Depoimento de assassino liga governador Carlos Brandão a reuniões no Palácio dos Leões e a suposto esquema de propina

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    Pivô de uma investigação que já chegou ao Supremo Tribunal Federal, o empresário Gilbson Júnior, condenado por assassinar João Bosco Sobrinho em 2022, afirmou à Polícia Federal que mantinha reuniões frequentes com o governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), dentro do Palácio dos Leões. Segundo o depoimento, prestado em junho de 2025, ele tinha até uma vaga fixa de estacionamento — a “número 6” — e circulava sem restrições na área residencial do chefe do Executivo.

    As declarações reabriram suspeitas de que o homicídio esteja ligado à disputa por propinas provenientes de contratos públicos. O inquérito, que começou no Superior Tribunal de Justiça, está agora sob relatoria do ministro Flávio Dino no STF, depois que surgiram indícios de tentativa de interferência política no caso.

    Reuniões no coração do governo

    No relato obtido pela PF, Gilbson Júnior diz ter se aproximado de Brandão em 2021, quando o emedebista ainda era vice-governador. Já nas primeiras conversas, o então vice o teria apresentado ao sobrinho, Daniel Brandão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA) desde 2023 e hoje afastado do cargo por decisão do próprio STF.

    O condenado descreveu encontros reservados nos salões internos do Palácio: “Eu chegava, subia a escada pela área de vivência do governador; depois me deram ordem para entrar direto”. De acordo com ele, a relação começou a partir de um negócio de terras que não vingou, mas serviu para cimentar a aliança com o grupo político.

    Dois Brandão em cena

    • Carlos Brandão: atual governador, reeleito em outubro de 2022;
    • Daniel Brandão: sobrinho, presidente afastado do TCE-MA, apontado como principal articulador da cobrança de propina.

    O homicídio e a disputa por dinheiro público

    João Bosco Sobrinho foi morto a tiros por Gilbson Júnior em 17 de agosto de 2022, no centro comercial Tech Office, em São Luís. A versão inicial da Polícia Civil atribuía o crime a desavença pessoal, e o empresário foi condenado a 13 anos de prisão em 2024. Um ano depois, já cumprindo pena, decidiu expor uma narrativa diferente: o desentendimento teria surgido porque uma empresa, contratada pelo Estado, recebeu cerca de R$ 700 mil e deveria devolver metade ao grupo de Brandão. O valor, porém, foi bloqueado pela Justiça para quitar dívidas trabalhistas.

    Diante da cobrança, Gilbson afirma ter sido convocado por Daniel para “resolver a pendência” em pleno período eleitoral. No encontro no Tech Office, Daniel teria saído antes do desfecho, deixando Bosco e outro aliado, apelidado de Beto, pressionarem o empresário pelo dinheiro. Temendo represálias, Gilbson disse ter reagido quando supôs que seria sequestrado: “Abri a bolsa, puxei a arma e dei três tiros”.

    Silêncio comprado com dinheiro vivo

    Detido, o assassino sustentou que recebeu garantias de aliados do governador para que assumisse o crime sozinho e não citasse a família Brandão. O ex-secretário de Segurança Raimundo Cutrim teria articulado uma mesada que começou em R$ 40 mil mensais, caiu para R$ 30 mil após a eleição de 2022 e depois ficou em R$ 15 mil. Os repasses, sempre em espécie, envolveriam ainda o empresário Júnior Cabeção e o advogado Flávio Costa, nomeado desembargador do Tribunal de Justiça do Maranhão em 2026.

    Conversas dentro da cadeia

    Segundo o depoente, mesmo preso, recebeu telefonemas do empresário Marcus Brandão, irmão do governador. A chamada teria sido feita a partir da administração do presídio, fora dos registros formais. “Ele pediu para eu não colocar o nome deles em nada, que ia ficar tudo bem”, contou.

    Investigação chega ao Supremo

    O caso migrou para o STF em outubro de 2025 porque a Polícia Federal apontou tentativa de obstrução da apuração no STJ. O senador Weverton Rocha (PDT-MA), que tem foro privilegiado, é suspeito de atuar para travar o processo e proteger o clã Brandão. Ele nega qualquer interferência e atribui as acusações a perseguição política.

    Em decisão sigilosa de novembro de 2025, à qual a reportagem teve acesso, o ministro Flávio Dino manteve a Corte Suprema como competente para monitorar a investigação. O documento reproduz trechos do depoimento de Gilbson e detalha os pagamentos destinados a mantê-lo em silêncio.

    Reações dos citados

    O governador Carlos Brandão divulgou nota em que classifica como “inconsistentes” as menções ao seu nome e critica a atuação do STF, alegando desrespeito à competência do STJ. Daniel Brandão, afastado do TCE-MA por 180 dias, afirma ser “absolutamente inocente” e diz estar à disposição da Justiça. Já o Tribunal de Justiça do Maranhão não se pronunciou sobre a citação ao desembargador Flávio Costa até o fechamento desta edição.

    Próximos passos

    1. Coleta de novos depoimentos na PF, incluindo servidores do Palácio dos Leões que registravam visitas;
    2. Análise de imagens das câmeras de segurança do Tech Office, que teriam sido ignoradas na investigação estadual;
    3. Apreensão de registros bancários para rastrear os repasses em espécie mencionados por Gilbson Júnior;
    4. Decisão do STF sobre eventual denúncia formal contra autoridades com foro privilegiado.

    Enquanto o Supremo define os rumos do inquérito, o relato de um condenado por homicídio mantém em tensão o núcleo político que comanda o Maranhão — agora sob suspeita de ter usado o próprio palácio de governo como ponto de encontro para tratar de um esquema de propinas que pode ter terminado em morte.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.