O Palácio do Planalto trabalha com o cenário de que a crise diplomática com Washington ainda está distante do ápice. Integrantes do governo afirmam que, nos próximos dias, a Casa Branca deve responder à negativa de vistos a dois enviados norte-americanos com novas restrições e outras iniciativas destinadas a fragilizar politicamente o Brasil.
No Itamaraty, a expectativa é de uma campanha prolongada – definida internamente como “pressão máxima” – composta por medidas administrativas, econômicas e uma ofensiva de comunicação que, na leitura de Brasília, busca interferir no ambiente eleitoral de 2026 e fortalecer candidatos da direita.
Escalada prevista em Brasília
Negativa de vistos acirra ânimos
A atual rodada de tensão começou quando o governo brasileiro barrou a entrada de dois funcionários norte-americanos que viriam ao país para uma missão relacionada às eleições. O episódio foi lido pelo Departamento de Estado como um desafio direto, elevando a temperatura na relação bilateral.
Diplomatas relatam que Washington dificilmente deixará o gesto sem resposta. O Planalto, por sua vez, entende que a missão recusada fazia parte de uma estratégia mais ampla dos Estados Unidos para acompanhar – e influenciar – o processo eleitoral brasileiro. Ao optar pelo veto, Brasília calculou que uma represália viria, mas apostou em ganhar tempo e mandar um sinal de que não aceita tutelas externas sobre o pleito.
Possíveis retaliações de Washington
A expectativa imediata é de novas restrições de vistos a autoridades ou assessores ligados ao governo Lula. Também ganhou força, nos bastidores, a possibilidade de o governo norte-americano acionar a Lei Magnitsky, que permite punir estrangeiros acusados de corrupção ou violações de direitos humanos com sanções financeiras e bloqueio de bens.
Nesse tabuleiro, não se espera um único gesto de grande impacto, e sim uma série de iniciativas sucessivas que, somadas, ampliem o desgaste institucional brasileiro. Entre elas estariam:
- barreiras a acordos de cooperação já negociados;
- aumento da fiscalização sobre exportações sensíveis;
- críticas públicas ao sistema eleitoral brasileiro em pronunciamentos oficiais;
- articulação de congressistas norte-americanos para sustentar a ofensiva.
Diplomatas em Brasília e em Nova York descrevem a estratégia como uma combinação de “chirping” – minar a reputação do país com declarações sucessivas – e pressões pontuais que afetem a economia, sem chegar ao ponto de uma sanção ampla que possa comprometer interesses bilaterais maiores, como comércio agrícola e investimentos em energia.
Dimensão eleitoral e geopolítica
Flávio Bolsonaro e a narrativa de perseguição
No núcleo político do governo, há a convicção de que eventuais ataques dos EUA turbinam a campanha de Flávio Bolsonaro (PL), já apresentado como herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro. Cada novo choque diplomático seria usado para reforçar o discurso de “perseguição” e questionar antecipadamente a lisura do pleito de 2026, caso o campo conservador seja derrotado.

Imagem: Andréia Sadi
Assessores presidenciais lembram que rumores sobre interferência externa no processo eleitoral brasileiro ganharam força em 2022 e foram desmentidos pelo Tribunal Superior Eleitoral. Ainda assim, o tema continua recorrente em grupos ligados à extrema direita, que veem na tensão com Washington uma oportunidade para renovar suspeitas sobre urnas e instituições.
Articulação da direita latino-americana
Para o Itamaraty, o Brasil tornou-se o principal obstáculo a uma onda conservadora que, na avaliação de diplomatas, já conta com governos simpáticos a Donald Trump em vários países da região. Esse diagnóstico não implica controle direto da Casa Branca sobre cada movimento, mas aponta para uma convergência de interesses e narrativas entre grupos da direita continental.
Nesse enredo, o presidente argentino Javier Milei surge como peça complementar. Aliado ideológico do trumpismo e do bolsonarismo, Milei intensificou ataques ao presidente Lula, o que, de acordo com analistas brasileiros, ajuda a desviar a atenção de seus próprios desafios internos enquanto ecoa o discurso conservador que se pretende hegemônico na América do Sul.
O que vem a seguir
Nos gabinetes do Planalto e do Itamaraty, o entendimento é que a crise está “em desenvolvimento” e deverá atravessar várias fases até as eleições de 2026. A orientação, por ora, é evitar reação desproporcional a eventuais sanções norte-americanas, apostando em canais diplomáticos tradicionais para conter danos sem recuar na defesa da soberania eleitoral.
Paralelamente, o governo avalia reforçar interlocução com países europeus e organismos multilaterais como forma de ampliar apoios que sirvam de contrapeso à pressão de Washington. A estratégia prevê enfatizar o histórico de eleições pacíficas no país, a solidez das instituições e o compromisso brasileiro com acordos internacionais, isolando qualquer narrativa de instabilidade.
Mesmo assim, ninguém no governo descarta novos capítulos turbulentos. Como definiu um diplomata ouvido pela reportagem, “quando o jogo é pressão máxima, o próximo lance raramente é o último”.
