O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kássio Nunes Marques, fez nesta segunda-feira (3) a defesa mais enfática das urnas eletrônicas desde que assumiu o comando da Corte. Pressionado por colegas do Supremo Tribunal Federal a reagir aos novos ataques da família Bolsonaro, ele afirmou que o sistema de votação é “patrimônio da democracia brasileira” e garantiu que a Justiça Eleitoral está de portas abertas para quem quiser fiscalizar cada etapa do processo.
O pronunciamento marcou a abertura da Semana Nacional do Sistema Eletrônico de Votação, conjunto de ações práticas que, segundo o ministro, mostrará ao público a “robustez, auditorabilidade e evolução tecnológica” das urnas. A iniciativa surge um mês depois de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) repetir acusações já desmentidas pelo TSE sobre supostas fraudes e vínculos do equipamento com a empresa venezuelana Smartmatic.
Defesa pública após cobrança do STF
A fala de Nunes Marques foi interpretada como resposta direta aos colegas do STF que, nos bastidores, reclamavam da falta de uma postura mais firme contra os questionamentos feitos por integrantes do PL. Ministros da Corte alegavam que o silêncio poderia encorajar novos ataques e criar insegurança em relação às eleições de outubro. O presidente do TSE não citou os interlocutores, mas ressaltou que “transparência não é apenas um compromisso; é um dos pilares sobre os quais se sustenta a confiança da sociedade nas eleições brasileiras”.
Ao classificar a urna como patrimônio público, o magistrado reforçou a linha histórica defendida pela Justiça Eleitoral: em quase três décadas de uso, não há registro comprovado de fraude, ponto repetido pelas equipes técnicas do tribunal sempre que surgem suspeitas.
Semana Nacional do Sistema Eletrônico de Votação
A agenda divulgada pelo TSE prevê demonstrações diárias do equipamento, visitas guiadas, atividades educativas e abertura dos laboratórios de testes a especialistas independentes. Logo após o pronunciamento, estudantes do ensino médio do Distrito Federal acompanharam a primeira abertura oficial da urna, onde técnicos explicaram detalhes de hardware, software, lacres de segurança e protocolos de auditoria.
Os 27 Tribunais Regionais Eleitorais replicarão o roteiro até o fim da semana, permitindo que cidadãos, partidos, entidades fiscalizadoras e a imprensa acompanhem, por dentro, o fluxo que vai desde a geração das mídias de votação até a totalização dos votos. Segundo Nunes Marques, a meta é “ampliar o conhecimento da sociedade acerca das diversas etapas do processo eleitoral” e reforçar a confiança num momento politicamente sensível.
Visitas e testes abertos
- Demonstrações públicas de votação simulada;
- Exibição do código-fonte a universidades e especialistas;
- Palestras sobre o histórico de evolução tecnológica do sistema;
- Sessões de perguntas e respostas com equipes técnicas do TSE e dos TREs.
Críticas de Flávio Bolsonaro e resposta do TSE
O pano de fundo da mobilização é o discurso feito por Flávio Bolsonaro, em 25 de julho, durante reunião com diplomatas estrangeiros. Na ocasião, o senador afirmou que as urnas brasileiras teriam “a mesma origem” das máquinas da Smartmatic e citou, sem apresentar documento, suposto relatório da CIA sobre fraudes na eleição venezuelana de 2012. De lá para cá, a fala repercutiu em redes sociais e alimentou teorias de conspiração.
Horas depois do encontro, o TSE publicou nota reafirmando que nenhuma urna utilizada no país é fornecida pela empresa mencionada. O comunicado, originalmente de 2020 e atualizado em 8 de julho de 2026, lembra que o tribunal coordena toda a cadeia produtiva: especifica componentes, audita fornecedores e supervisiona a montagem final em território nacional.
No último domingo, entretanto, o próprio Flávio declarou que aceitará o resultado das urnas e que confia na imparcialidade do TSE. Mesmo assim, a área técnica da Justiça Eleitoral decidiu antecipar a agenda de demonstrações — agora convertida em evento nacional — para dissipar dúvidas remanescentes.

Imagem: Internet
Transparência como antídoto
Nunes Marques frisou que o ambiente de fiscalização não se restringe às atividades da semana temática. Ao longo de todo o ciclo eleitoral, partidos políticos, Ministério Público, Ordem dos Advogados do Brasil, universidades e entidades internacionais têm direito a acompanhar auditorias, testes de integridade e cerimônias de lacração. “As portas da Justiça Eleitoral permanecem abertas”, reforçou.
Ele destacou também que qualquer cidadão pode se inscrever para observar algumas etapas, desde que obedecidas as regras de segurança estabelecidas pelo tribunal. O ministro entende que a participação popular não apenas amplia o controle social, mas serve de contraponto a discursos sem comprovação técnica.
Histórico sem fraudes comprovadas
O presidente do TSE citou dados oficiais que apontam trinta anos de eleições eletrônicas sem registro de fraude confirmada. Esse histórico, argumentou, deve ser comemorado e defendido como política de Estado, independentemente de governos ou orientações partidárias.
Na avaliação de magistrados consultados reservadamente, a manifestação pública de Nunes Marques tende a pacificar, ao menos em parte, as tensões entre STF, TSE e ala bolsonarista do Congresso. A Corte quer evitar a repetição do clima de insegurança que marcou pleitos anteriores, quando suspeitas sobre o sistema foram usadas para contestar resultados.
Próximos passos
Encerrada a Semana Nacional, o TSE pretende consolidar todo o material didático e as respostas às principais dúvidas em um repositório acessível no próprio portal do tribunal. Os testes públicos de segurança, previstos no calendário oficial, seguem confirmados para o segundo semestre, e os resultados serão divulgados em tempo real aos interessados.
Até lá, a cúpula da Justiça Eleitoral aposta no tripé democracia, transparência e participação para blindar as eleições de outubro contra novas investidas. Como sintetizou Nunes Marques, “confiança se constrói com informação qualificada e fiscalização permanente”.
