Disputa pelo Senado vira peça-chave: Lula tenta blindar STF e Flávio promete ofensiva conservadora

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    O tabuleiro eleitoral de 2026 reservou ao Senado um protagonismo raras vezes visto. Com duas das três cadeiras de cada estado em jogo — 54 no total — as campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Flávio Bolsonaro (PL) concentram esforços para formar maiorias capazes de influenciar a governabilidade ou, no extremo oposto, desafiar o Supremo Tribunal Federal (STF).

    A disputa ganhou contornos de plebiscito sobre o equilíbrio de Poderes: Lula trabalha para impedir que a direita alcance 41 assentos e, assim, controle a presidência da Casa a partir de 2027; Flávio, líder das pesquisas ao Planalto pelo campo bolsonarista, busca exatamente essa maioria para abrir caminho a pedidos de impeachment de ministros do STF e a mudanças constitucionais de viés conservador.

    Por que as 54 vagas viraram decisivas

    Além de revisar leis ordinárias, o Senado é o foro responsável por julgar presidentes da República e magistrados do STF em processos de crime de responsabilidade. Também cabe à Casa chancelar — ou barrar — nomeações estratégicas, como a presidência do Banco Central ou futuras indicações à própria Corte Suprema. Com quase dois terços dos mandatos expirando ao mesmo tempo, o resultado de 2026 definirá, na prática, quem terá poder de veto nos próximos oito anos.

    Uma bancada de 41 senadores forma maioria absoluta, suficiente para eleger o comando do Senado, controlar a pauta e segurar ou avançar sobre pedidos de impeachment. Já propostas de emenda à Constituição exigem 49 votos, meta declarada por Flávio Bolsonaro para endurecer leis penais, como a redução da maioridade, e rever competências do STF.

    Lula joga pela governabilidade

    No terceiro mandato presidencial, Lula viu temas centrais ficarem retidos na mesa do então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), quando divergiu do principal articulador da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP). O abalo ocorreu depois de Lula optar pela indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao STF, contrariando a preferência de Alcolumbre por Pacheco. A suspensão de votações, como as PECs da jornada 6×1 e da Segurança, expôs o risco de depender de alianças frágeis, levando o Planalto a investir pesado na eleição dos futuros senadores.

    O presidente petista verbalizou, ainda em 2025, receio de que uma “onda bolsonarista” no Senado “avacalhe” o Supremo com pedidos de impeachment. A partir daí, passou a negociar diretamente palanques estaduais, mesmo que isso significasse abrir mão de disputas a governos para acomodar aliados com maior densidade nas urnas.

    Palanques ajustados estado a estado

    • Rio Grande do Sul – O PT desistiu de lançar Edegar Pretto ao governo e ingressou na chapa de Juliana Brizola (PDT); Pretto saiu candidato a vice, e o ex-ministro Paulo Pimenta (PT) concorre a uma das vagas no Senado.
    • São Paulo – Lula escalou duas ex-ministras de seu governo: Simone Tebet (PSB), do Planejamento, e Marina Silva (Rede), do Meio Ambiente. Ambas disputam cadeiras distintas, mas dividem eleitores progressistas no maior colégio eleitoral do país.
    • Paraná – Gleisi Hoffmann (PT), ex-chefe da Secretaria de Relações Institucionais e presidente nacional da legenda, busca retornar ao Senado em palanque aliado ao governador Ratinho Júnior (PSD) para isolar adversários bolsonaristas.
    • Bahia – Rui Costa (PT), ex-ministro da Casa Civil, lidera sondagens locais e mira reproduzir o domínio petista no estado.
    • Mato Grosso – Carlos Fávaro (PSD), que comandou a Agricultura, tenta renovar mandato ancorado no agronegócio moderado.
    • Maranhão – Lula conta oficialmente com Eliziane Gama (PT) mas também é cortejado por outros nomes: André Fufuca (PP), Weverton Rocha (PDT) e Roseana Sarney (MDB). A multiplicidade de apoios reflete a fragmentação do campo governista regional.

    Ao privilegiar candidaturas viáveis, o Planalto espera segurar assentos suficientes para barrar eventuais ofensivas contra o STF e manter folga para pautar matérias econômicas sem refém de grupos hostis.

    Flávio Bolsonaro organiza ofensiva conservadora

    Do outro lado, o senador Flávio Bolsonaro transformou a corrida pelo Senado em pilar de sua própria postulação ao Palácio do Planalto. Ele se reuniu com pré-candidatos na capital federal e deixou claro o objetivo: “Quem tira ministro do Supremo é o Senado”, disse, incentivando o coro pelo impeachment de Alexandre de Moraes.

    A experiência recente pesa. Em fevereiro de 2023, a oposição lançou Rogério Marinho (PL-RN) à presidência do Senado e perdeu por 49 a 32 — derrota que afastou o PL da Mesa Diretora e das comissões. Flávio avalia que, com uma bancada ampliada, poderá não apenas reconquistar espaços, mas também instalar um aliado fiel no posto máximo da Casa em 2027.

    Duplas bolsonaristas para levar as duas cadeiras

    • Santa Catarina – O clã aposta numa chapa familiar com Carlos Bolsonaro (PL) e na deputada Carol de Toni (PL). Pesquisas iniciais mostram ambos bem posicionados.
    • Paraná – Antipetismo é a principal bandeira. Flávio faz campanha por Deltan Dallagnol (Novo), ex-coordenador da Lava Jato, e Filipe Barros (PL).
    • Distrito Federal – Michelle Bolsonaro (PL) deve liderar a votação local e puxar votos para Bia Kicis (PL). A estratégia prevê transformar o reduto brasiliense em vitrine nacional.

    Flávio não esconde a intenção de reunir 49 votos para mexer na Constituição. Entre os alvos: redução da maioridade penal e limitação de decisões monocráticas do STF. A leitura no entorno bolsonarista é de que, obtida a presidência do Senado, será possível colocar em marcha uma agenda que hoje esbarra na resistência de alas centristas e do Judiciário.

    O que está em jogo para o próximo governo

    Quem chegar ao Planalto em 2027 terá de negociar diretamente com o Senado renovado. Quatro cadeiras do STF estarão abertas na próxima gestão, substituições capazes de alterar o equilíbrio interno da Corte. A Casa legislativa também votará ajustes fiscais, reformas tributárias residuais e eventuais mudanças no marco do teto de gastos. Tudo isso passa por articulações que começam agora, nos palanques estaduais, mas terão repercussão nacional por toda a próxima década.

    Se Lula conseguir bloquear a formação de um bloco de 41 senadores de direita, tende a manter margem para aprovar indicações e evitar sobressaltos no STF. Caso Flávio alcance a maioria, o Senado pode se tornar trincheira de confronto institucional, patrocinando CPIs, redirecionando emendas e impondo vetos a ministros da Suprema Corte. Na prática, a eleição majoritária de 2026 se estende para além do Planalto; o placar das 54 cadeiras definirá se o Brasil caminha para coabitação contida ou para choque aberto entre Poderes.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.