A largada oficial da campanha eleitoral trouxe à tona uma batalha que costuma ficar restrita aos bastidores: a escolha dos números que identificam cada candidato na urna eletrônica. Neste ano, os dois maiores partidos da disputa, PT e PL, protagonizaram embates públicos pelos “números de ouro” 1313 e 22.222, considerados vitais para conquistar a memória do eleitor.
As querelas mobilizaram caciques, foram parar na Justiça e deixaram claro que, embora pareça detalhe, o algarismo que aparece na tela no dia da votação faz parte da estratégia central das siglas. A legislação garante ampla autonomia para que cada partido distribua essa combinação, mas não blinda legendas de crises internas quando interesses colidem.
Por que o número vira peça de campanha
No Brasil, os dois primeiros dígitos do número de urna correspondem à legenda do candidato a presidente: 13 para o PT e 22 para o PL, por exemplo. Nas disputas proporcionais, os concorrentes podem acrescentar até três algarismos à direita. Quanto mais simples ou repetitivo for o resultado, maior a chance de o eleitor se lembrar dele no momento do voto, explicam marqueteiros.
Números emblemáticos como 1313 ou 22.222 carregam ainda a força da marca partidária nacional, fazendo o candidato “andar” no embalo do presidenciável. Por isso, deputados federais, estaduais e distritais disputam, com frequência, essas combinações em convenções que costumam ser tensas.
PT do Rio de Janeiro: 1313 vira centro de acusação de “capitania hereditária”
A queda de braço
No diretório fluminense do PT, a sequência 1313 foi reclamada pelos ex-deputados Lindbergh Farias e Marcelo Freixo, ambos de olho em uma vaga na Câmara Federal. Eles viram a combinação migrar para o novato Diego Quaquá, filho do ex-prefeito de Maricá e integrante da Executiva Nacional petista, Washington Quaquá.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, Lindbergh e Freixo chamaram a decisão de “antidemocrática” e afirmaram que o partido “não é capitania hereditária”. Defenderam que a escolha deveria ocorrer por votação das bases ou por critérios pactuados entre todos os pré-candidatos.
A resposta e o desfecho
Quaquá pai rebateu as críticas, lembrando que já havia usado o 1313 em eleições anteriores e classificando Maricá como “vitrine do melhor que o PT pode oferecer”. Sem novo acordo, prevaleceu sua posição: Diego foi oficializado com o número cobiçado, enquanto Lindbergh e Freixo precisaram registrar combinações diferentes na Justiça Eleitoral.
O episódio expôs fissuras em um momento em que o partido tenta unificar discurso para defender o governo Lula no Congresso. Nos bastidores, dirigentes admitem que as rusgas devem ser contornadas durante a campanha, mas a troca pública de farpas deixou marcas.
PL do Distrito Federal: disputa por 22.222 termina nos tribunais
Pedido de troca e veto da cúpula
No campo bolsonarista, o número 22.222, formado apenas pelo identificador da sigla repetido cinco vezes, tornou-se objeto de litígio entre o deputado distrital Roosevelt Vilela, que busca a reeleição, e Eduardo Torres, irmão da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Vilela, eleito com outra combinação em 2022, solicitou a mudança antecipadamente, alegando que a repetição do 22 fortaleceria sua marca. O diretório regional, porém, optou por ceder o número a Torres, considerado peça-chave para atrair o eleitorado bolsonarista mais fiel.

Imagem: Internet
Decisão do TRE-DF
Incomodado, Vilela acionou o Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal. O colegiado negou o pedido ao lembrar que a preferência prevista na lei existe apenas quando o candidato repete o mesmo número utilizado na eleição anterior para o mesmo cargo, condição que não se aplicava no caso.
O desembargador Néviton Guedes destacou, no voto, que a escolha de números integra a “estratégia política essencial” das legendas e, portanto, cabe exclusivamente a elas. Com isso, Torres permaneceu com 22.222 e Vilela seguiu para a campanha com outro algarismo.
Outros casos envolvendo o PL
Fora de Brasília, a sigla também reservou combinações chamativas a nomes ligados à família Bolsonaro. Em São Paulo, o 2222 para deputado federal ficará com Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente Jair Bolsonaro, após decisão interna que não sofreu contestação pública. A medida reforça a estratégia de associar candidatos regionais à marca política do clã.
O que diz a legislação eleitoral
Regras gerais
- Todo número de urna deve começar pelo algarismo da legenda: 13 para PT, 22 para PL, 15 para MDB e assim por diante.
- Candidatos proporcionais podem acrescentar até três dígitos; para cargos majoritários, vale somente o número do partido.
- As combinações são fixadas nas convenções partidárias estaduais ou municipais, ocasião em que a sigla homologa suas chapas.
Criteriosos de preferência
- Repetição do número: quem usou a mesma combinação na eleição anterior para o mesmo cargo tem prioridade, caso deseje mantê-la.
- Mandato em curso: parlamentares podem pedir outro número, mas não têm garantia de preferência se pretendem mudar.
- Autonomia partidária: na ausência de consenso, a direção decide — e pode até recorrer a sorteio, conforme prevê a legislação.
Na prática, a lei deixa amplo espaço para que lideranças partidárias pesem capital político, laços regionais e estratégias de marketing antes de bater o martelo. Quando há contestação, a Justiça tende a intervir apenas para verificar se as regras formais foram cumpridas, evitando entrar no mérito da vantagem eleitoral.
Impacto eleitoral e lições para 2026
Especialistas lembram que números fortes não garantem vitória, mas simplificam a comunicação em disputas nas quais dezenas de candidatos brigam por atenção. “O eleitor que recebe panfletos de quinze concorrentes tende a gravar melhor um número repetitivo”, resume um consultor ouvido pela reportagem.
Os litígios recentes reforçam a importância de negociações antecipadas dentro dos partidos. Ao centralizar a deliberação nas mãos de poucos dirigentes, siglas correm o risco de esgarçar alianças locais — sobretudo em legendas grandes, que abrigam correntes variadas.
O que observar daqui para frente
Com a campanha nas ruas, os números já estão impressos em material gráfico e registrados na Justiça Eleitoral. Mudanças só ocorreriam em caso de substituição de candidato, cenário improvável a esta altura. Nos comitês de PT e PL, a expectativa é que o tema saia dos holofotes, mas a memória de disputas internas pode reaparecer nas negociações para 2026.
Até lá, permanece a lição: em política, cada dígito conta — e nenhum partido parece disposto a abrir mão de uma sequência capaz de transformar o clique do eleitor em voto.
