A entrevista concedida por Fernando Haddad (PT) a O Globo, Valor Econômico e rádio CBN expôs uma série de números e comparações sobre São Paulo que, depois de verificados, revelam tanto acertos quanto distorções do ex-ministro da Educação. A equipe de verificação analisou doze afirmações feitas durante a sabatina desta quarta-feira (19) e classificou cada uma delas.
Entre os pontos checados, Haddad acertou ao reivindicar participação na criação da Lei das Parcerias Público-Privadas e ao dizer que a nota do ensino médio paulista despencou no Ideb; errou, contudo, ao negar reajuste para a Polícia Civil. Outras colocações, a exemplo das reclamações contra a Sabesp e da relação de ex-ministros de Jair Bolsonaro com o Banco Master, ficaram no campo das meias-verdades.
Economia e contas públicas
Lei das PPPs: participação confirmada
Haddad afirmou ter redigido o projeto que originou a Lei 11.079/2004. Documentos da Câmara mostram que, em 2003, ele foi ouvido como “responsável pela formulação do projeto” e explicou os objetivos ao colegiado especial, o que sustenta a declaração.
Déficit de R$ 60 bilhões no Orçamento de 2023
O petista lembrou que o governo Bolsonaro previu déficit primário de aproximadamente R$ 65,9 bilhões na LDO de 2023; o PLOA enviado pelo então ministro Paulo Guedes estimava saldo negativo de R$ 63,7 bilhões. O número citado se enquadra na faixa oficial e foi considerado correto.
IPVA prometido por Tarcísio não caiu
Durante a campanha de 2022, Tarcísio de Freitas prometera reduzir a alíquota-base do IPVA de 4% para 3%. Até hoje as alíquotas permanecem inalteradas, embora motocicletas de até 180 cc tenham obtido isenção em 2025. A crítica de Haddad procede.
Segurança pública
Reajuste para policiais: dado incorreto
Haddad declarou que o governador não concedeu aumento à Polícia Civil. Registros estaduais mostram dois pacotes de reajuste: um em 2023, com média de 20,2%, e outro em 2026, de 10% para todas as carreiras. A fala foi classificada como falsa.
Programa Muralha Paulista e letalidade policial
Segundo o candidato, R$ 600 milhões teriam sido destinados ao Muralha Paulista e a letalidade policial subiu 80%. A LOA de 2026 prevê investimento próximo de R$ 565 milhões no sistema de câmeras, confirmando a ordem de grandeza citada. Relatórios do Ministério Público indicam que mortes causadas por agentes do Estado passaram de 357 em 2023 para 653 em 2024, aumento de 83%, compatível com o percentual utilizado pelo petista.
Esclarecimento de crimes
Ao afirmar que “nem 5% dos crimes” são elucidados e que apenas um homicida é punido a cada três mortes, Haddad recorreu a estatísticas antigas e parciais. Estudo usado pela própria campanha de Tarcísio em 2022 apontava 4% de esclarecimento para cinco tipos de delito entre janeiro e outubro de 2018 – recorte que não reflete a totalidade dos registros atuais. Já o Instituto Sou da Paz calcula taxa de 31% de denúncias para homicídios dolosos ocorridos em 2023, sem equivaler isso a punição efetiva. Por isso, a colocação foi tida como imprecisa.
Água, saneamento e consumo
Sabesp no topo das reclamações
Haddad descreveu a companhia de saneamento como “campeã de reclamações” no Procon-SP. Nos chamados dados fundamentados – casos que chegam até a fase final do processo administrativo – a Sabesp liderou o ranking em 2025, com 6.879 queixas. Entretanto, no registro geral a empresa aparece em terceiro lugar, atrás de operadoras de telefonia. Por contemplar só parte do cenário, a crítica foi considerada meia-verdade.

Imagem: Internet
Educação
São Paulo cai para 10º no Ideb
É correta a informação de que o estado aparece agora na décima posição do Ideb 2025 para o ensino médio, nota 4,3. Em 2023, São Paulo dividia o sexto lugar, com 4,2. A queda de quatro posições foi confirmada.
Política e eleições
Oposição só chegou ao segundo turno duas vezes
Desde 1982, apenas em 2002 e 2022 um candidato de fora da base governista estadual avançou ao segundo turno para o Palácio dos Bandeirantes. A cronologia dos pleitos sustenta o argumento.
Doações do Banco Master: acusação parcial
Haddad declarou que “quatro ministros” de Bolsonaro receberam recursos do Master e que o próprio ex-presidente, assim como Tarcísio, teve campanhas financiadas por Daniel Vorcaro. As investigações alcançam três ex-integrantes do primeiro escalão – Ciro Nogueira, Flávia Arruda e Fábio Wajngarten – além de transações indiretas ligadas a Mário Frias. Quanto às campanhas, quem doou foi Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro: R$ 3 milhões para Bolsonaro e R$ 2 milhões para Tarcísio em 2022. O enunciado, portanto, contém mistura de fatos corretos com extrapolações.
Programas sociais
Prouni: três milhões de formados ou prestes a formar
O Ministério da Educação divulga 3,7 milhões de bolsas ocupadas e 1,6 milhão de formados em 21 anos de Prouni. Considerando estudantes em curso e já diplomados, a soma aproxima-se dos “3 milhões” citados por Haddad, o que sustenta a afirmação.
Programa De Braços Abertos e redução do uso de crack
Lançado em 2014, o projeto municipal voltado à cracolândia teve impacto positivo comprovado por estudos independentes. Pesquisa da Plataforma Brasileira de Política de Drogas apontou que mais de 65% dos beneficiários relataram menor consumo da droga, enquanto levantamento da prefeitura em 2016 encontrou índice de 88% para redução drástica. A fala do ex-prefeito foi confirmada.
Balanço das checagens
- Declarações verdadeiras: autoria da Lei das PPPs, manutenção da alíquota do IPVA, queda do Ideb, déficit de 2023, eficiência do De Braços Abertos, alcance do Prouni, histórico de segundos turnos em SP.
- Mentiras ou incorreções: falta de reajuste à Polícia Civil.
- Parcialmente corretas ou imprecisas: ranking da Sabesp, esclarecimento de crimes, doações do Banco Master.
As verificações oferecem um retrato minucioso do debate eleitoral paulista: números citados em entrevistas podem até estar próximos da realidade, mas detalhes metodológicos e cortes temporais fazem diferença crucial entre acerto, exagero ou erro.
