Itamaraty vê clima mais ameno e estuda retorno de embaixador a Buenos Aires

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    O recuo no tom das autoridades argentinas após as críticas do presidente Javier Milei ao governo brasileiro abriu caminho para uma possível normalização das relações diplomáticas. Avaliações internas do Ministério das Relações Exteriores apontam que, se a fase de apaziguamento se mantiver, o embaixador Júlio Bitelli poderá deixar Brasília nos próximos dias e reassumir o posto em Buenos Aires.

    Embora o Itamaraty ainda não tenha definido data, interlocutores do chanceler Mauro Vieira avaliam que a permanência prolongada de Bitelli na capital brasileira — cogitada até depois das eleições municipais — já não é mais tratada como única alternativa. A cautela permanece, mas a “tendência”, nas palavras de um diplomata graduado, é de retorno, desde que novos ataques não voltem a partir da Casa Rosada.

    Bastidores da crise

    Ataques de Milei e resposta brasileira

    A tensão começou quando Javier Milei, em declarações públicas e postagens nas redes sociais, classificou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como “corrupto”, entre outros adjetivos. As ofensas reiteradas foram interpretadas, no Itamaraty, como agressões pessoais e institucionais. Para sinalizar descontentamento e ganhar tempo para medir a extensão da crise, o governo brasileiro decidiu, no início de junho, chamar seu embaixador para consultas — procedimento previsto na diplomacia quando se deseja demonstrar insatisfação sem romper relações.

    Bitelli desembarcou em Brasília, onde passou a participar de reuniões com Mauro Vieira, técnicos da Secretaria de América do Sul e, por fim, com o próprio Lula. Nos encontros, avaliou-se o tamanho do impacto político e econômico de um eventual prolongamento do impasse. A Argentina segue como terceiro maior parceiro comercial do Brasil e destino relevante de bens manufaturados, condição que obrigava, segundo diplomatas, a calibrar bem cada movimento.

    “Chamado para consultas” sem prazo

    Oficialmente, o embaixador não foi afastado do cargo, mas “chamado para consultas”. Na prática, isso significou afastamento temporário, sem substituição formal na embaixada em Buenos Aires. O posto ficou sob responsabilidade do ministro-conselheiro, mas sem a mesma autonomia política. A medida equivalia a um alerta: o Brasil reagiria se as hostilidades persistissem.

    Sinais de distensão

    Gestos da equipe de Milei

    Nesse intervalo, assessores próximos ao presidente argentino iniciaram, segundo relatos de Brasília, uma operação de apaziguamento. Mensagens trocadas entre as chancelarias indicaram disposição em “baixar a temperatura”. Alguns gestos foram vistos como simbólicos, entre eles a interrupção de ataques diretos por parte de ministros de Milei e o cuidado em não repetir, em eventos oficiais, o tom agressivo que caracterizou as primeiras semanas do governo libertário.

    Declarações de Pablo Quirno

    O ponto mais significativo veio de Pablo Quirno, chanceler argentino em exercício. Em entrevista de rádio concedida nesta semana, Quirno descartou qualquer hipótese de rompimento com o Brasil. Foi além: afirmou que divergências políticas não devem contaminar a cooperação econômica e institucional entre os dois países. Ao mesmo tempo, assegurou que Buenos Aires não responderá a declarações críticas de ministros brasileiros, adotando postura que classificou como “prudência estratégica”.

    Nos corredores do Itamaraty, a fala de Quirno foi lida como sinal de boa vontade. “Ele costura o espaço para que o presidente recolha gradualmente o discurso beligerante”, comentou um diplomata que acompanha o dossiê sul-americano. A avaliação é de que o chanceler agiu para convencer Milei de que manobras de confronto podem custar caro à recuperação econômica argentina, fortemente dependente do mercado brasileiro.

