Filas do INSS encolhem, mas segurados ainda aguardam até oito meses por resposta

    0

    O Instituto Nacional do Seguro Social reduziu a quantidade de processos acumulados ao menor patamar em quase dois anos, porém o alívio estatístico não chega a quem depende do benefício. Segurados entrevistados relatam que a resposta do órgão ainda demora até oito meses, obrigando muitos a procurar bicos ou a contar apenas com a ajuda da família enquanto aguardam a concessão ou revisão de auxílios.

    A distância entre o ritmo de análise e a urgência financeira tem outro efeito colateral: o volume de pedidos negados cresceu substancialmente no primeiro semestre. Só em junho, quase 1 milhão de requerimentos foram indeferidos, salto de 70% em relação ao mesmo período do ano passado.

    Fila diminui, mas continua alta

    Dados oficiais mostram que, em julho, o estoque de processos caiu para 1,55 milhão, contra 1,8 milhão em junho e cerca de 6 milhões no início do ano. A Previdência Social contabiliza retração de 74% desde janeiro, resultado atribuído ao mutirão de servidores, à digitalização de documentos e à ampliação da perícia médica remota.

    Objetivo de zerar pendências até 2026

    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já sinalizou intenção de eliminar a fila até o fim de seu mandato. Técnicos do governo, porém, reconhecem que a meta depende não apenas de força-tarefa interna, mas também de reposição de quadro funcional e de ajustes no sistema de triagem.

    Quando a espera se torna insustentável

    Por trás dos números, há histórias de quem esperava contar com a renda previdenciária para manter o cotidiano.

    José Flávio, motorista por necessidade

    Com 58 anos, 27 deles dirigindo ônibus, José Flávio Costa protocolou o pedido de aposentadoria em 24 de novembro passado. O processo, que já ultrapassou oito meses sem decisão, o empurrou para as ruas como motorista de aplicativo. São até 13 horas diárias ao volante para pagar contas e financiar o apartamento. “Depois de meio século de trabalho, parece que vou ter de dirigir até o corpo pedir socorro”, lamenta.

    Erika Bonifácio, cirurgia adiada e benefício suspenso

    Cozinheira em um resort de Ubatuba (SP), Erika Antônia Bonifácio, 38 anos, desenvolveu graves problemas de coluna e entrou em licença médica no início de 2025. Chegou a receber auxílio-doença entre março e julho daquele ano, mas o pagamento foi interrompido após perícia. A Justiça reconheceu a incapacidade e o benefício voltou a ser pago até maio deste ano. Na reavaliação de julho, novo corte. Enquanto espera a cirurgia pelo SUS, ela sobrevive com a ajuda do marido e do filho de 11 anos. “Não é golpe, é direito. A gente só quer seguir o tratamento”, desabafa.

    Maria Delene, perícia feita, resultado ausente

    Maria Delene Oliveira, 52 anos, pediu auxílio por incapacidade temporária em dezembro do ano passado, depois de abandonar o trabalho de vendedora por dores nos joelhos, quadril e lombar. A perícia só ocorreu sete meses depois; o laudo, entretanto, não foi liberado até agora. Para bancar despesas do dia a dia, faz costuras por peça: “Se eu não trabalhar, não entra nada.” Ela teme que ter conseguido ficar em pé diante do médico perito pese contra a concessão.

    Indeferimentos em ritmo acelerado

    Enquanto a quantidade de processos em análise diminui, o índice de negativas aumentou. Em junho, o total de benefícios recusados chegou próximo de 1 milhão. No acumulado de 2026, a alta é de 70% frente ao mesmo período do ano anterior. Auxílios ligados à incapacidade — auxílio-doença, auxílio-acidente e aposentadoria por invalidez — concentram a maior parte dos indeferimentos.

    Fatores que explicam a alta

    • Triagem automatizada de documentos, que reprova pedidos sem laudos completos ou com contribuições inconsistentes.
    • Elevação na exigência de provas médicas detalhadas, sobretudo nos benefícios de incapacidade.
    • Falta de alinhamento entre a conclusão do perito e a documentação apresentada pelo segurado.

    Recurso é a saída imediata

    O Ministério da Previdência Social reforça que toda decisão do INSS pode ser contestada pela via administrativa, gratuitamente e dentro do prazo de 30 dias após a publicação do resultado. O processo ocorre no Conselho de Recursos da Previdência Social.

    Passo a passo do recurso

    1. Acessar o Meu INSS com CPF e senha.
    2. Em “Do que você precisa?”, digitar Recurso ordinário.
    3. Anexar laudos, exames e qualquer documento novo que comprove o direito.
    4. Concluir a solicitação e acompanhar o andamento em “Consultar pedidos”.

    A pasta explica que o recurso “faz parte do funcionamento regular da Previdência” e garante ao segurado a reavaliação das informações.

    Desafios para alcançar o zero

    Mesmo com o recuo expressivo da fila, especialistas apontam obstáculos para zerar as pendências:

    • Déficit de servidores: concursos recentes ainda não cobrem aposentadorias na própria autarquia.
    • Sistema de perícia: a combinação entre atendimento presencial escasso e exames virtuais sobrecarrega profissionais.
    • Judicialização crescente: decisões conflitantes entre peritos e juízes prolongam a espera e geram pagamentos retroativos vultosos.

    O governo aposta em novas plataformas digitais e em mutirões itinerantes para reduzir gargalos regionais. Por enquanto, porém, a queda das estatísticas não se traduz, na mesma velocidade, em alívio para segurados como José, Erika e Maria, que seguem contando os dias — e os gastos — enquanto aguardam a resposta definitiva do INSS.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.