Durante o 11º Fórum CNT de Debates, em Brasília, o pré-candidato à Presidência da República Ronaldo Caiado (PSD) recusou-se a detalhar se é a favor ou contra a Proposta de Emenda à Constituição que pretende abolir a jornada de trabalho 6×1. Para o ex-governador, o texto que avança no Congresso “tem objetivo populista, unicamente voltado a votos” e, por isso, ele não pretende “influenciar” um assunto que considera contaminado pela disputa eleitoral.
Questionado mais de uma vez por jornalistas ao deixar o evento da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Caiado reiterou que a pauta “não pertence ao candidato a presidente” e que só se manifestará quando (e se) assumir o Palácio do Planalto. “Eu não voto, portanto não preciso opinar”, resumiu.
Candidato evita assumir lado e aponta uso político
A cautela de Caiado dominou toda a conversa com a imprensa. Ao ser provocado sobre o eventual impacto da mudança na rotina de trabalhadores, ele desligou o microfone: “Não vou reforçar uma matéria que já nasce com viés eleitoreiro. É só olhar o momento em que ela aparece”. A fala ecoou na plateia composta por empresários do transporte, setor historicamente sensível a alterações na legislação trabalhista.
Aos repórteres, o ruralista reforçou que enxerga “outras medidas de teor igualmente populista” em tramitação no Parlamento. Na avaliação dele, o pacote de propostas que ganham fôlego às vésperas do pleito mira “o eleitorado, não a sustentabilidade econômica”. Ainda assim, não antecipou se vetaria ou sancionaria eventual aprovação da PEC caso chegue à Presidência.
Estratégia de neutralidade
Aliados de Caiado interpretam a postura como tentativa de evitar desgaste simultâneo com empregadores e trabalhadores em pleno início de campanha. Sem se comprometer, ele mantém o discurso de responsabilidade fiscal – base de seu programa – ao mesmo tempo em que evita ser tachado de contrário a benefícios trabalhistas.
O que propõe a PEC que mexe na jornada 6×1
O texto protocolado em maio no Senado quer suprimir da Constituição a possibilidade de empregados trabalharem seis dias consecutivos e folgarem um. Na prática, a mudança exigiria dois dias de descanso a cada ciclo de sete, alterando escalas em segmentos como comércio, saúde, segurança e transporte.
Inicio formal da análise
Apesar de ter chegado à Casa em maio, a PEC só ganhou tração na semana passada, quando o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), confirmou que liberará seu encaminhamento para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). O despacho marca a largada oficial do rito legislativo: relatoria, audiências, votação em comissão e, na sequência, dois turnos no plenário.
Alcolumbre articula, mas cronograma fica para depois das urnas
Em nota divulgada pela assessoria, Alcolumbre classificou como “madura, franca e republicana” a reunião realizada em 12 de agosto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo ele, o entendimento com o Planalto foi necessário “para compreender as prioridades do Governo” e destravar a agenda do Congresso.

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Rito ordinário garantido
Ainda no comunicado, o senador enfatizou que, na condição de chefe do Poder Legislativo, cabe-lhe assegurar “o devido encaminhamento” de todas as matérias, respeitando o papel de cada parlamentar. De acordo com Alcolumbre, temas de “alta complexidade” – categoria em que incluiu a jornada 6×1 – seguirão o trâmite tradicional, com análise aprofundada.
Pausa branca até o segundo turno
Nos corredores do Senado, porém, a aposta predominante é que qualquer deliberação substancial ficará para depois das eleições municipais. Até lá, o Congresso terá apenas mais um esforço concentrado, programado para o início de setembro. Entre líderes, o sentimento é de que mexer na legislação trabalhista durante o calor da campanha pode trazer custos políticos imprevisíveis.
Repercussão nos bastidores
A fala de Caiado correu rapidamente entre parlamentares governistas e de oposição. Senadores próximos ao Palácio do Planalto enxergam na crítica do pré-candidato uma tentativa de se descolar de iniciativas associadas ao governo Lula. Já integrantes da base pessedista minimizam e sustentam que o presidenciável apenas se mantém “coerente” ao evitar promessas antes do diagnóstico completo das contas públicas.
Setor produtivo em alerta
Representantes de confederações empresariais presentes ao evento da CNT avaliaram como “prudente” a neutralidade de Caiado. O receio do grupo é que uma eventual aprovação da PEC aumente custos operacionais, especialmente em atividades que exigem plantão contínuo. Sindicatos de trabalhadores, por sua vez, comemoram a simples admissibilidade da proposta no Senado e veem a declaração do político como “omissão” perante uma demanda histórica.
Próximos passos
Com o despacho já prometido por Alcolumbre, a PEC deve chegar à CCJ nas próximas semanas. A indicação de um relator e a apresentação de parecer abrirão prazo para emendas. Para ser aprovada, a proposta precisa do apoio de três quintos dos senadores em dois turnos, repetindo a exigência depois na Câmara dos Deputados.
Enquanto o calendário legislativo se define, Caiado seguirá pressionado a esclarecer se, afinal, concorda ou não com o fim da jornada 6×1. Por ora, sua campanha aposta no silêncio calculado como antídoto contra rótulos antecipados durante a maratona eleitoral.
