O plano de Flávio Bolsonaro (PL) de apresentar a senadora Tereza Cristina (PP-MS) como sua companheira de chapa emperrou na reta final. A Executiva Nacional do Progressistas decidiu permanecer neutra na disputa presidencial e, com isso, inviabilizou oficialmente a indicação da ex-ministra da Agricultura, tida pelo candidato como “o sonho de consumo” para a vice-presidência.
Faltando menos de uma semana para o encerramento do prazo de registro no Tribunal Superior Eleitoral, Flávio agradeceu publicamente a disposição da senadora, afirmou estar “muito honrado” e deixou espaço para uma reviravolta: “Até o dia 5 tudo pode acontecer”. Embora fora da chapa por ora, Tereza Cristina seguirá participando dos eventos de campanha na capital federal.
Por que Tereza Cristina era a favorita
A busca pelo nome da sul-mato-grossense de 72 anos combinava três cálculos essenciais. Primeiro, o peso dela no agronegócio: poucas figuras no Congresso têm tanta capilaridade junto a produtores, cooperativas e exportadores. Segundo, a condição de ponte entre o bolsonarismo e o chamado Centrão, já que a senadora é filiada ao PP, legenda presidida por Ciro Nogueira. Por fim, a variável de gênero: pesquisas internas indicaram dificuldade de Flávio Bolsonaro em avançar sobre o eleitorado feminino, e uma vice mulher, com perfil técnico e discurso moderado, era vista como antídoto.
Força no setor que paga a conta
Nascida em Campo Grande em 1954, quando a região ainda integrava o antigo Mato Grosso, Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias formou-se engenheira agrônoma na Universidade Federal de Viçosa (MG). Voltou ao Centro-Oeste para tocar empreendimentos rurais e, entre 2007 e 2014, chefiou a Secretaria estadual de Desenvolvimento Agrário, Produção, Indústria, Comércio e Turismo no governo de André Puccinelli (MDB). No cargo, ganhou reconhecimento por programas de incentivo à pecuária de corte e à agricultura irrigada que impulsionaram o PIB sul-mato-grossense.
Em 2014, elegeu-se deputada federal pelo PSB. Quatro anos depois, já no DEM, foi reconduzida à Câmara e assumiu a presidência da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), bloco suprapartidário que reúne mais de 200 parlamentares e funciona como linha de frente do agronegócio em Brasília. Sob sua liderança foi aprovado o projeto que flexibilizou o registro de defensivos agrícolas — iniciativa aplaudida por produtores e criticada por ambientalistas.
Da bancada ruralista ao Palácio do Planalto
O salto nacional veio em 2019, quando Jair Bolsonaro a nomeou ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. No posto, Tereza Cristina comemorou recordes sucessivos nas exportações do setor, que responderam por boa parte do superávit comercial brasileiro durante a pandemia. Ao mesmo tempo, enfrentou desgaste com o ritmo acelerado de liberação de novos agrotóxicos: 562 apenas no primeiro ano de gestão.
Mesmo pressionada por setores ambientalistas, manteve apoio firme de entidades como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB). Em 2022 deixou o ministério para disputar o Senado por Mato Grosso do Sul e saiu das urnas com 61% dos votos válidos — maior marca já registrada no estado.
A encruzilhada partidária
Embora o entrosamento político entre Flávio e Tereza Cristina nunca tenha sido um obstáculo, a decisão final cabia ao Progressistas. Dirigentes do partido passaram meses divididos entre aderir formalmente à campanha bolsonarista ou liberar seus quadros. Na quarta-feira, em reunião reservada, prevaleceu a proposta de neutralidade, apresentada por governadores que buscam alianças regionais heterogêneas e temem retaliações de outras siglas.
Sem o carimbo da legenda, Tereza Cristina comunicou que não poderia prosseguir como vice, evitando conflito interno. A repercussão foi imediata: setores do agronegócio pressionaram o PP a rever a posição, alegando que deixar a senadora fora da chapa seria “um desperdício” de capital político. A executiva, entretanto, sustentou a postura de independência.
Relação intacta com o candidato
Apesar do veto partidário, Flávio Bolsonaro insistiu no caráter “provisório” do impasse. Em entrevista após evento no Parque de Exposições Granja do Torto, em Brasília, ele afirmou ter conversado com a senadora horas antes. “A gente vai continuar junto na estrada”, disse, citando agendas conjuntas no interior de Goiás e em Rondonópolis (MT) já programadas.

Imagem: Andressa Anholete
Tereza Cristina, por sua vez, manteve o tom diplomático que a caracteriza. Sem mencionar diretamente a vice-presidência, reforçou que seguirá “trabalhando pelo Brasil que produz” e que considera o diálogo com todos os campos políticos “fundamental para a estabilidade”. Nos bastidores, aliados dizem que ela prefere preservar a relação com o PP visando à reeleição em 2030.
Impacto sobre a campanha
A saída da senadora reabre o tabuleiro de possíveis vices de Flávio, entre civis e militares. Fontes do PL citam o ex-ministro Tarcísio de Freitas e a deputada Carla Zambelli como alternativas, mas ambos enfrentam resistências distintas: o primeiro por disputar a influência sobre o eleitorado paulista com outras lideranças conservadoras e a segunda pelo alto índice de rejeição fora das redes sociais.
Analistas eleitorais avaliam que o simples flerte com Tereza Cristina já rendeu dividendos ao candidato. Nas últimas semanas, entidades do agro ampliaram doações para comitês regionais do PL, e sindicatos rurais passaram a oferecer logística para caravanas de campanha. A dúvida é se o engajamento permanecerá caso o nome substituto não tenha o mesmo trânsito no setor.
O fator feminino em jogo
Na pesquisa mais recente do Instituto Atlas, Flávio Bolsonaro aparece com oito pontos porcentuais a menos entre eleitoras do que entre eleitores. O comitê reconhece a dificuldade histórica da direita em dialogar com o público feminino e vinha apostando na presença de Tereza Cristina para suavizar a imagem do candidato. Sem ela na chapa, o grupo de marqueteiros discute intensificar ações voltadas a mulheres empreendedoras e trabalhadoras do campo, usando a senadora como “embaixadora” informal.
Calendário apertado
O prazo final para o registro de chapas termina às 23h59 de 5 de agosto. Até lá, o PL precisa entregar a lista completa de coligações e o nome do vice. Dirigentes do partido lembram que, em 2018, Jair Bolsonaro anunciou o general Hamilton Mourão na véspera do encerramento, mostrando que decisões de última hora fazem parte da cultura bolsonarista.
Enquanto o impasse persiste, Tereza Cristina volta às funções legislativas no Senado, onde preside a Comissão de Agricultura. Já Flávio intensifica viagens pelo Centro-Oeste, tentando capitalizar o apoio informal da ex-ministra e reforçar a conexão com produtores rurais que respondem por parte significativa do financiamento de sua campanha.
Nos corredores do Congresso, a aposta é que o Progressistas dificilmente revisará a neutralidade, mas ninguém descarta um movimento de bastidor que libere Tereza Cristina individualmente. O desfecho só será conhecido quando o relógio eleitoral zerar na próxima semana — e o campo político brasileiro já aprendeu a não subestimar surpresas de última hora.
