O Palácio Tiradentes pode ter uma disputa a menos — ou não. Na manhã desta quarta-feira (29), a direção nacional do Republicanos afirmou que o senador Cleitinho Azevedo (MG) está fora da corrida pelo governo de Minas Gerais. Pouco depois, o próprio parlamentar rechaçou a versão do partido e garantiu que continuará “firme” na pré-candidatura.
O impasse estourou num momento em que o calendário eleitoral aperta: pela lei, qualquer mudança de partido ou registro de chapa deveria ter sido sacramentada até 4 de abril, seis meses antes do primeiro turno de 2026. Como Cleitinho segue filiado ao Republicanos — e não compareceu à convenção estadual da legenda no sábado (25) —, resta a dúvida de quem, afinal, baterá o martelo.
Legislação encurta o caminho
Senadores têm liberdade para trocar de sigla fora da “janela” partidária, mas não escapam da regra que exige filiação definitiva até seis meses antes da eleição. Se quiser disputar o Executivo mineiro, Cleitinho precisa fazê-lo pelo Republicanos, já que estava no partido na data-limite. Qualquer aventura por outra legenda esbarraria em impugnação quase automática.
Apesar disso, dirigentes ouvidos reservadamente avaliam que “o trem já partiu”. “Passou o tempo e ele perdeu o timing”, resumiu um cacique da sigla. A conclusão se ampara no cronograma apertado: atas de convenções, coligações e registro de candidaturas precisam ser protocoladas em agosto; eventuais substituições só são aceitas até 20 dias antes do pleito.
Como a crise começou
Ausência sentida na convenção
O estopim foi a ausência de Cleitinho na convenção estadual do Republicanos, realizada em Belo Horizonte. O encontro aprovou a coligação em torno do ex-secretário de Governo Marcelo Aro (PP) e esperava formalizar o nome do senador. Sem aparecer — e sem mandar representante —, Cleitinho provocou um efeito dominó que culminou na nota divulgada nesta quarta, assinada pelas executivas estadual e nacional:
“A ausência representou um fato político objetivo, que produziu consequências inevitáveis. Trabalhamos duro para que essa candidatura acontecesse; o que faltou foi a decisão inequívoca de quem deveria ser, em primeiro lugar, candidato de si mesmo.”
Vídeo com IA e comoção pública
Um dia antes da convenção, o senador publicou nas redes um vídeo criado por inteligência artificial. Na montagem, ele dialoga com o pai e com o irmão Mateus, morto de leucemia na semana passada. A peça emocionou correligionários, mas não esclareceu o rumo político. O tom de despedida levantou suspeitas de que o parlamentar poderia recuar.
Pressão do PL e críticas de Valdemar
O Partido Liberal — que costura palanque para Flávio Bolsonaro em Minas — aguardava a definição do mineiro. Ao perceber a hesitação, o presidente da sigla, Valdemar Costa Neto, disparou publicamente: “Cleitinho muda de ideia toda hora. Perdeu o timing até com Marcos Pereira (presidente do Republicanos). Para o Executivo, vai ter dificuldade”.
A fala tensionou ainda mais o ambiente, mas não impediu que bastidores de Brasília mantivessem a aposta de que Cleitinho poderia voltar à linha de frente, selando aliança Republicanos-PL. Por enquanto, porém, o Republicanos migrou seu apoio a Marcelo Aro, reconstruindo o tabuleiro.
Pesquisa Quaest mostra liderança do senador
Adversários respiraram aliviados com o revés interno do parlamentar porque, segundo sondagem Quaest divulgada na terça (28), ele aparecia à frente em todos os cenários: 31% a 37% no primeiro turno e vantagem de até 15 pontos no segundo. A liderança tornou-se argumento de correligionários que insistem na viabilidade da chapa mesmo depois do corto-circuito partidário.

Imagem: Internet
Para analistas, o cenário permanece fluido. Se Cleitinho confirmar a candidatura, terá de reconstruir pontes com a direção estadual e redobrar esforços para protocolar a papelada dentro do prazo legal. Caso recue, a coalizão em torno de Aro ganha musculatura extra e libera o PL para encaixar Flávio Bolsonaro em outro palanque.
Calendário eleitoral: o que ainda pode mudar
- Junho a agosto de 2026 – Convenções partidárias oficializam candidatos e coligações.
- Até 15 de agosto – Registro das candidaturas no TSE.
- 20 dias antes do pleito – Data-limite para substituição de nomes em caso de desistência ou impugnação.
- Outubro – Primeiro turno; segundo turno, se houver, no fim do mês.
Em tese, Cleitinho teria até meados de agosto para formalizar a chapa, mas o Republicanos precisaria reabrir a convenção — algo considerado improvável neste momento. No passado recente, porém, casos como o de Anthony Garotinho (2002) e Ronaldo Caiado (2018) provaram que, em política, regra rígida é a exceção.
Reação de aliados e próximos passos
Aliados do senador descrevem o anúncio do partido como “estratégia de pressão” para forçá-lo a decidir. Já interlocutores da executiva nacional dizem que “a porta não está trancada, mas o trinco foi virado”. Traduzindo: se houver recuo, terá de ser rápido e acompanhado de sinais inequívocos de coesão.
Enquanto isso, Marcelo Aro acelera conversas com PSD e PP para consolidar seu nome. O ex-secretário, que inicialmente mirava o Senado, foi alçado à cabeça de chapa depois que o senador Carlos Viana (PSD) passou a disputar a reeleição, baralhando planos anteriores.
O que está em jogo para Minas Gerais
Minas é o segundo colégio eleitoral do país e costuma ter disputa fragmentada. Sem um “herdeiro” claro do governador Romeu Zema — que tenta projetar seu vice, Mateus Simões, mas ainda não deslanchou —, qualquer liderança que some boa performance nas redes e recall de urnas vira peça cobiçada. Cleitinho, eleito ao Senado em 2022, reúne ambos os atributos.
Pelo lado bolsonarista, ter um palanque competitivo em Minas é essencial para equilibrar desgaste no Nordeste e para o projeto presidencial de Flávio Bolsonaro. Já para o Republicanos, segurar uma candidatura própria fortaleceria a bancada e ampliaria o poder de barganha em Brasília.
Próximos capítulos
O senador pretende gravar novo vídeo até o fim da semana para esclarecer a posição. Nos bastidores, pessoas próximas dizem que ele avalia “todas as consequências familiares” antes de confirmar a empreitada. A sigla, por sua vez, mantém a orientação de tocar a campanha de Aro e evita novo pronunciamento coletivo.
Até que um dos lados ceda, o impasse permanece — e a eleição mineira segue sem rosto definido no campo da direita. Para o eleitor, resta acompanhar a cobertura completa das eleições 2026 em Minas Gerais e aguardar a próxima reviravolta.
