Partidos correm contra o tempo para driblar cláusula de barreira e reduzem número de candidaturas nas eleições de 2026

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    Mesmo com o menor volume de candidatos desde 2006, a corrida eleitoral de 2026 produziu um paradoxo: legendas grandes e nanicas ampliaram o número de nomes estratégicos para a Câmara e para o Senado a fim de garantir sobrevivência institucional e espaço nas chapas estaduais. Ao todo, 7.991 pessoas disputam 513 cadeiras na Câmara dos Deputados e 54 no Senado, uma queda de 26,5% em relação a 2022, mas ainda concentrada em poucas siglas.

    O PL encabeça a lista com 535 pretendentes a deputado federal e 33 a senador, seguido de perto pelo Novo, que, apesar de ter apenas seis parlamentares hoje, lançou 505 nomes à Câmara. Nos bastidores, a cláusula de barreira e a montagem de chapas para governos estaduais explicam a enxurrada de inscrições em algumas agremiações e a retração em outras.

    Corrida à Câmara: sobrevivência partidária em jogo

    Dos quase oito mil postulantes ao Congresso, 2,7 mil vêm de siglas rotuladas como Centrão, como MDB e Republicanos, cada uma com quase 500 candidatos. O esforço visa garantir voto suficiente para manter acesso ao Fundo Partidário e ao tempo de TV, benefícios atrelados ao desempenho eleitoral.

    O peso da cláusula de desempenho

    Para continuar recebendo recursos públicos, cada partido precisa eleger pelo menos 11 deputados distribuídos em nove estados ou obter 2% dos votos válidos para a Câmara em nove unidades da Federação, com no mínimo 1% em cada uma. A regra, mais rígida nesta eleição, transformou cada candidatura em ativo precioso. “Sem votos espalhados, a sigla desaparece do mapa institucional”, resume o cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB).

    Essa pressão explica por que partidos com bancadas diminutas arriscaram um exército de nomes. Entre os que mais apostaram na multiplicação de candidatos estão:

    • Novo: 505
    • PDT: 471
    • Avante: 419
    • Democracia Cristã (DC): 342
    • Missão: 333
    • Psol: 308
    • Solidariedade: 265
    • PRD: 212
    • Democrata: 147
    • Mobiliza: 120
    • Rede: 113
    • Agir: 103

    Quando quantidade não vira qualidade

    Todos esses números, porém, não se convertem necessariamente em cadeiras. A meta principal é bater o percentual exigido de votos, mesmo que poucos nomes sejam eleitos. Funciona como um seguro para que a legenda mantenha personalidade jurídica robusta, negociação no Congresso e direito a comunicação em massa.

    Disputa pelo Senado vira peça de composição estadual

    Diferentemente da Câmara, a batalha por uma das duas vagas em jogo no Senado por estado tem lógica própria. Pequenas legendas lançaram candidatos sobretudo para completar a chapa de seus concorrentes aos governos estaduais, requisito que fortalece a campanha majoritária e garante palanque.

    Nanicos marcam presença

    A Unidade Popular (UP) surpreendeu ao registrar 23 nomes ao Senado, somente atrás do PL. O Psol vem logo depois, com 21. DC e PSTU também figuram entre os que mais apresentaram candidaturas, apesar da estrutura financeira limitada. Na prática, essas siglas buscam visibilidade regional e fortalecimento de suas marcas, ainda que a chance de vitória seja restrita.

    Estrategistas do PL

    Já o PL mira outro objetivo: formar uma bancada robusta para pautas conservadoras, inclusive eventuais pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. A sigla de Jair Bolsonaro sentiu falta de alianças sólidas em várias unidades da Federação e, para proteger seu eleitorado, multiplicou candidaturas próprias. O contraste é visível em São Paulo, onde o PT abriu mão de nomes para apoiar aliados, enquanto o PL bancou postulantes para marcar território.

    Número de candidaturas cai ao menor patamar em 20 anos

    Apesar das estratégias inflacionarem algumas legendas, a soma geral de candidatos recuou pela primeira vez em duas décadas. Os 20.621 registros para todos os cargos este ano são o menor total desde 2006. Três fatores principais explicam a retração.

    Federações enxugam a disputa

    As federações partidárias reuniram legendas que antes concorriam individualmente. Hoje existem cinco alianças formais: União Brasil–PP; PT–PCdoB–PV; PRD–Solidariedade; PSDB–Cidadania; e Psol–Rede. Ao pactuar candidaturas únicas em cada estado, esses blocos reduziram a duplicidade de nomes e tornaram o processo seletivo interno mais severo.

    Limite de vagas por partido voltou a valer

    A legislação retomou a regra que permite inscrever apenas até 100% das vagas em disputa na Câmara, mais uma candidatura extra. Isso impediu a proliferação quase infinita registrada em pleitos anteriores, quando siglas lançavam aspirantes para ocupar cada centímetro de tempo gratuito na mídia.

    Cota feminina continua desafio

    Por lei, 30% dos registros precisam ser de mulheres. A dificuldade histórica de atrair filiadas fez muitos partidos desistirem de inflar suas listas para não infringir a norma. “Formação política feminina ainda recebe poucos incentivos; a busca por nomes ocorre em cima da hora”, alerta Medeiros.

    Com menos candidaturas, maior concentração em alguns partidos e novas amarras legais, as eleições legislativas de 2026 servirão de teste decisivo para a viabilidade de dezenas de legendas brasileiras. Quem não ultrapassar a cláusula de barreira pode perder recursos, visibilidade e, no limite, relevância no xadrez político a partir de 2027.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.