Em plena corrida ao Palácio dos Bandeirantes, Fernando Haddad (PT) afirmou nesta quarta-feira (19) que a Polícia Federal e o Ministério Público devem investigar, “sem poupar ninguém”, as suspeitas que envolvem Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e o ex-chefe de gabinete presidencial Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. Durante sabatina organizada pelos jornais O Globo e Valor Econômico e pela rádio CBN, o petista disse que a lei “não escolhe cor partidária” e que quem errar deve responder.
No mesmo evento, o ex-prefeito de São Paulo classificou o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) como “risco institucional” para a economia, a democracia e a imagem externa do Brasil. A declaração eleva o tom da disputa nacional, enquanto Haddad tenta viabilizar seu nome para o governo paulista em cenário dominado pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e pelo bloco do Centrão.
Sinal verde para a PF apurar caso Lulinha
Questionado sobre o inquérito que apura suspeita de tráfico de influência e corrupção envolvendo Lulinha, a lobista Roberta Luchsinger e Marcola, Haddad defendeu investigação ampla. A ofensiva policial nasceu de diligências sobre fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e agora examina se o trio usou conexões políticas para destravar negócios com o governo federal. “Eu não quero saber o partido, a religião ou o time de futebol. Fez errado, paga”, frisou.
Para o ex-ministro da Educação, a atitude vale inclusive para pessoas próximas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele mencionou que, ao longo de quatro mandatos petistas no Planalto, “nunca viu Lula mover um dedo” para blindar aliados, parentes ou amigos. “A Polícia Federal e o Ministério Público têm que ter 100% de liberdade, sempre”, acrescentou.
Referência à própria gestão na capital
Haddad resgatou o período em que comandou a Prefeitura de São Paulo (2013-2016) para ilustrar a defesa de tolerância zero com corrupção. Citou a operação que desbaratou a chamada máfia do ISS, esquema de fiscais que fraudava a cobrança do imposto municipal sobre serviços. “Quando eu descobri a máfia do ISS, havia quem temesse respingar no partido. Nós afastamos os fiscais, eles foram presos e a cidade recuperou cerca de R$ 2 bilhões”, recordou.
Segundo ele, aquela experiência fortaleceu a convicção de que a gestão pública ganha credibilidade quando colabora com investigações—posição que, diz, pretende repetir no governo paulista caso seja eleito.
Flávio Bolsonaro na linha de tiro
A sabatina também escancarou o peso da disputa presidencial de 2026 sobre a eleição paulista. Ao comentar o cenário nacional, Haddad foi incisivo ao afirmar que Flávio Bolsonaro representa ameaça à estabilidade institucional. “Esse rapaz é um risco para o país do ponto de vista econômico, social e internacional. Eu não posso conceber a hipótese de ele assumir a Presidência da República”, declarou.
O petista atribui a avaliação ao histórico do senador, que herda o capital político do pai, Jair Bolsonaro, mas convive com investigações sobre rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio e suspeitas de lavagem de dinheiro. Para Haddad, a eventual eleição de Flávio Bolsonaro poderia reativar tensões entre Poderes e ampliar o isolamento diplomático do Brasil.
Efeito São Paulo x Planalto
Indagado se a missão de enfrentar Tarcísio em São Paulo poderia fragilizar a estratégia nacional do PT, Haddad respondeu que a candidatura ao governo integra uma “batalha maior”. Ele lembrou que Lula venceu três eleições presidenciais mesmo sem vencer no maior colégio eleitoral do país. “Estou num projeto nacional e, ao mesmo tempo, num projeto estadual. Meu dever cívico é apresentar à população aquilo que estudei para São Paulo”, disse.
Ele reconheceu, porém, o tamanho do adversário: Tarcísio conta com apoio de todo o Centrão e do bolsonarismo organizado no estado. “É diferente da corrida presidencial, em que vários partidos do Centrão não aderiram ao Flávio, que ficou isolado e precisou escolher um vice do próprio partido”, comparou.
Liberdade para órgãos de controle
Ao defender autonomia investigativa, Haddad reiterou que governo algum deve interferir na atuação de delegados federais ou procuradores. Ele citou como exemplo recente a necessidade de blindar a PF de pressões políticas durante a transição de governo, em 2022, quando o presidente eleito Lula prometeu não repetir práticas que acusava no governo Bolsonaro.

Imagem: Internet
Sob a ótica do ex-prefeito, a reputação das instituições é patrimônio do Estado e precisa ser preservada sob qualquer administração, seja petista ou não. “Quando o cidadão percebe que há um Ministério Público livre para denunciar e uma Polícia Federal livre para investigar, a confiança no país aumenta, o investimento aumenta, e a democracia se fortalece”, discursou.
‘Passar a régua’, inclusive em aliados
O candidato defende que o sistema de Justiça avance não apenas em casos de corrupção, mas também em crimes ambientais, tributários e eleitorais. Para ele, a impunidade é combustível para a criminalidade de colarinho branco. “Sou a favor de passar a régua em quem quer que seja”, insistiu, ecoando a frase que usou sobre o inquérito contra Lulinha.
Haddad afirma que esse posicionamento não é novidade no PT. “Quem ler a história do partido verá que sempre aprovamos a apuração de suspeitas, mesmo quando dói”, disse, em referência à postura adotada na CPI do Mensalão, em 2005, e à colaboração do governo Dilma Rousseff com as primeiras fases da Lava Jato. O petista admite, porém, que setores da legenda ainda resistem a abrir investigação interna contra filiados.
Desafio de comunicação na campanha
Chegar ao eleitor com essa mensagem anticorrupção, afirma Haddad, exige investimento pesado em redes sociais e comunicação direta, terreno em que adversários de direita avançaram nas últimas eleições. Levantamento parcial da Justiça Eleitoral aponta que Tarcísio e Haddad já desembolsaram juntos R$ 2,2 milhões em anúncios digitais em 2026, valor que deve crescer na reta final.
O ex-ministro reforça que, apesar da disputa acirrada on-line, a política “olho no olho” ainda decide votos. Por isso, pretende intensificar agendas no interior paulista, onde o bolsonarismo consolidou maioria em 2022. A coordenação de campanha planeja caravanas temáticas sobre saúde, educação e emprego para tentar reduzir a rejeição ao PT fora da capital.
Aliados e palanques
A articulação petista conta ainda com apoio de prefeitos de partidos de centro-esquerda, como PSB e PCdoB, e busca atrair legendas que nacionalmente estão com Lula, mas em São Paulo permanecem neutras ou com Tarcísio. A expectativa é que a performance de Flávio Bolsonaro no primeiro debate presidencial influencie alianças locais.
Nos bastidores, dirigentes do PT avaliam que o discurso firme de Haddad a favor da investigação sobre Lulinha neutraliza críticas de opositores sobre “proteção familiar” e injeta coerência no verbalizar ataques a Flávio Bolsonaro. O desafio, admitem, é ampliar o alcance para fora da bolha progressista.
Calendário apertado até outubro
Com a campanha entrando na fase decisiva, o cronograma de sabatinas, debates e propaganda em rádio e TV deve amplificar o embate entre Haddad, Tarcísio e o candidato em ascensão do PSDB, que tenta recuperar espaço no eleitorado paulista. Até o primeiro turno, marcado para 4 de outubro, restam três debates televisionados e uma série de visitas temáticas a regiões estratégicas do estado.
Haddad garante que manterá a pauta anticorrupção nas próximas entrevistas. “Se eu defendo investigação quando atinge adversário, também defendo quando atinge aliado. Essa é a única forma de restaurar a confiança das pessoas na política”, finalizou.
