Vídeo sobre Doutrina Monroe acirra crise: quem é Marco Rubio, o secretário de Estado dos EUA que comprou briga com o Brasil

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    Uma mensagem de 45 segundos publicada pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, na terça-feira (11), ecoou como provocação direta aos vizinhos latino-americanos. No vídeo, Washington declara que o predomínio norte-americano “jamais será contestado” e resgata a Doutrina Monroe — o princípio do século XIX que reafirma a América como “quintal” de Washington. Horas depois, o governo brasileiro confirmou que a pasta chefiada por Marco Rubio revogou o visto diplomático de Maria Luísa Viotti, embaixadora em Washington, escalonando uma crise que vinha se arrastando desde o início do mês.

    Rubio, um dos nomes mais ideológicos do Partido Republicano e braço direito de Donald Trump em assuntos de segurança, virou o epicentro do atrito. Além de patrocinar a retirada do visto de Viotti, o secretário já declarou em público que “este é o nosso hemisfério” e classifica a presença de governos de esquerda na região como “ameaça geopolítica”. Analistas enxergam na ofensiva o prelúdio de uma possível interferência no pleito brasileiro de outubro, no qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta a reeleição.

    Como o estopim surgiu: de um tuíte para a expulsão velada

    A relação bilateral atravessava fase de desconfiança desde julho, quando o Planalto condenou sanções unilaterais de Washington a Caracas. O ponto de ruptura, porém, ocorreu na madrugada do dia 11. Publicado no X (ex-Twitter) e no Instagram oficiais do Departamento de Estado, o vídeo traz mapas do continente, trilha épica e a frase “Estados Unidos, líderes incontestes das Américas”. Minutos depois, usuários notaram a referência explícita à Doutrina Monroe. Em Brasília, a chancelaria considerou o material “inaceitável”.

    Na interpretação de diplomatas brasileiros, a postagem serviu de justificativa para uma retaliação planejada: o cancelamento do visto A-1 da embaixadora. Com isso, Maria Luísa Viotti, no cargo desde 2023, perde prerrogativas diplomáticas e deve deixar o país em até 30 dias, a menos que nova autorização seja concedida. Procurado, o Itamaraty informou que “medidas equivalentes” estão em estudo, sem detalhar quais.

    Quem é Marco Rubio e por que sua palavra pesa

    De senador combativo a chanceler de Trump

    Nascido em Miami, filho de imigrantes cubanos, Rubio cresceu politicamente vendendo a ideia de combate ao “socialismo latino-americano”. Eleito senador pela Flórida em 2010, foi alçado a estrela republicana no ciclo de 2016, quando disputou prévias contra o próprio Trump. A reconciliação veio depois: já no primeiro mandato do ex-presidente, Rubio integrou o Conselho de Segurança Nacional. Em janeiro de 2025, assumiu o Departamento de Estado.

    Desde então, seu discurso endureceu. “A América Latina precisa de liderança, não de populismo”, disse durante sabatina no Senado. Em março deste ano, chamou Lula de “aliado oportunista de tiranos”. O Planalto respondeu classificando o secretário como “latino-americano frustrado” — expressão usada pelo presidente em entrevista à rádio Itatiaia.

    Poder formal e informal

    Rubio acumula o cargo de assessor de segurança de Trump, função que, embora não conste nos manuais, amplia seu raio de ação. “Ele senta a três cadeiras do presidente em quase todas as reuniões decisivas”, explica o cientista político Carlos Gustavo Poggio, professor no Berea College, Kentucky. No podcast O Assunto, do g1, Poggio avalia que Rubio opera como “ponte” entre falcões militares e eleitorado conservador de origem latina, sobretudo na Flórida.

