O depoimento de Gilbson Júnior, condenado a 13 anos de prisão pelo homicídio do empresário João Bosco Sobrinho Pereira de Oliveira em 2022, colocou o presidente afastado do Tribunal de Contas do Maranhão (TCE-MA), Daniel Brandão, no centro de uma trama que mistura emboscada, fraude processual e supostos pagamentos para acobertar provas. As declarações, prestadas à Polícia Federal em fevereiro deste ano, fundamentaram a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, que afastou Brandão do cargo por 180 dias.
No relato, Gilbson afirma que a versão oficial apresentada à Polícia Civil foi “ensaiada na mesa do delegado” para blindar a família do governador Carlos Brandão. Ele diz ter sido atraído a um encontro em São Luís, onde, segundo sua narrativa, seria executado – plano do qual Daniel Brandão teria participado ativamente. A sequência de acontecimentos lançaria luz sobre possíveis desvios de verbas públicas e comprometeria o inquérito estadual, agora sob crivo federal.
Telefonema, reunião marcada e a mudança de planos
Segundo a transcrição anexada ao processo no STF, Daniel Brandão manteve contato direto com Gilbson Júnior dias antes do crime. O convite para a suposta “reunião de negócios” ocorreu por telefone. O local escolhido foi o Edifício Tech Office, na capital maranhense, apontado pela Polícia Federal como palco de articulações de um grupo destinado a desviar recursos públicos.
Ao chegar, Gilbson teria sido orientado a entrar em um veículo estacionado na garagem do prédio. Conforme depoimento, o então conselheiro do TCE-MA teria dito: “Ó, é para fazer do jeito que o tio disse”. Desconfiado, o executor se recusou a embarcar e perguntou o que realmente acontecia. Nesse momento, relata, Daniel se afastou e deixou o local poucos instantes antes dos disparos.
Reação e tiros pela frente
Sentindo-se alvo de uma armadilha, Gilbson contou ter sacado uma pistola que carregava na bolsa e disparado contra João Bosco, que seria um dos participantes da tentativa de execução. “Eu viro, atiro nele pela frente”, registra o depoimento. A informação entra em choque com a cena descrita inicialmente pela Polícia Civil, segundo a qual o empresário teria sido atingido pelas costas.
Fraude processual e supressão de imagens
Para Gilbson, o inquérito conduzido no Maranhão constituiu “uma fraude processual enorme”. A narrativa de tiros pelas costas, avalia, buscava agravar sua responsabilização e esconder a reunião que precedeu o crime. O próprio ministro Flávio Dino aponta “deliberada decisão” de investigadores estaduais de omitir a presença de Daniel Brandão, captada por câmeras de segurança do edifício.
As imagens, segundo a decisão judicial, demonstram que o conselheiro chegou ao Tech Office poucos minutos antes da morte de João Bosco e saiu logo em seguida, indício de participação direta ou, no mínimo, de conhecimento prévio do ato violento.
Chamadas de emergência e pedido para “apagar tudo”
Logo após fugir do local, Gilbson diz ter recebido ligações insistentes de Daniel Brandão. “Cara, tu é doido… apaga tudo”, teria dito o presidente afastado do TCE-MA. O executor respondeu acusando-o de ter armado sua morte: “Tu me levou, me chamou pros caras me matar, Daniel”. A conversa terminou, de acordo com a transcrição, com a orientação para que Gilbson sumisse e destruísse qualquer prova que ligasse Brandão ao episódio.
Dinheiro, casas e o silêncio comprado
O depoimento também atinge o ex-secretário estadual Raimundo Cutrim, indicado como emissário da família Brandão. Segundo Gilbson, Cutrim ofereceu ao seu pai “vantagens, dinheiro e casas” para que as menções a Daniel e a outros parentes do governador fossem retiradas dos futuros depoimentos. A tentativa de suborno, aponta a investigação da PF, reforça a tese de obstrução de Justiça e motivou a adoção de medidas cautelares duras contra o conselheiro.
Organização criminosa e desvios públicos
Embora o homicídio seja o ponto mais visível do caso, a PF sustenta que o pano de fundo envolve uma estrutura organizada para desviar verbas estatais. A reunião no Tech Office, segundo as investigações, seria destinada a alinhar passos da organização – ponto que, se confirmado, amplia o alcance do escândalo para além do assassinato.

Imagem: Internet
Afastamento do cargo e novas frentes de apuração
Em despacho de 24 páginas, o ministro Flávio Dino decidiu pelo afastamento cautelar de Daniel Brandão por 180 dias, atendendo a pedido da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República. A decisão evita que o conselheiro, ainda com prerrogativas no TCE-MA, atue para destruir provas ou influenciar testemunhas, diz o magistrado.
Com o caso sob jurisdição do STF, as diligências passaram a ser conduzidas por delegados federais e pela PGR. Foram autorizadas quebras de sigilo telefônico, buscas em endereços ligados a Brandão e coleta de depoimentos de servidores do Tribunal de Contas. Há expectativa de que novas oitivas ampliem o rol de investigados, incluindo empresários e agentes públicos supostamente beneficiados pelo esquema de propinas.
Impacto político no Palácio dos Leões
A menção reiterada à “Família Brandão” acendeu alerta no governo estadual. O governador Carlos Brandão, irmão de Daniel, não é alvo formal da investigação, mas passa a enfrentar pressão de aliados e opositores para explicar se houve interferência no inquérito da Polícia Civil. Parlamentares da base já admitem abrir negociação para instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito na Assembleia Legislativa.
Contrapontos e o que dizem os citados
Até o fechamento desta edição, a defesa de Daniel Brandão não havia se manifestado sobre as novas acusações. Em notas anteriores, o conselheiro sempre negou participação no crime e afirmou confiar na Justiça para comprovar sua inocência. O ex-secretário Raimundo Cutrim também não se pronunciou. O governo do Estado declarou aguardar “apuração isenta” e reiterou que o chefe do Executivo “não é parte no processo”.
Próximos passos
A PF trabalha para cruzar as declarações de Gilbson, registros telefônicos e imagens de segurança. Caso se confirme a manipulação deliberada do inquérito estadual, policiais e delegados maranhenses podem responder por fraude processual e prevaricação. Já o TCE-MA aguarda designação de presidente interino enquanto o titular permanece suspenso.
Entre os investigadores, a avaliação é que o depoimento do executor trouxe “fios soltos” que podem levar a ramificações financeiras, sobretudo contratos de obras e serviços analisados pelo Tribunal de Contas nos últimos cinco anos. Por ora, a Justiça mantém sigilo sobre parte dessas linhas para evitar vazamento de provas.
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