No primeiro grande ato público de Tarcísio de Freitas (Republicanos) rumo à sucessão estadual, realizado neste domingo (16) em Osasco, três pré-candidatos ao Senado que orbitam a base do governador dividiram o mesmo palanque e lançaram mão de slogans que pretendem carregar até outubro de 2026. Embora apenas duas vagas estejam em disputa por São Paulo, André do Prado (PL), Guilherme Derrite (PP) e Geraldo Rufino (Podemos) trocaram elogios, dividiram espaço em vídeos e testaram narrativas que, na prática, os colocarão lado a lado e também uns contra os outros durante a campanha.
A festa, organizada pelo Podemos mas prestigiada por parlamentares de diferentes legendas governistas, funcionou como vitrine coletiva: Prado foi apresentado como o “braço direito” do estado, Derrite vestiu a farda de quem promete “servir e proteger” e Rufino se autodenominou “senador do povo”. Cada rótulo traduz o recado que o trio quer fixar na memória do eleitor paulista — meta que, nesta fase ainda de pré-campanha, passa inevitavelmente por gestos de unidade diante do governador.
Vídeo de Prado reforça papel de aliado fiel
Presidente da Assembleia Legislativa, André do Prado usou a estreia do material de horário eleitoral para contar uma trajetória que começa em Guararema, município onde iniciou a vida pública, e desemboca em Brasília. Com narração em primeira pessoa e cenas desenvolvidas por inteligência artificial, o deputado destaca passagens familiares para reforçar a ideia de confiabilidade: em determinado momento, a mãe, Raquel, relembra que o filho “sempre foi meu braço direito”.
Depois do tom intimista, o vídeo transita para depoimentos políticos encadeados. Vice-presidente nacional do PL, Márcio Alvino puxa a fila que inclui 23 prefeitos, o prefeito paulistano Ricardo Nunes (MDB) e o governador Tarcísio. Valdemar Costa Neto, presidente do partido, encerra a sequência. Cada fala repete a expressão “braço direito de São Paulo”, amarrando o mote que Prado cristaliza nos segundos finais diante do plenário virtual do Senado: “Agora quero ser o braço da direita de São Paulo no Senado Federal”.
Derrite aposta na segurança como cartão de visitas
Ex-secretário da Segurança Pública paulista, o deputado federal Guilherme Derrite concentrou a narrativa na própria carreira nas forças policiais. O vídeo, com locução em off e fotos de arquivo, percorre o ingresso na Academia do Barro Branco, a passagem pela Rota e o período no Corpo de Bombeiros.
Na segunda metade, a produção lembra projetos que o candidato defende em Brasília, como a proibição das saídas temporárias de presos, a desmobilização da cracolândia e o chamado PL Antifacção. Manchetes de jornais e portais reforçam cada ponto. A última frase reaparece como assinatura: “Movido pela maior vocação: servir e proteger”. A peças alinha Derrite a um eleitorado que valoriza a pauta da ordem, ainda relevante em São Paulo e associada ao próprio Tarcísio.
Rufino encarna a ascensão social e o discurso popular
Único entre os três a não exibir vídeo, o empresário Geraldo Rufino ocupou o microfone para repetir, em variações sucessivas, que quer ser “o senador do povo”. Ex-catador de latinhas que construiu um grupo do setor de reciclagem, ele foi celebrado pela presidente nacional do Podemos, Renata Abreu, como símbolo de representatividade negra e de mobilidade social. “Já passou da hora de o Senado ter um negro que represente a população”, disse a deputada, provocando aplausos.
Rufino explorou a metáfora do Senado como “condomínio de luxo” que precisaria abrir vaga para quem conhece as “necessidades reais do povo”. O ex-prefeito de Osasco e atual pré-candidato a deputado estadual, Rogério Lins, reforçou a ideia ao final do evento: “Vem cá, meu senador do povo”. A aposta do Podemos é que a trajetória pessoal do empresário dialogue com setores populares e possa pressionar rivais a se moverem além da pauta de segurança ou da fidelidade a Tarcísio.
