O governo dos Estados Unidos aceitou iniciar consultas formais com o Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC), mas manteve fechada a porta para rever as sobretaxas que elevaram em até 37,5% o custo de uma série de produtos brasileiros no mercado norte-americano. Brasília avalia o gesto como limitado: reconhece importância do rito multilateral, porém vê poucas chances de um recuo tarifário antes das eleições presidenciais de 2026.
No Palácio do Planalto, a leitura é de que a Casa Branca, pressionada pelo calendário eleitoral doméstico e pelas críticas do lobby industrial, prefere ganhar tempo. Após dois pedidos oficiais de reabertura do diálogo — ignorados pelo escritório de Representação Comercial dos EUA (USTR) — a diplomacia brasileira agora aposta que qualquer mudança só virá quando estiver definido quem comandará o país a partir de 2027.
Washington admite consultas, mas segura qualquer negociação concreta
Ao aceitar as consultas na OMC, os EUA cumprem uma etapa prevista nas regras do sistema multilateral de comércio: as partes têm até 60 dias para tentar chegar a um entendimento antes que o contencioso avance para um painel de arbitragem. Internamente, contudo, o USTR sinalizou que pretende restringir a conversa ao rito processual, sem discutir redução das tarifas nem rever as acusações de “práticas desleais” e “uso de mão de obra forçada” que fundamentaram as medidas.
As sobretaxas começaram em maio, quando Washington aplicou um adicional de 25% sobre produtos siderúrgicos, químicos e têxteis brasileiros, alegando concorrência desleal. Trinta dias depois, veio um acréscimo de 12,5% para mercadorias provenientes de cadeias produtivas supostamente ligadas a trabalho forçado em terceiros países. Somadas, as duas rodadas empurraram a tarifa efetiva para 37,5% em alguns itens, encarecendo exportações que somam US$ 8,4 bilhões anuais.
A formalidade das consultas
- Prazo de 60 dias para conversas bilaterais na OMC;
- Se não houver acordo, Brasil poderá solicitar painel de disputa;
- EUA afirmam estar “à disposição”, mas destacam que tarifas seguem válidas.
Integrantes da missão brasileira em Genebra relatam que a delegação norte-americana evitou qualquer referência a hipotéticas concessões, frisando que “o debate no momento é processual”. O Itamaraty, por sua vez, estuda usar o espaço das consultas para questionar a base legal das acusações de trabalho forçado, consideradas “genéricas” e “sem provas concretas”.
Cronologia do tarifaço de 37,5%
- 3 de maio de 2026 – USTR anuncia acréscimo de 25% em retaliação a “práticas de dumping” brasileiras.
- 4 de junho de 2026 – Nova elevação de 12,5% vinculada a suspeitas de uso de mão de obra forçada em fornecedores asiáticos.
- 6 de junho de 2026 – Itamaraty envia primeira carta pedindo reabertura de negociações; não obtém resposta.
- 21 de julho de 2026 – Brasil solicita formalmente consultas na OMC.
- 10 de agosto de 2026 – EUA aceitam participar das consultas, mas reafirmam vigência das tarifas.
Desde o início da disputa, setores de aço, alumínio, papel e confecções têm reportado perda de competitividade e redirecionamento de cargas para Europa e Ásia. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) calcula que as vendas externas de produtos afetados caíram 18% em volume entre maio e julho.
Estratégia brasileira após a imposição
O Planalto decidiu combinar pressão jurídica no âmbito da OMC com esforços políticos de alto nível. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende solicitar novamente uma conversa direta com Donald Trump, marcada como prioridade em reunião com o chanceler Mauro Vieira nesta terça-feira (11). A meta é, segundo assessores, “baixar a temperatura” e convencer a administração norte-americana de que o tarifaço gera prejuízos a cadeias de suprimento integradas entre os dois países.
Ao mesmo tempo, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio estuda ampliar incentivos fiscais para exportadores prejudicados e acelerar acordos preferenciais com a União Europeia e países asiáticos, numa tentativa de diversificar destinos e reduzir dependência dos EUA.
Diplomacia econômica em duas frentes
- Consulta técnica na OMC para questionar mérito das acusações;
- Aproximação política com a Casa Branca para destravar negociação futura;
- Busca de novos mercados e compensações internas a empresas afetadas.
Calendário eleitoral trava avanço das conversas
No cálculo do Itamaraty, qualquer decisão que envolva recuo tarifário poderá ser explorada eleitoralmente pelos adversários de Donald Trump, motivo pelo qual Washington resiste a dar sinais de “fraqueza” diante de parceiros comerciais. Do lado brasileiro, também pesa a incerteza sobre o próximo governo: pesquisas apontam disputa apertada entre Lula, que tenta a reeleição, e o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Imagem: Valdo Cruz
Assessores de Lula apontam que, mesmo que as consultas resultem em recomendações favoráveis ao Brasil, a implementação de mudanças depende de vontade política do país condenado. “Sem sinal verde da Casa Branca, o painel pode até nos dar razão, mas o efeito prático será mínimo”, admitiu um diplomata envolvido no caso.
Relações bilaterais sob tensão
O impasse tarifário se soma a outros atritos recentes. A ala mais ideológica do governo norte-americano, liderada pelo secretário de Estado Marco Rubio, defende postura dura contra países que, em sua avaliação, fazem “vista grossa” a práticas trabalhistas irregulares na Ásia. O grupo também critica a posição brasileira sobre conflitos internacionais e a aproximação de Brasília com Pequim.
Como contrapartida, o Brasil congelou o agrément do novo embaixador indicado por Washington, Daniel Perez. A decisão significa que Perez só deverá apresentar credenciais após o pleito de 2026, interrompendo a tradição de rotatividade rápida no principal posto diplomático dos EUA na América do Sul.
Efeito colateral na vizinhança
Outro tema que preocupa o Itamaraty é a crise política na Argentina. O recente rebaixamento das relações ao nível de encarregado de negócios, motivado por declarações do governo argentino consideradas ofensivas, aumentou a complexidade regional em um momento no qual o Brasil tenta articular apoio contra as tarifas americanas dentro do Mercosul.
Próximos passos
O primeiro encontro técnico das consultas deve ocorrer em Genebra dentro de três semanas. Caso não haja entendimento até outubro, Brasília já sinalizou que partirá para a instalação de painel, etapa que costuma levar de 12 a 18 meses até decisão final. Paralelamente, o Ministério da Fazenda avalia possíveis retaliações cruzadas, mas reconhece que a capacidade de impor medidas proporcionais é limitada, já que o comércio bilateral é superavitário para o Brasil.
Enquanto isso, empresários acompanham com preocupação. A siderurgia brasileira calcula que, a cada mês de tarifa mantida, o setor perde R$ 420 milhões em receitas. No agronegócio, há temor de que Washington amplie as sobretaxas para alimentos processados caso a disputa escale.
Apesar do cenário nebuloso, diplomatas lembram que contendas tarifárias entre Brasil e EUA costumam terminar em acordo político. Exemplo disso foi a disputa do algodão, encerrada em 2014 com compensações financeiras aos produtores brasileiros. A diferença, agora, é o clima eleitoral intenso nos dois países — fator que pode empurrar qualquer solução para além de 2026.