    Os efeitos da Doutrina Monroe 2.0

    Pressão contra governos de esquerda

    Diferentes especialistas apontam que a nova retórica de Washington busca conter avanços de China e Rússia no continente. Para Rubio, regimes considerados “hostis” — entre eles Brasil, Colômbia e México — funcionariam como porta de entrada para rivais estratégicos. “A ideia de que o hemisfério é extensão natural da defesa norte-americana nunca saiu do radar; só mudou o tom”, resume Poggio.

    No Congresso em Brasília, parlamentares governistas preparam requerimentos de convocação do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, para que detalhe respostas ao episódio. A oposição, por sua vez, minimiza a gravidade e acusa o Planalto de “fomentar conflito ideológico”.

    A fronteira entre influência e ingerência

    O temor de interferência no pleito brasileiro ganhou corpo após declarações de Guga Chacra, analista internacional, e do jornalista Valdo Cruz, que apontaram “campanha velada” de Rubio para enfraquecer Lula. Relatos reservados indicam que consultores próximos ao secretário mantiveram encontros com figuras da direita brasileira, inclusive ex-apoiadores de Jair Bolsonaro, oferecidos como “parceiros” em eventual segundo governo Trump.

    Mesmo sem provas de ação direta, o histórico pesa. Em 2024, relatórios do Congressional Research Service listaram manobras de Rubio para condicionar empréstimos do BID a países que “comprometem estabilidade democrática”. Para Poggio, ainda que a ingerência seja difícil de mensurar, “o simples discurso já contamina o ambiente eleitoral” — sobretudo em cenário de redes sociais inflamadas.

    Roteiro de colisões diplomáticas

    1. 3 de agosto: Departamento de Estado impõe novas restrições a importações de aço brasileiro, alegando subsídios.
    2. 5 de agosto: Itamaraty convoca o encarregado de negócios dos EUA para pedir explicações.
    3. 7 de agosto: Rubio participa de mesa-redonda sobre mineração ao lado de Trump e volta a criticar “alianças erradas do Brasil”.
    4. 11 de agosto: Publicação do vídeo sobre Doutrina Monroe.
    5. 11 de agosto (noite): Cancelamento do visto da embaixadora Maria Luísa Viotti.

    Quais saídas o Itamaraty estuda

    No curto prazo, diplomatas avaliam três opções:

    • Retaliação recíproca: cancelar vistos de diplomatas norte-americanos de status equivalente.
    • Consulta à OEA: acionar o órgão para questionar a aderência do vídeo aos princípios de não intervenção.
    • Apostas multilaterais: ampliar diálogo com União Europeia e Brics para contrabalançar pressão de Washington.

    A ala moderada do governo, liderada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, defende cautela. Já o círculo mais próximo de Lula prefere resposta “à altura”, argumentando que omissão alimentaria novas investidas.

    Impacto na economia e no comércio

    Estados Unidos e Brasil movimentaram US$ 98,4 bilhões em comércio bilateral em 2025. Segundo a Confederação Nacional da Indústria, o cancelamento do visto da embaixadora não afeta acordos vigentes, mas sinaliza risco de barreiras tarifárias motivadas por política. Exportadores de aço e alumínio, já atingidos por sobretaxas recentes, temem nova rodada de sanções.

    Mercado cambial reagiu: o dólar subiu 1,7% na quarta-feira (12) e o Ibovespa recuou 2,3%, puxado por empresas com receita dolarizada. Para Adriana Dupas, economista da Tendências Consultoria, “questões diplomáticas não costumam ter efeito prolongado, mas podem piorar expectativas se houver escalada retórica”.

    Olho nas urnas de outubro

    Interlocutores de campanha relatam que Lula avalia explorar o episódio como prova de “soberania ameaçada”, enquanto a oposição tentará responsabilizar o petista por “isolamento internacional”. O Tribunal Superior Eleitoral monitora grupos estrangeiros em redes sociais e mantém diálogo com o FBI sobre eventuais ataques cibernéticos.

    A menos de dois meses da votação, analistas concordam em um ponto: a crise com os EUA virou pauta interna e deve ganhar peso nos debates televisivos.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.