O governo do Paraguai convocou o embaixador brasileiro em Assunção, José Marcondes, para receber uma nota diplomática de “absoluto repúdio” às declarações feitas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a Guerra da Tríplice Aliança. No documento, entregue pelo vice-presidente Pedro Alliana e pelo chanceler Rubén Ramírez Lezcano, o país vizinho também reivindica a devolução de dois canhões – “Presidente López” e “Cristiano” – além de outros troféus e documentos capturados pelo Exército brasileiro no século XIX.
O gesto eleva a temperatura na relação bilateral poucos dias depois de Lula, em evento público em Jacareí (SP), citar a Guerra do Paraguai como exemplo da necessidade de manter investimentos em defesa. Para Assunção, o discurso distorceu fatos históricos “de singular relevância” e reabriu feridas que, segundo o vice-presidente paraguaio, só poderão ser cicatrizadas com gestos concretos de reparação.
Origem do atrito
O discurso em Jacareí
No dia 24 de julho, Lula tratava de orçamento militar quando mencionou o conflito travado entre 1864 e 1870 por Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai. Disse que o país “gosta de paz, mas não pode esquecer-se da Guerra do Paraguai”, frase que, segundo auxiliares, buscava ressaltar como a preparação bélica serve para desestimular agressões externas. O trecho, porém, repercutiu de forma negativa em Assunção, que o entendeu como evocação ofensiva de uma página traumática.
A chancelaria paraguaia reagiu afirmando que o comentário apresenta “de maneira distorcida” um capítulo doloroso para a nação guarani, ainda marcado por perdas demográficas, territoriais e culturais. Foi então decidido convocar o representante brasileiro para prestar esclarecimentos e receber o protesto formal.
Reação oficial de Assunção
Durante a reunião desta sexta-feira (31), realizada na sede do Ministério das Relações Exteriores paraguaio, Alliana e Ramírez Lezcano entregaram a carta de repúdio. O texto frisa que Brasil e Paraguai são países “irmãos” e que, justamente por isso, episódios do passado devem ser tratados com “responsabilidade, respeito recíproco e espírito de reconciliação”.
Pedidos apresentados
- Devolução do canhão “Presidente López”.
- Devolução do canhão “Cristiano”.
- Restituição de outros troféus de guerra mantidos em museus ou arsenais brasileiros.
- Retorno de documentos oficiais levados pelas forças brasileiras entre 1864 e 1870.
Segundo o vice-presidente paraguaio, esses itens “pertencem à memória nacional” e sua repatriação serviria para “encerrar definitivamente” o litígio simbólico entre os dois países.
Resposta da diplomacia brasileira
Fontes do Itamaraty informaram que o embaixador Marcondes explicou o contexto do discurso, ressaltando que Lula pretendia exaltar a amizade regional, não ofender o Paraguai. Ele lembrou cooperações recentes, como a construção da segunda ponte sobre o rio Paraná e os acordos em torno da usina de Itaipu, enfatizando que os mandatos de Lula sempre priorizaram a integração sul-americana.
Embora tenha reconhecido a sensibilidade do tema, o diplomata evitou prometer a devolução imediata das peças, alegando que qualquer decisão depende de avaliação jurídica e política em Brasília. Internamente, o Itamaraty avalia formas de atenuar o impasse sem abrir precedente para outras reclamações patrimoniais de conflitos históricos.

Imagem: Internet
Guerra do Paraguai, ferida histórica
Considerada o maior confronto da história sul-americana, a Guerra da Tríplice Aliança resultou na morte de grande parte da população paraguaia e na perda de extensões territoriais para os vencedores. Os canhões agora reivindicados foram capturados ao fim da campanha e, desde então, expostos em museus militares brasileiros como “troféus” da vitória.
Para o Paraguai, esses objetos personificam uma memória de destruição que ainda impacta a identidade nacional. Historiadores paraguaios argumentam que a devolução teria valor simbólico comparável ao retorno de obras de arte saqueadas em guerras europeias. No Brasil, pesquisadores divergem: parte apoia o gesto como forma de reparação; outra sustenta que a incorporação dos artefatos tornou-se parte da própria história brasileira e da narrativa de construção do Estado moderno.
Mesmo após 150 anos, a guerra segue sendo tema sensível. A diplomacia paraguaia costuma recordar que a assinatura do tratado de paz só ocorreu em 1876, quando o país estava devastado e com a população masculina drasticamente reduzida. Já a historiografia brasileira tende a enfatizar o papel do conflito na profissionalização do Exército Imperial e na afirmação do poder central do Império.
Analistas avaliam que, apesar do tom duro da nota, Assunção não pretende transformar o episódio em crise prolongada. A relação bilateral é considerada estratégica, sobretudo pela gestão compartilhada de Itaipu e pelo comércio em fronteiras altamente dinâmicas. Nos bastidores, diplomatas paraguaios admitem que o objetivo principal é obter um gesto simbólico que reforce, perante a opinião pública local, a capacidade do governo de defender o patrimônio histórico do país.
Em Brasília, interlocutores do Palácio do Planalto afirmam que Lula não deverá se retratar publicamente, mas estuda mencionar o episódio em futura visita oficial ou reunião multilateral, reafirmando respeito à memória paraguaia. Quanto à devolução dos canhões, a tendência é abrir negociação técnica, possivelmente envolvendo museus e universidades dos dois países, sem prazo definido.
Até lá, os canhões “Presidente López” e “Cristiano” permanecem em solo brasileiro, enquanto Assunção aguarda um desfecho que, nas palavras de seu vice-presidente, permita “transformar lembranças de guerra em sinais de amizade definitiva”.
