Nem mesmo a liderança folgada nas pesquisas garantiu a Cleitinho a vaga de candidato ao Palácio Tiradentes. Na manhã desta quarta-feira (29), a direção nacional do Republicanos anunciou que o senador não representará a legenda na eleição de 2026 em Minas Gerais. Minutos depois, o próprio parlamentar divulgou nota jurando que continua “disposto” a concorrer, criando um duelo público e inédito dentro do partido.
O embate ocorre a pouco mais de uma semana do prazo final para registro das chapas nas convenções estaduais. Caso persista o veto interno, o mineiro, eleito senador em 2022 com mais de quatro milhões de votos, ficaria sem alternativa viável: pela legislação eleitoral, ele não pode mudar de sigla desde 4 de abril, data-limite para filiação de quem pretende disputar mandatos majoritários em 2026.
Decisão do partido contraria declarações do senador
O presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, atribuiu a retirada à “falta de definição clara” do próprio Cleitinho e à ausência dele na convenção estadual do último sábado (25). A cúpula avaliou que o sumiço do pré-candidato inviabilizou alianças e materiais gráficos necessários às campanhas proporcionais, nas quais a sigla tenta ampliar bancada na Câmara e na Assembleia.
Em resposta, o senador alegou que só não foi ao encontro por “motivos pessoais”, mas que se mantém no páreo. Ele afirma ter o mandato, a confiança do eleitorado e “a vontade de Deus” para justificar a insistência. Na prática, nenhuma candidatura pode ser apresentada sem o aval formal da legenda, o que torna a disputa uma queda de braço interna.
Idas e vindas desde março
Anúncio inicial e primeiras dúvidas
O Republicanos colocou Cleitinho como pré-candidato em 2 de março. À época, o partido enxergava no senador o nome capaz de ocupar o espaço da direita mineira, desgastada pela gestão Romeu Zema e pelo baixo índice de conhecimento do governador interino Mateus Simões (PSD). Entretanto, desde o início, aliados duvidavam da disposição de Cleitinho em administrar um estado com grave crise fiscal.
Sinais de recuo nas redes e no Senado
A sequência de recuos começou em 1º de abril, quando ele gravou vídeo negando boatos de desistência. Em 10 de junho, da tribuna do Senado, voltou a condicionar o passo seguinte a duas premissas: estar na dianteira das pesquisas e não enfrentar Nikolas Ferreira (PL) na mesma faixa ideológica. Um mês depois, declarou que só “conversaria depois da Copa”. O Brasil caiu em 5 de julho, e o silêncio permaneceu.
Luto familiar agrava indefinição
Em 18 de julho, o irmão mais novo do senador, Matheus Azevedo, morreu vítima de leucemia. Amigos relatam que o luto afastou Cleitinho das articulações partidárias. A ausência dele na convenção do dia 25 escancarou o vácuo de comando, fazendo Republicanos e PL discutirem apoio ao deputado Marcelo Aro (PP).
Pressões de dentro e de fora
Para o Republicanos, ter um candidato competitivo ao governo significa multiplicar votos de legenda e garantir vagas extras no Legislativo. Já o PL, sem palanque após a desistência de Nikolas Ferreira, enxergava em Cleitinho a vitrine para lançar Flávio Bolsonaro ao Senado. A instabilidade, porém, travou costuras nos dois partidos.
Adversários atribuem a hesitação do senador a um “temor de herdar uma bomba fiscal”. Minas Gerais carrega uma das maiores dívidas estaduais com a União, tema que domina o debate local porque impacta investimentos, reajustes e pagamento de servidores. Qualquer novo governador terá de negociar um regime de recuperação, arriscando a popularidade ganhada nas urnas.

Imagem: Internet
Travas legais limitam movimentos do senador
Diferentemente de deputados, senadores podem mudar de legenda sem janela partidária. Ainda assim, a Justiça Eleitoral obriga pré-candidatos a estarem filiados ao partido escolhido seis meses antes do pleito. Esse prazo – 4 de abril – já passou. Portanto, mesmo que rompa com o Republicanos, Cleitinho não dispõe de abrigo jurídico para se lançar por outra sigla nem pode disputar de forma avulsa, modalidade inexistente no Brasil.
Além da filiação, o registro da candidatura precisa ser submetido pelo partido até 15 de agosto. Sem assinatura da executiva estadual – alinhada à nacional –, o sistema da Justiça Eleitoral barra automaticamente o pedido. Caso tente judicializar, o senador arriscaria ficar fora da cédula eletrônica e ainda comprometer a própria posição no Senado.
Como o impasse afeta o tabuleiro mineiro
Com Cleitinho fora, o campo conservador buscaria novo nome rápido. O PSD de Mateus Simões já fechou apoio à reeleição de Romeu Zema, dificultando a transferência de votos para outra direita. O PP de Marcelo Aro ganha força como alternativa de coalizão, e o PL analisa se investe nele ou se lança candidatura própria de última hora.
Para os concorrentes de centro-esquerda, a indefinição abre espaço para avançar sobre o eleitorado descontente com Zema. Contudo, também adia alianças, pois partidos preferem ver quem ficará no páreo antes de sacramentar coligações proporcionais.
Próximos passos
Até o fim das convenções, o Republicanos precisa formalizar chapa majoritária, seja com Cleitinho ou substituto. Se a direção mantiver a negativa, o senador tende a cumprir mandato em Brasília, onde já integrou a CPI das ONGs e baseia a atuação em temas de segurança pública.
Nos bastidores, correligionários ainda tentam reconciliação, lembrando que Cleitinho aparece com dois dígitos de vantagem na pesquisa Quaest divulgada terça (28). Caso volte ao jogo, o desafio será expor projeto convincente para equilibrar contas mineiras sem sacrificar promessas populares — e, sobretudo, provar que a hesitação ficou para trás.
