A apenas dois dias do início oficial da corrida presidencial, o escritor e psiquiatra Augusto Cury (Avante) promoveu uma guinada na estrutura de comunicação de sua candidatura. Nesta terça-feira (18), o presidenciável anunciou a saída do marqueteiro Leandro Grôppo e a chegada do publicitário Sérgio Lima, profissional que participou, em 2019, do projeto de fundação do partido Aliança pelo Brasil, capitaneado pelo então presidente Jair Bolsonaro.
A mudança, que também atinge as equipes de assessoria de imprensa e mídias digitais, ocorre antes mesmo da estreia do horário eleitoral gratuito em rádio e TV, marcada para o dia 28. Nas ruas e nas redes, a campanha foi liberada no domingo (16), mas o Avante decidiu reconfigurar toda a estratégia já na primeira semana para, segundo nota oficial, “acompanhar o crescimento e a visibilidade nacional do candidato”.
Troca de volante em plena largada
O reposicionamento evidencia um senso de urgência dentro da campanha de Cury. Com 2% das intenções de voto no levantamento Quaest divulgado em 14 de agosto, o candidato precisará ampliar rapidamente sua exposição se pretende transformar o reconhecimento como autor best-seller em capital eleitoral.
A nota divulgada pelo comitê afirma que Sérgio Lima “acompanhou o início da construção do projeto e conhece sua essência”, argumento usado para justificar por que o publicitário assume o posto justamente quando começa a fase mais cara — e visível — da disputa. Embora aliados apontem “ajustes de rota” como motivo principal, a troca indica preocupação com a performance nas primeiras medições de intenção de voto.
Calendário apertado
- 16 de agosto – início oficial da campanha nas ruas e na internet;
- 18 de agosto – anúncio da troca de marqueteiro;
- 28 de agosto – estreia do horário eleitoral gratuito em rádio e televisão.
Nesse intervalo de menos de duas semanas, Lima terá de finalizar jingles, peças para TV, roteiros de rádio e definir o tom da comunicação digital. Grôppo, que vinha coordenando essas frentes, deixa o projeto sem comentar publicamente os motivos.
Quem é Sérgio Lima
Conhecido por sua atuação ao lado de Jair Bolsonaro na tentativa de criação do Aliança pelo Brasil, partido que não saiu do papel, Lima foi responsável pela identidade visual, site e aplicativo do projeto em 2019. Naquele período, descreveu-se ao jornal O Globo como “um publicitário patriota, de família militar”, rejeitando o rótulo de marqueteiro.
No LinkedIn, apresenta-se hoje como “publicitário e consultor político”, além de CEO de duas agências de comunicação, conselheiro de uma empresa de saúde e vice-presidente de Marketing do Vasco da Gama. À época do Aliança, disse ter aceitado o convite por influência do pai, militar da reserva e contemporâneo de Bolsonaro na Academia Militar das Agulhas Negras.
Experiência reutilizada
Embora não tenha conduzido campanhas eleitorais completas, Lima participou de etapas cruciais do processo de criação partidária, acumulando conhecimento em:
- Construção de identidade visual;
- Desenvolvimento de plataformas digitais de mobilização;
- Engajamento de bases alinhadas ao discurso conservador.
Agora, caberá ao publicitário adaptar essas ferramentas ao perfil de Augusto Cury, mais associado a temas de saúde mental, educação emocional e empreendedorismo do que ao debate político tradicional.
Reconfiguração da comunicação do Avante
A entrada de Sérgio Lima não se limita ao comando do marketing. A campanha informou que as equipes de assessoria de imprensa e produção de conteúdo também passam a responder à nova liderança. O objetivo declarado é “alinhar linguagem, identidade e cronograma” num momento considerado decisivo para ampliar o alcance da mensagem do Avante.

Imagem: Internet
Nos bastidores, integrantes do partido reconhecem que a operação se tornou mais complexa após Cury despontar nas pesquisas qualitativas como “candidato alternativa”, categoria que exige maior clareza de posicionamento para não se diluir entre adversários mais conhecidos.
Desafios imediatos
Com o relógio correndo, a cúpula do Avante enumera três prioridades:
- Definir o tom da propaganda televisiva de estreia, explorando a popularidade de Cury como escritor;
- Reorganizar a agenda de viagens para potencializar aparições em mercados eleitorais estratégicos;
- Aprimorar a interação nas redes sociais, área na qual Sérgio Lima coleciona experiência desde o trabalho com apoiadores de Bolsonaro.
Performance nas pesquisas
O levantamento Quaest divulgado em 14 de agosto atribuiu a Augusto Cury 2% das intenções de voto no primeiro turno. Embora discreto, o índice já coloca o escritor acima da margem de erro em alguns cenários, argumento usado pela campanha para justificar investimentos adicionais em comunicação.
Aliados observam que Cury possui um público leitor cativo no país e que a conversão dessa base em votos depende, em boa parte, de uma narrativa capaz de ligar as propostas do autor à realidade política. É nessa lacuna que Lima pretende atuar, segundo fonte da coordenação, ainda que o novo comandante evite autodefinições grandiosas: “Não sou marqueteiro”, reiterou ao ser apresentado ao time, ecoando a declaração que dera em 2019.
Estrutura enxuta
Em comparação com gigantes partidários, o Avante administra uma operação de campanha considerada compacta. Ainda assim, a reformulação de quadros sinaliza disposição para despesas extras, sobretudo no período de veiculação obrigatória. A expectativa é que, sob a batuta de Lima, a comunicação traga elementos visuais modernos, robusteça plataformas digitais e melhore a distribuição de conteúdo nos estados.
Próximos passos
Com menos de dez dias até a propaganda eleitoral no rádio e na TV, a equipe recém-chegada corre para produzir material final. A prioridade recai sobre:
- Jingles que ressaltem a trajetória de Cury como autor de best-sellers sobre inteligência emocional;
- Vídeos curtos para redes sociais, integrados a depoimentos de eleitores identificados com os livros do candidato;
- Peças de rádio que associem a proposta de “educação da emoção” a políticas públicas.
Enquanto ajusta o planejamento, o Avante monitora o desempenho do presidenciável nas próximas sondagens. A avaliação interna é que, se Cury saltar alguns pontos até meados de setembro, a troca de comando na comunicação terá valido a turbulência inicial. Caso contrário, novas mudanças não estão descartadas, embora dirigentes neguem publicamente qualquer plano de contingência.
Por ora, a campanha aposta na experiência de Sérgio Lima em mobilizar seguidores pelas redes e na capacidade de Augusto Cury de dialogar com um eleitorado que se diz “cansado do conflito ideológico”. Se a combinação surtirá efeito nas urnas, o veredicto ficará para outubro. Até lá, a troca de marqueteiro simboliza o esforço do Avante para transformar visibilidade literária em capital político concreto — e para correr contra o tempo em uma disputa cada vez mais acelerada.
