O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, não foi consultado sobre o vídeo gerado por inteligência artificial (IA) exibido na convenção nacional do PL que oficializou sua candidatura ao Planalto. Durante transmissão ao vivo na noite de 30 de julho, o parlamentar declarou ter amparo jurídico para utilizar a tecnologia e classificou como “óbvio” que não houve intenção de enganar o público.
A gravação sintética, divulgada em 25 de julho, mostra uma versão digital de Jair Bolsonaro dizendo estar “preso e calado por decisão arbitrária” e pedindo apoio ao filho. A peça provocou reação imediata de adversários políticos e abriu nova frente de debate sobre o uso eleitoral de deepfakes, prática que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) coloca sob vigilância.
Como surgiu o vídeo e o que ele diz
O material foi projetado no telão do auditório logo após a aclamação de Flávio como candidato presidencial. Na imagem, a figura de Jair Bolsonaro aparece com aparência e voz realistas, mas inicia o pronunciamento admitindo tratar-se de recurso de IA. Ele alega injustiça na prisão domiciliar, enaltece “o sentimento de esperança” do movimento bolsonarista e conclama militantes a receberem o filho “de braços abertos”.
Posição da equipe de Jair Bolsonaro
Advogados do ex-presidente informaram que ele não autorizou a exibição, embora não tenham, até o momento, questionado judicialmente a campanha do senador. Pessoas próximas dizem que Jair acompanhou a repercussão apenas após o evento e prefere evitar novo confronto público com o TSE.
Argumentos de Flávio para defender o uso da IA
Na transmissão on-line, o senador repetiu que “todo mundo já utiliza IA” em diferentes setores e que as plataformas digitais seriam incapazes de filtrar em massa conteúdos do gênero. Segundo ele, a legislação só veda peças que tentem ludibriar o eleitor ou distorcer fatos. “Não há mentira no vídeo, até porque o aviso de IA aparece logo no começo”, disse.
A equipe jurídica da campanha sustenta que:
- o conteúdo não configuraria propaganda antecipada, pois foi exibido em ambiente interno de convenção partidária;
- o aviso sobre o uso de IA afasta qualquer alegação de deepfake enganoso;
- não houve pedido explícito de voto, mas manifestação política protegida pela liberdade de expressão.
O que diz a legislação eleitoral sobre deepfakes
Resoluções aprovadas pelo TSE para o ciclo de 2026 vedam a difusão de “conteúdo sintético gerado por inteligência artificial que substitua integralmente imagem ou voz de pessoa viva” quando houver possibilidade de confusão ou tentativa de manipulação do eleitor. Mesmo com consentimento do retratado, o tribunal exige sinalização clara e responsabiliza partidos e candidatos pela autenticidade das mensagens.
Punições previstas
Se o colegiado entender que a campanha de Flávio violou a norma, as sanções podem ir de multa à cassação do registro, dependendo da gravidade e da reincidência. O caso também pode ser encaminhado ao Ministério Público Eleitoral caso se identifique eventual crime de falsidade ideológica.
Ação do PT e repercussão política
No dia 27 de julho, a Executiva Nacional do PT ingressou com representação no TSE contra Flávio e o PL. O partido alega propaganda antecipada, uso irregular de IA e reiterados ataques ao sistema eleitoral. Peticionou ainda para que o tribunal retire o vídeo das redes e imponha multa proporcional ao alcance da peça.

Imagem: Internet
Principais argumentos da petição
- O vídeo teria pedido voto de forma disfarçada ao vincular a imagem do ex-presidente à candidatura de Flávio;
- Mesmo com o aviso, a utilização de voz e imagem sintéticas violaria a proibição de deepfake por se tratar de figura pública sob restrição judicial;
- A peça poderia influenciar o eleitorado antes da abertura oficial da campanha, ferindo o princípio da igualdade na disputa.
Líderes de partidos de centro e esquerda repercutiram o episódio como “teste de limites” frente à nova regulamentação do TSE. Já aliados do PL defenderam que a corte “se antecipa demais” e que o debate deveria ocorrer no Congresso.
Impacto na estratégia de campanha
Integrantes do núcleo político de Flávio admitem, reservadamente, que o episódio acelerou a discussão interna sobre métodos de comunicação. Apesar da convicção de que agiram dentro da lei, a orientação agora é reforçar avisos gráficos e auditivos em qualquer peça que envolva recomposição digital.
Paralelamente, o senador planeja intensificar viagens pelo Norte e pelo Centro-Oeste para se desvincular da imagem de “candidato de gabinete” e ocupar espaços que Jair frequentava em 2022. O objetivo é apresentar propostas econômicas enquanto mantém o discurso de crítica às decisões que levaram o pai à prisão domiciliar.
Fontes próximas ao comitê afirmam que a equipe de redes sociais continuará explorando recursos de IA, mas sob critérios “conservadores” para evitar novo desgaste. A aposta é que a controvérsia renda visibilidade gratuita e solidifique a narrativa de perseguição judicial, bandeira central no bolsonarismo.
Próximos passos no TSE
O processo aberto a pedido do PT será distribuído a um dos ministros do TSE, que decidirá sobre pedido liminar para retirada do vídeo. Depois, o tribunal ouvirá defesa de Flávio e do PL, podendo requisitar perícia técnica no material. Não há prazo definido para julgamento, mas a corte costuma acelerar casos que envolvem inovação tecnológica com potencial de impacto eleitoral.
Enquanto a ação tramita, analistas esperam movimentos de autoregulação das plataformas, que vêm firmando compromissos com Justiça Eleitoral para criar rótulos de conteúdo sintético e agilizar denúncias de deepfake. O episódio, porém, mostra que a fronteira entre criatividade e infração ainda permanece nebulosa na corrida presidencial de 2026.