Elogios mútuos escondem tensão por espaço na chapa governista
No palco, a cordialidade foi regra. Derrite chamou Prado de “grande presidente da Alesp” e disse esperar vê-lo como “grande senador”. Prado, por sua vez, exaltou Derrite como “batalhador” e elogiou “a história linda de prosperidade” de Rufino. O clima de harmonia cumpre função estratégica: o núcleo político do governador prefere evitar, ao menos publicamente, que a disputa por duas cadeiras vire foco de desavenças dentro da base.

Imagem: Internet
Nos bastidores, porém, a matemática é simples: só dois nomes poderão levar o carimbo de oficial candidatos de Tarcísio. O governador, que ensaia candidatura à reeleição, considera valioso ampliar sua bancada no Senado para fortalecer a relação com o Planalto, seja qual for o ocupante em 2027. Assim, cada movimento de Prado, Derrite e Rufino é observado de lupa pelas cúpulas de PL, PP e Podemos, todos interessados em colar sua marca à imagem do chefe do Executivo paulista.
Reverberação local e nacional
Osasco foi escolhida para o pontapé justamente por concentrar eleitorado numeroso da região metropolitana e por ter rede de prefeitos simpáticos a Tarcísio. A presença de 23 chefes de Executivo municipal no vídeo de Prado, por exemplo, não é coincidência: a montagem sinaliza musculatura política que poderá se converter em palanques regionais para o governador em 2026, quando também estará em jogo a renovação de Assembleias e Câmara dos Deputados.
O PP, que abriga Derrite, avalia que a candidatura ancorada em segurança pública pode suprir um espaço deixado pelo ex-ministro Sergio Moro, cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral, e que também se projetava como voz da lei e ordem. Já o Podemos, reconfigurando-se após a saída de Moro, enxerga em Rufino a chance de dialogar não só com a população de baixa renda, mas com a pauta racial — um tema que ainda encontra pouca ressonância nas fileiras conservadoras paulistas.
Sinais para o eleitorado paulista
- André do Prado centra discurso na lealdade a Tarcísio e no enraizamento municipalista que construiu nos últimos anos na Alesp.
- Guilherme Derrite vincula seu currículo militar à redução de indicadores criminais e à agenda de endurecimento penal discutida em Brasília.
- Geraldo Rufino aposta na biografia de superação e no argumento de que falta “gente comum” no Senado para fiscalizar o Executivo.
Próximos passos da pré-campanha
Até o período oficial de convenções, em meados do ano eleitoral, os pré-candidatos devem percorrer diferentes regiões do estado em eventos semelhantes, ora juntos, ora separados. A coordenação política de Tarcísio avalia que a exposição compartilhada serve para medir a temperatura entre apoiadores, testar a aceitabilidade dos slogans e evitar rachas prematuros.
A definição de quem receberá o selo de candidato “de Tarcísio” deve passar por pesquisas internas e acordos interestaduais dos partidos, que miram composições para a Presidência do Senado. Por enquanto, a estratégia é manter os três sob o mesmo guarda-chuva, ocupando nichos distintos do eleitorado conservador paulista e, ao mesmo tempo, minando a visibilidade de eventuais adversários ligados à esquerda ou ao centro independente.
O que está em jogo
- Duas cadeiras paulistas no Senado — mandato de oito anos, crucial para compor maioria em votações de interesse do próximo governo federal.
- A força de coalizões partidárias em torno de Tarcísio, apontado como potencial presidenciável em 2030.
- A sobrevivência e expansão de PL, PP e Podemos, que veem no pleito um laboratório para medir força eleitoral em 2028 (prefeituras) e além.
Até lá, o eleitor de São Paulo assistirá à disputa retórica entre o “braço direito”, o defensor de “servir e proteger” e o autodeclarado “senador do povo”. Todos sob o mesmo palanque — e, inevitavelmente, na mesma arena de disputa.
