No cenário de segundo turno testado pela Quaest em agosto, Luiz Inácio Lula da Silva mantém vantagem de cinco pontos sobre o senador Flávio Bolsonaro, mas a disputa está longe de resolvida. O petista soma 44% das intenções de voto, contra 39% do adversário, diferença que se estreita ou até se inverte quando o eleitorado é recortado por região, religião ou escolaridade.
Encomendado pela Genial Investimentos, o levantamento ouviu 2.004 pessoas entre 31 de julho e 3 de agosto, margem de erro de dois pontos percentuais e registro no TSE sob o número BR-06591/2026. O instituto detecta flutuações que desenham um país fragmentado: Lula cresce no Nordeste e entre mulheres, enquanto Flávio Bolsonaro avança no Sul, no eleitor de direita com diploma universitário e no público evangélico.
Retrato geral da disputa
Embora ainda lidere, o presidente busca a reeleição com fôlego menor do que o registrado em pesquisas anteriores. A vantagem de cinco pontos é a mais enxuta desde o início da série histórica da Quaest para 2026. Segundo o instituto, 13% dos entrevistados declararam votar em branco ou nulo, e 4% não souberam responder.
No que se refere à avaliação do governo, 38% consideram a gestão Lula “positiva”, 34% a classificam como “negativa” e 26% apontam resultado “regular”. A percepção de desempenho impacta diretamente os indecisos: entre quem aprova o governo, 78% optam pelo petista; já entre quem o rejeita, 74% escolhem Flávio.
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Como cada grupo se posiciona
Regiões
- Nordeste – Lula abre 39 pontos (64% a 25%).
- Sul – Flávio Bolsonaro vira o jogo (56% a 29%).
- Sudeste – Empate técnico: 40% para o petista, 41% para o senador.
- Centro-Oeste/Norte – Também equilíbrio estatístico: 42% Lula, 40% Flávio.
Gênero
As mulheres permanecem como principal base de Lula: 47% afirmam votar nele, ante 35% em Flávio. Entre homens, o quadro se inverte numericamente (44% a 35% para o candidato do PL), mas o intervalo de erro impede afirmar liderança consolidada.
Faixa etária
O petista lidera todos os grupos, porém com margens distintas. Entre jovens de 16 a 34 anos, o placar é 40% a 38%; na faixa de 35 a 59 anos, 43% a 41%. A distância cresce para quem tem 60 anos ou mais, segmento em que Lula abre 14 pontos (48% a 34%).
Escolaridade
O nível de instrução revela posições quase espelhadas. Nos ensinos fundamental e médio, há empate técnico, com leve vantagem numérica para Flávio. Entre quem concluiu graduação, o senador atinge 52%, superando Lula por oito pontos.
Renda familiar
A divisão de renda também mostra contraste. Eleitores que ganham até dois salários mínimos preferem Lula por 12 pontos (49% a 37%). No grupo de renda entre dois e cinco mínimos, o embate fica parelho (41% a 40% para o petista). Acima de cinco salários, Flávio assume a dianteira: 50% contra 36%.
Religião
- Católicos – 49% Lula, 36% Flávio.
- Evangélicos – 48% Flávio, 36% Lula.
- Outras crenças ou sem religião – 46% Lula, 32% Flávio.
Posicionamento ideológico
O corte mais polarizado surge entre direita e esquerda autodeclaradas. No eleitorado de direita, Flávio alcança 76% contra 13% de Lula; entre os de esquerda, a equação se inverte (79% a 11% para o petista). O centro segue dividido, com vantagem discreta para Lula (38% a 33%).
Por que a disputa se estreita
Analistas atribuem o encurtamento da diferença à combinação de economia hesitante e desgaste institucional. A inflação acumulada de doze meses voltou a rondar o teto da meta e o crescimento projetado para 2026 foi revisto para baixo. Esse humor econômico encontra eco em faixas de renda média e alta, justamente onde o candidato do PL avança.

Imagem: Internet
Outro ponto mencionado é a movimentação de Flávio Bolsonaro para suavizar discurso e conquistar segmentos tradicionais do mercado. A aproximação com governadores do Sul e ações coordenadas com líderes evangélicos fortaleceram o nome do senador em redutos onde Lula já enfrentava resistência.
Impacto no tabuleiro político
Com a diferença dentro da margem de erro em quatro das cinco regiões, partidos de centro vêm sendo pressionados a definir posicionamento já no primeiro turno. Siglas como PSD e União Brasil, que vinham ensaiando neutralidade, passaram a ser cortejadas pelos dois lados. Internamente, líderes desses partidos destacam que a tendência de empate técnico aumenta o valor de segundos de TV e palanques estaduais.
Além disso, a proximidade numérica reforça a importância do voto religioso. A Frente Parlamentar Evangélica tem ampliado negociações para garantir participação na eventual transição de governo, independentemente do vencedor, enquanto a CNBB começa a esboçar carta de princípios a ser entregue a todos os candidatos.
O que diz a lei eleitoral
Por ser ano de disputa presidencial, a legislação impõe calendário rigoroso. Em 6 de agosto, partidos precisam formalizar coligações e candidaturas. A partir de 16 de agosto, propaganda em rádio e TV está liberada; é nesse momento que campanhas esperam reduzir índices de “brancos, nulos e indecisos”, hoje em 17% segundo a Quaest.
Especialistas lembram que o segundo turno só ocorre se nenhum candidato ultrapassar 50% dos votos válidos em 4 de outubro. O levantamento da Quaest, porém, projeta cenário em que ambos permanecem abaixo de 45% no primeiro turno, confirmando a expectativa de novo embate direto entre PT e PL.
Próximos passos
A Quaest anuncia novo levantamento para setembro, depois do início oficial da propaganda. Até lá, equipes de campanha planejam intensificar agendas regionais: Lula priorizará carreatas no interior do Sudeste e do Centro-Oeste, enquanto Flávio Bolsonaro reservará fins de semana para visitar capitais nordestinas e dialogar com sindicatos patronais.
Com trunfos diferentes – a máquina do governo de um lado, a herança do bolsonarismo de outro – ambos miram o mesmo objetivo: converter vantagem localizada em votos suficientes para selar o resultado ainda em outubro, sem arriscar surpresa de última hora.
