente a pressão do crédito caro, embora também tenham fechado o mês com saldo positivo. O Centro-Oeste foi puxado pela agropecuária e pela cadeia de biocombustíveis.

    Renda de admissão reage

    O salário médio de quem ingressou no mercado formal chegou a R$ 2.404,34 em junho, corrigido pela inflação. O valor é superior aos R$ 2.387,44 de maio e aos R$ 2.376,95 de junho de 2025. Esse avanço real sugere maior disputa por mão de obra qualificada em segmentos específicos, mesmo com geração global mais fraca.

    Diferença entre Caged e Pnad

    É importante distinguir o Caged, que contabiliza apenas trabalhadores com carteira, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), do IBGE, que engloba também informais e conta própria. Enquanto o saldo do Caged mostra desaquecimento, a Pnad apurou taxa de desemprego de 5,6% no trimestre encerrado em maio, a menor da série para o período. A coexistência desses dois quadros indica migração de parte da força de trabalho para a informalidade ou para formas flexíveis de ocupação.

    Olhar do Banco Central

    No documento que acompanhou a última decisão sobre a Selic, o Comitê de Política Monetária reconheceu robustez incomum do mercado de trabalho diante do crescimento modesto do PIB. O colegiado afirmou que monitora de perto a relação entre emprego, renda e inflação de serviços, fator que explica a cautela para reduzir os juros em velocidade maior.

    O que esperar

    Embora o ministro do Trabalho projete melhora na segunda metade do ano, a maioria dos economistas vê recuperação lenta enquanto a taxa básica permanecer acima de dois dígitos. O próximo encontro do Copom e a evolução dos conflitos externos serão, portanto, decisivos para medir a disposição das empresas em voltar a contratar com mais vigor.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.