O eleitor que não se diz nem de direita, nem de esquerda, tampouco alinhado a Lula ou aos Bolsonaro, pode decidir a próxima eleição presidencial — mas parece longe das urnas. Levantamento Quaest, divulgado na última sexta-feira (14), indica que 80% desse segmento, definido como “independente”, demonstra pouco ou nenhum interesse na corrida de 2026.
Esse aparente afastamento preocupa partidos e candidatos: o grupo representa 32% da amostra de 2.004 pessoas entrevistadas entre 10 e 13 de agosto. A depender do engajamento, esses eleitores podem repetir 2022, quando migraram em massa somente na reta final da campanha, ou simplesmente anular o voto, reduzindo o peso de suas preferências nas urnas.
Apatia eleitoral: números que chamam atenção
Interesse baixo é o dobro do registrado no público geral
Enquanto 63% do conjunto total de eleitores ouvidos afirmam ter pouco ou nenhum interesse na disputa, entre os independentes esse percentual sobe para 80%. A indiferença se divide entre 47% “pouco interessados” e 33% “nada interessados”. Apenas 20% se dizem “muito interessados”.
Margem de erro e metodologia
A pesquisa, contratada pela Globo e pelo jornal O Globo, ouviu presencialmente maiores de 16 anos em todos os estados. A margem de erro é de até dois pontos percentuais para a amostra total, chegando a quatro pontos quando os dados são recortados apenas para os independentes. O estudo está registrado no TSE sob o número BR-06773/2026 e adota nível de confiança de 95%.
Retrato de voto no primeiro turno
Mesmo distantes da campanha, os independentes já sinalizam preferência inicial. Em cenário estimulado, quando os nomes dos pré-candidatos são apresentados, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera com 23% das intenções. O senador Flávio Bolsonaro (PL) aparece em segundo lugar, com 16%.
Depois do petista e do parlamentar, a lista mostra:
- Renan Santos (Missão) – 8%
- Ronaldo Caiado (PSD) – 6%
- Augusto Cury (Avante) – 4%
- Romeu Zema (Novo) – 3%
- Samara Martins (UP) – 1%
- Edmilson Costa (PCB) – 1%
- Brancos, nulos ou abstenção – 18%
- Indecisos – 20%
Clariana Barão (DC), Hertz Dias (PSTU), Leonardo Avalanche (PRTB), Rui Costa Pimenta (PCO) e Wilson Grassi (Democrata) não alcançaram 1%.
Comparação com o eleitorado total
Na amostra global, a vantagem de Lula sobre Flávio é maior: 38% a 31%. A diferença reforça a tese de que o campo independente, além de mais apático, também dilui votos, gerando cenário menos polarizado que a média.
Segundo turno permanece indefinido
Quando o embate fica restrito a Lula e Flávio Bolsonaro, a balança continua equilibrada entre independentes: 35% escolhem o senador; 29% preferem o petista; 27% optam por voto branco, nulo ou ausência; e 9% não sabem. A margem de erro de quatro pontos faz com que o resultado configure empate técnico.
No conjunto de todos os eleitores, o retrato é parecido: 43% para Lula, 40% para Flávio. Essa oscilação, observada desde maio, evidencia um eleitor que alterna posicionamento conforme o clima do momento.
Rejeição alta aos dois polos
A resistência a Lula e ao clã Bolsonaro é praticamente idêntica entre independentes: 60% dizem que não votariam no petista de jeito nenhum; 59% descartam Flávio. Em seguida, aparecem índices bem mais baixos de rejeição para Ronaldo Caiado e Romeu Zema, ambos com 28%.
Entre todos os eleitores, a inversão é sutil: Flávio detém a maior rejeição (54%), e Lula, 52%. Os demais nomes concentram menos de 35%.
Medo da permanência ou da volta ao poder
Questionados sobre o que causa mais receio — reeleição de Lula ou retorno dos Bolsonaro ao Palácio do Planalto — os independentes se dividiram também de forma equilibrada: 37% temem mais os Bolsonaro, 35% se preocupam mais com Lula. Outros 13% afirmam temer ambos os cenários, 9% não souberam responder e 6% declararam não temer nenhum.

Imagem: Internet
No eleitorado geral, a preocupação maior recai sobre a volta da família Bolsonaro (45%), enquanto 41% receiam um novo mandato de Lula.
Avaliação do governo Lula
Dentro desse grupo crucial, 36% classificam a gestão Lula 3 como negativa, 34% a consideram regular e 26% positiva. Os demais 4% não opinaram. O índice de aprovação é, portanto, inferior ao registrado entre o conjunto dos entrevistados, onde os “positivos” somam 36%.
O peso da abstenção e do voto indefinido
Especialistas em comportamento político apontam que o desinteresse pode ter consequências diretas no resultado final. Em 2022, mais de 32 milhões de brasileiros não votaram no segundo turno, maior número desde a redemocratização. Caso o cenário se repita — e os independentes mantenham a tendência de abstenção, brancos e nulos — candidaturas que dependem da “virada” desse eleitor ficam sem margem para crescer nos dias decisivos.
A pesquisa mostra que 18% dos independentes já anunciam a intenção de anular ou faltar às urnas. Somados aos 20% de indecisos, chega-se a 38% de votos em jogo, praticamente quatro a cada dez integrantes do segmento.
Quem são os independentes?
O instituto Quaest define como independentes os entrevistados que não se declaram de direita, de esquerda, bolsonaristas ou lulistas. É um grupo heterogêneo: inclui tanto eleitores de centro quanto pessoas que rejeitam qualquer rótulo ideológico. Por isso, a oscilação entre Lula e Bolsonaro aparece mais volatilizada, e a rejeição a ambos atinge patamar elevado.
Desafio para as campanhas
Com o calendário oficial distante — o primeiro turno ocorrerá apenas em outubro de 2026 —, as equipes de marketing já monitoram esse eleitorado “solto”. Além de investir em comunicação segmentada, os partidos avaliam estratégias para reduzir a abstenção. Entre as ideias em discussão nos bastidores estão reforço de mobilização digital, visitas a regiões de menor comparecimento e inserções voltadas ao voto útil.
O alto índice de rejeição, porém, impõe limite. “O discurso de medo do adversário não basta. É preciso oferecer agenda concreta, especialmente para quem não se vê representado por nenhum dos polos”, observa um estrategista que acompanha a pesquisa.
Próximos passos da sondagem
A Quaest programou novas rodadas mensais. A expectativa é verificar se o noticiário econômico, a aprovação de pautas no Congresso e a definição das alianças influenciam o interesse dos independentes. Caso a taxa de apatia se mantenha, crescerá a chance de um pleito decidido pela militância fiel de cada campo.
O Tribunal Superior Eleitoral começa a executar ações de incentivo ao voto a partir de 2025, mas admite nos bastidores que o fenômeno da desinformação e o desgaste da política dificultam recuperar a confiança de quem se sente alheio ao debate público.
No tabuleiro de 2026, portanto, a principal incógnita não é quem lidera as pesquisas, mas quem vai, de fato, sair de casa para votar.