    Avaliação estratégica do Itamaraty

    “Nem aloprar nem amarelar”

    Conduzida por Mauro Vieira, a estratégia brasileira foi descrita internamente como “nem aloprar nem amarelar”: responder sem bravatas, mas também sem tolerar ofensas. O Itamaraty entendeu que era preciso calibrar cada nota pública, evitando romper pontes que poderão ser essenciais para temas como integração energética, acordo automotivo e renegociação de dívidas comerciais.

    Na prática, isso significou divulgar comunicados oficiais em tom firme, porém contido, além de manter abertos os canais multilaterais, como o Mercosul. Ao mesmo tempo, a chancelaria brasileira reforçou o argumento de que “a vítima não pode parecer agressora”. Qualquer reação mais aguda poderia ser explorada politicamente pelo governo argentino, que enfrenta forte polarização doméstica e poderia usar o atrito externo para mobilizar sua base eleitoral.

    Próximos passos

    Com a distensão em curso, o passo seguinte será definir a data exata da viagem de Bitelli. A expectativa é que isso ocorra após avaliação final do gabinete de Lula e do chanceler Mauro Vieira. Interlocutores dizem que não há pressa, mas tampouco interesse em prolongar o impasse. O retorno permitiria relançar agendas paralisadas, como o comitê bilateral de comércio e investimentos, além de reuniões técnicas sobre infraestrutura de fronteira.

    Além do roteiro institucional, pesa um componente simbólico: a volta do embaixador sinalizaria ao empresariado dos dois lados da fronteira que a conjuntura voltou ao eixo e que não há risco iminente de escalada diplomática. Mesmo assim, Brasília seguirá monitorando declarações de Milei. Caso haja recaída no tom ofensivo, o Itamaraty poderá rever a decisão.

    No governo brasileiro, há consciência de que a relação com Buenos Aires sempre carregou doses de rivalidade e proximidade simultâneas. As trocas de farpas costumam surgir em períodos eleitorais ou de crise econômica, mas, historicamente, cedem lugar ao pragmatismo. A diferença agora está no estilo mais agressivo do presidente argentino, que aposta em redes sociais para falar diretamente a sua base. Isso obriga a diplomacia a reagir em um terreno mais volátil, onde cada tweet pode virar incidente internacional.

    Para além dos gestos públicos, interlocutores relatam que setores empresariais dos dois países também atuaram nos bastidores para esfriar a crise. Exportadores brasileiros de autopeças, por exemplo, temiam retaliações tarifárias de lado a lado. Já o setor de energia argentino precisa de garantias de fornecimento de gás brasileiro durante o próximo inverno. Esses grupos pressionaram suas respectivas chancelarias a encontrar saída rápida.

    Nesse cenário, a volta de Júlio Bitelli é vista como peça-chave para reinstalar a diplomacia do cotidiano: reuniões técnicas, aprovação de licenças sanitárias, liberação de cargas em aduanas e outras rotinas que, quando paralisadas, afetam diretamente o comércio bilateral. Uma vez em Buenos Aires, caberá a ele reconstruir pontes também com a equipe política de Milei, tarefa considerada delicada, mas indispensável. Bitelli tem perfil técnico e já havia servido na capital argentina em outra administração, o que facilita a retomada de contatos.

    Embora o cronograma dependa do cenário dos próximos dias, a sinalização de retorno já ecoou em círculos diplomáticos regionais. Chancelarias vizinhas interpretam o movimento como tentativa de reequilibrar o Mercosul, que se prepara para discutir temas sensíveis, como a flexibilização das regras do bloco e o acordo comercial com a União Europeia. A plena participação de Brasil e Argentina é vista como pré-condição para avanços.

    Até lá, Lula continuará a receber relatórios periódicos sobre o tom de Milei. Se não houver recidiva, a ordem é concluir a etapa de consultas e devolver ao embaixador o comando da missão brasileira na capital portenha. A manobra, a esta altura, passou de possibilidade remota a provável roteiro, numa virada impulsionada pela velha máxima diplomática: conversar, mesmo depois de discutir, costuma custar menos do que manter portas fechadas.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.