STJ julga nesta quinta possível demissão de Marco Buzzi por assédio sexual

    0

    O plenário do Superior Tribunal de Justiça (STJ) vai decidir nesta quinta-feira (6) se o ministro Marco Buzzi sofrerá a punição máxima por duas acusações de assédio sexual e uma de injúria. A sessão é histórica: caso a maioria considere as denúncias procedentes, o tribunal poderá, pela primeira vez, optar pela demissão de um integrante da própria corte.

    A Procuradoria-Geral da República (PGR) recomenda a aposentadoria compulsória, punição tradicional entre magistrados. No entanto, um recente entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) põe em xeque esse caminho, abrindo espaço para a demissão sem vencimentos. A escolha do STJ, portanto, terá repercussão direta no futuro disciplinar da magistratura.

    Julgamento inédito e impasse sobre a pena

    Instalado em 1989, o STJ nunca precisou deliberar entre aposentar ou demitir um de seus membros. Até agora, a punição mais rigorosa aplicada a ministros de tribunais superiores era a aposentadoria compulsória remunerada, vista por críticos como uma “aposentadoria-prêmio”.

    Em 2024, porém, a Primeira Turma do STF concluiu que a reforma da Previdência de 2019 extinguiu a aposentadoria remunerada como sanção disciplinar. Embora a decisão não tenha efeito vinculante, sinaliza que a demissão passou a ser juridicamente viável. O STJ terá de escolher entre acatar esse novo entendimento ou seguir o parecer da PGR, que considera a aposentadoria ainda válida.

    Como será a votação

    • Os 33 ministros que compõem o plenário podem votar.
    • Para aplicar qualquer punição, é necessária maioria simples.
    • Se prevalecer a demissão, Buzzi perde o cargo sem direito a salário proporcional.
    • Se o tribunal optar pela aposentadoria, ele recebe proventos calculados pelo tempo de serviço.

    Denúncias que levaram ao processo

    O processo disciplinar contra Marco Buzzi foi aberto em 10 de fevereiro, quando ele já foi afastado cautelarmente. O inquérito reúne denúncias de duas mulheres:

    1. Jovem de 18 anos – Passou as férias de janeiro de 2026 na residência do ministro em Santa Catarina e relatou toque não consentido dentro do mar.
    2. Ex-funcionária do gabinete – Afirma que, entre 2023 e 2025, Buzzi tocou seu corpo sem permissão, fez comentários sobre aparência física, mostrou conteúdo de teor sexual em celular e a ofendeu no ambiente de trabalho.

    Para a PGR, os depoimentos, somados a testemunhos de colegas e funcionários, comprovam “contato físico não consentido” e “conduta potencialmente intimidatória”. Em parecer com mais de 50 páginas, o órgão concluiu existir “autoria e materialidade das infrações funcionais”.

    Investigação interna

    Durante a apuração, o STJ colheu declarações de servidores, analisou mensagens trocadas por telefone e ouviu as vítimas em audiências reservadas. Um funcionário de confiança de Buzzi afirmou que a ex-assistente buscou ajuda no gabinete logo após um dos episódios.

    Linha de defesa do ministro

    Os advogados de Marco Buzzi negam todas as acusações e sustentam que ele é alvo de “conluio” movido por intrigas internas. Em petição final, a defesa chama os relatos de “disse-me-disse” e questiona a consistência das provas, alegando que o caso se baseia em rumores de corredores.

    Entre os argumentos apresentados está um laudo médico que atestaria disfunção erétil, usado para contestar a possibilidade de abordagem sexual. Os defensores também apontam supostas contradições nos depoimentos das vítimas e criticam o fato de a investigação ter começado apenas com declarações, sem flagrante ou registro policial contemporâneo aos fatos.

    Possíveis recursos

    Caso seja punido, Buzzi poderá recorrer ao próprio STJ por embargos e, em seguida, ao Supremo Tribunal Federal. Se a demissão for a escolha, a controvérsia sobre a extinção da aposentadoria compulsória poderá voltar ao plenário do STF.

    Precedentes na corte

    Em 35 anos de existência, apenas dois ministros do STJ enfrentaram processos disciplinares graves:

    • Vicente Leal – Afastado em 2004 sob suspeita de vender habeas corpus a traficantes, decidiu pedir aposentadoria antes do julgamento.
    • Paulo Medina – Foi aposentado compulsoriamente pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em 2010, acusado de favorecer empresas de caça-níqueis.

    Ao contrário desses casos, em que a aposentadoria remunerada encerrou a punição, o julgamento de Buzzi ocorre em cenário jurídico diferente, após a reforma da Previdência. Se o STJ adotar a demissão, estabelecerá um novo parâmetro de responsabilização de magistrados.

    O futuro de Marco Buzzi e do próprio STJ

    Marco Buzzi, de 61 anos, integra o tribunal desde 2011 e é oriundo do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Seu afastamento interrompeu a participação nas turmas de Direito Público, sobrecarregando outros gabinetes. A solução disciplinar impactará não só a carreira do ministro, mas também a imagem do STJ, que enfrenta crescente cobrança por transparência.

    Se for absolvido, Buzzi retorna às atividades imediatamente. Caso receba aposentadoria, passa a receber proventos proporcionais e abre vaga na corte, que deverá ser preenchida por indicação presidencial e sabatina do Senado. Já a demissão, além de deixar o cargo vago, reforçaria o entendimento de que a carreira de juiz não garante blindagem diante de faltas graves.

    Próximos passos

    A sessão desta quinta-feira ocorrerá de forma presencial. Após a leitura do relatório e da defesa oral, os ministros votarão em ordem inversa de antiguidade, encerrando com a presidente Maria Thereza de Assis Moura. O resultado será proclamado no mesmo dia, salvo pedido de vista que possa adiar o desfecho.

    Independentemente da decisão, a expectativa é de que o julgamento de Marco Buzzi redefina as fronteiras entre independência judicial e responsabilidade ética no topo do Judiciário brasileiro.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.