Em um encontro reservado na casa do ministro Alexandre de Moraes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, selaram uma trégua política depois de meses de distanciamento. Próximos da largada oficial da campanha de 2026, os dois decidiram retomar o diálogo de olho tanto no andamento de projetos com forte apelo popular quanto na acomodação de forças que virá após a eleição.
Os interesses são puramente pragmáticos. Lula, que parte para a disputa de um quarto mandato, precisa destravar pautas no Congresso para exibir “entregas” durante a campanha. Alcolumbre, por sua vez, busca garantir influência na próxima legislatura — seja qual for o resultado das urnas — e proteger o espaço que construiu na direção da Casa.
Jantar de Moraes restabelece canal político
O reencontro não brotou de afinidade pessoal. Desde a rejeição do advogado Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, em sessão conduzida por Alcolumbre, a relação entre Planalto e Senado estava congelada. Caberam a Moraes o convite e o ambiente neutro para que ambos voltassem a dividir a mesma mesa. Na conversa, trocaram sinais de que pretendem baixar a temperatura para tocar uma agenda de convergência mínima e, assim, atravessar a tempestade eleitoral sem explosões institucionais.
O cardápio explícito: PECs com apelo popular
No centro da mesa estavam a PEC da Segurança Pública e o projeto que acaba com a escala 6×1 no trabalho. Ambos rendem dividendos eleitorais: reforçam a imagem de um governo preocupado com cotidiano do eleitor e oferecem ao Senado a chance de protagonizar vitórias de alto impacto midiático.
O cardápio implícito: pacificação pós-urnas
Sem constar na pauta oficial, circulou a ideia de preparar o terreno para o “dia seguinte” da eleição. Parlamentares e autoridades presentes — ainda que discretamente — manifestaram receio de que investigações de grande repercussão, como o caso Master, avancem sem controle. A expectativa de parte do meio político é que, passada a votação, haja espaço para esfriar ou arquivar processos que ameaçam o sistema por dentro.
O que Lula quer e o que pode obter
Nas contas do Planalto, chegar a outubro com propostas aprovadas — ou pelo menos debatidas em alto volume — já seria suficiente para construir a narrativa de um Executivo ativo. Caso os textos emperrem, o governo pretende capitalizar o embate, atribuindo ao Congresso eventual bloqueio. Para qualquer um desses caminhos, Lula depende de quem segura a chave da pauta no Senado: Davi Alcolumbre.
Nova vitrine de campanha
A PEC da Segurança Pública permite ao presidente explorar o tema violência, recorrente nas pesquisas de opinião. O fim da escala 6×1, por sua vez, fala diretamente a uma fatia expressiva da força de trabalho formal. Ambas fornecem imagens simples de explicar em palanque, exatamente o que a campanha petista julga necessário para não repetir bandeiras já desgastadas.
As cartas de Alcolumbre
Durante o jantar, o senador lembrou a Lula quantos pedidos de CPI repousam em sua gaveta. O recado foi claro: ele detém poder para incendiar ou acalmar o ambiente político em plena corrida eleitoral. Além disso, Alcolumbre mostrou como distribui cargos em agências reguladoras, área em que o Planalto reclama da força do Senado nas indicações — nem sempre alinhadas a critérios técnicos, segundo o presidente.

Imagem: Ricardo Stuckert / PR
Sobrevivência na presidência da Casa
De olho em 2027, o senador enxerga um obstáculo potencial: Rogério Marinho, braço direito de Flávio Bolsonaro, já se movimenta para disputar o comando do Senado caso a oposição vença no Executivo. Manter pontes com Lula, portanto, é estratégia de seguro: se o PT continuar no Planalto, Alcolumbre terá argumento para prolongar seu domínio interno. Se não, tentará negociar espaço num eventual governo adversário a partir de uma posição de força construída agora.
Messias no STF continua indefinido
Apesar da reaproximação, não houve acordo para ressuscitar a indicação de Jorge Messias ao Supremo após as eleições. O Planalto manteve o nome na lista de prioridades, mas saiu do jantar sem garantias. Interlocutores lembraram que, antes da sabatina frustrada, o governo recebera alertas de que a derrota era certa — sinal de que as feridas ainda não cicatrizaram por completo.
Ponte para o futuro
Na prática, o encontro serviu menos para revisar o passado e mais para abrir caminho a futuras trocas. A imagem pública da reconciliação ajuda ambos: fortalece o discurso de responsabilidade institucional de Lula e reforça a condição de fiador da governabilidade que Alcolumbre cultiva junto ao centrão.
O cálculo pós-eleitoral continua no jogo
Além de projetos e cargos, a elite política observa com atenção o avanço de investigações que podem desembocar em figuras de alto escalão. Há quem atue, nos bastidores, para que uma eventual “pax” construída entre Executivo e Legislativo, com aval do Judiciário, leve também a um freio nesses inquéritos. A conversa nos salões de Brasília é que “o sistema salva o sistema” quando a sobrevivência coletiva entra em risco.
Retrato de conveniência
O registro fotográfico de Lula ao lado de Alcolumbre, oferecido por Moraes, cumpre papel simbólico. Ele sugere união dos Poderes em tempos de incerteza e sinaliza compromisso com a agenda social. Na disputa pela percepção do eleitor, cada detalhe conta: a imagem circula, a narrativa se consolida e a campanha de 2026 ganha um episódio que pode ser acionado a qualquer momento.
Próximos passos
Embora não haja cronograma público, líderes governistas esperam que a PEC da Segurança Pública e o projeto sobre a escala 6×1 entrem na pauta do Senado nas próximas semanas. A aprovação — ou o impasse — servirá de termômetro para medir até onde vai a nova fase da relação entre Palácio do Planalto e Congresso. O jantar de Moraes, portanto, foi só o primeiro ato de uma encenação que se estenderá até a hora de o eleitor decidir quem terá o controle da Esplanada a partir de 2027.
