O PSD transformou a sede paulista do partido em palco para oficializar, na manhã de 26 de julho, a candidatura de Ronaldo Caiado à Presidência da República em 2026. A convenção também sacramentou o ex-ministro e presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab, como companheiro de chapa.
Diante de militantes vindos de vários estados, o ex-governador de Goiás adotou tom de campanha aberta: atacou a polarização que, segundo ele, “aprisiona o eleitor”, prometeu um modelo de segurança pública de “tolerância zero” e convocou aliados a garantir bancada numerosa no Congresso para sustentar o projeto.
Chapa fechada: Caiado presidente, Kassab vice
A convenção nacional foi conduzida por Kassab, que abriu a cerimônia destacando a “autonomia” do PSD para lançar candidato próprio. A decisão foi aprovada por aclamação dos delegados. Ao justificar a indicação do goiano, o dirigente afirmou que Caiado “traz experiência de 40 anos de vida pública e resultados comprovados no Executivo estadual”.
O encontro reuniu cerca de 1,5 mil filiados, entre eles os governadores Ratinho Junior (Paraná) e Eduardo Leite (Rio Grande do Sul), além de prefeitos, parlamentares e pré-candidatos do partido. Todos foram conclamados a integrar a coordenação política que passa a percorrer o país ainda no segundo semestre.
Estratégia fora da polarização
Ao assumir o microfone, Caiado sustentou que há espaço para uma alternativa “nem Lula nem o adversário que o PT deseja”. Segundo ele, as eleições têm sido definidas pela rejeição, e não pela “capacidade de entregar resultados”. O goiano citou seu último mandato: “Cheguei com 52 % dos votos, saí com 88 % de aprovação”. Alega que tal índice lhe dá credibilidade para falar em gestão pública eficiente.
Principais eixos do discurso
1. Segurança pública e combate ao crime
- Prometeu “tolerância zero” a organizações criminosas, repetindo o bordão “bandido não se cria” usado em Goiás.
- Anunciou que, se eleito, o agressor condenado por violência contra a mulher terá bens confiscados e transferidos à vítima, além de cumprir “90 % da pena” sem benefícios.
- Citou exemplo das penitenciárias goianas, que, de acordo com ele, passaram a ser “100 % monitoradas, sem visitas íntimas e sem comando faccionado”.
2. Combate à corrupção
Caiado afirmou nunca ter sido citado em “mensalão, petrolão nem escândalos de rachadinha”. Disse que “PT e narcotráfico são irmãos siameses” e que, eleito, irá “desenrolar o Brasil da corrupção instalada”. Criticou a política de renegociação de dívidas via FGTS, classificando-a como “cortesia com o chapéu alheio”.
3. Agenda social e econômica
- Destacou redução da pobreza extrema em Goiás, onde afirma ter retirado “620 mil pessoas da miséria” entre 2019 e 2026.
- Defendeu educação em tempo integral, material didático completo e merenda reforçada para “frear evasão escolar e impedir recrutamento de jovens pelo crime”.
- Perguntou “por que o Brasil, maior produtor de alimentos e detentor das maiores reservas de água doce, continua endividado?”, prometendo reforma tributária focada na competitividade do agronegócio e da indústria.
Convocação de aliados e recados a adversários
O presidenciável dedicou parte do discurso a pedir engajamento de prefeitos, vereadores e lideranças locais. “Sem base no Congresso não há mudança duradoura”, disse, antes de exigir que correligionários priorizem candidaturas “que não carreguem rabo preso”.
Sob aplausos, desafiou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a participar de debate marcado para 16 de setembro. “Estou te esperando, Lula. Não foge”, ironizou, acusando o petista de “empobrecer o país” durante duas décadas de influência política. Também provocou o ex-chefe do Executivo anterior, embora sem citar nome, mencionando “candidato criado em laboratório, o ‘Kinder Ovo’ que traz surpresinha todo dia”.
“Galo de terreiro” x “frango de granja”
Em metáfora que animou a plateia, o ex-senador se comparou a um “galo de terreiro, acostumado à briga”, contrapondo-se a oponentes que chamou de “frango de granja, que recorre ao pai para tudo”. Para a militância, o recado foi claro: a campanha adotará linguagem direta, apostando na biografia do agropecuarista que ingressou na política pelas mãos do movimento ruralista.

Imagem: Internet
Próximos passos da campanha
A partir de agosto, a coordenação nacional pretende visitar capitais e cidades-pólo em todos os estados. A equipe de comunicação do PSD afirma que o programa de governo será apresentado em três etapas: segurança, emprego e serviços essenciais. Cada eixo ganhará um “encontro temático” transmitido pelas redes sociais do partido.
Segundo auxiliares, a campanha mira eleitores que rejeitam a atual polarização mas ainda não escolheram candidato. Pesquisas internas teriam identificado “espaço de até 35 % do eleitorado” disposto a migrar. A estratégia passa por exibir Goiás como vitrine: contas equilibradas, obra de infraestrutura concluída e indicadores de segurança em queda.
Repercussão entre lideranças
Governador em exercício de Goiás, Daniel Vilela disse que vai “entrar em campo” para eleger o correligionário no primeiro turno. Ratinho Junior afirmou que o perfil de Caiado dialoga com o Centro-Oeste e o Sul, regiões onde o PSD tem musculatura. Já Eduardo Leite elogiou a “defesa do equilíbrio fiscal sem descuidar da área social”.
Nos bastidores, integrantes de outras siglas de centro avaliaram que a candidatura pode funcionar como elemento de negociação de alianças no segundo turno. Se chegar à etapa final, contudo, a chapa Caiado-Kassab torna-se a primeira de porte nacional liderada por um partido fora do eixo PT-PL desde 2014.
Desafio das intenções de voto
Ao final da fala, o candidato reconheceu que ainda está abaixo de 10 % na maioria dos levantamentos, mas minimizou o número: “Quem está montado não precisa de espora; precisa do voto independente”. Para ele, a construção de um “segundo turno sem Lula ou sem o adversário escolhido pelo PT” depende de uma “onda de confiança” comparável à que o levou ao Palácio das Esmeraldas em 2018.
Com a convenção encerrada, Caiado deixou o palco ao lado de Kassab sob gritos de “Caiado presidente” e ao som do jingle recém-lançado pelo PSD. A campanha começa oficialmente em agosto, mas a disputa para quebrar a polarização já está nas ruas.
