Telefone do Planalto: Lula agradece apoio de Hugo Motta e tenta consolidar alianças na Paraíba

    0

    Um telefonema de 15 minutos, disparado do gabinete presidencial nesta terça-feira (11), marcou o reforço de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à própria campanha de reeleição. O presidente ligou para o deputado paraibano Hugo Motta (Republicanos-PB), que preside a Câmara dos Deputados, agradeceu publicamente o endosso recebido na véspera e reservou espaço na agenda para um encontro presencial ainda nesta semana.

    A manifestação de Motta foi decisiva para manter o Republicanos oficialmente neutro na disputa de 2026 e, ao mesmo tempo, dificultar a aproximação que a legenda chegou a ensaiar com Flávio Bolsonaro (PL). O gesto também projeta efeitos na política paraibana, onde Lula procura equilibrar diferentes aliados que disputam duas vagas ao Senado.

    Ligação em clima de campanha

    Segundo interlocutores no Planalto, o telefonema ocorreu por volta das 15h. Lula agradeceu o “ato de confiança” de Motta, ouviu um relato sobre o cenário na Paraíba e o convidou para uma conversa em Brasília antes do próximo final de semana. A equipe do ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (PT), foi encarregada de ajustar detalhes da reunião.

    Na segunda-feira (10), Motta havia tornado público seu voto em Lula. Horas depois, Guimarães visitou o deputado em sua residência para reforçar o reconhecimento do governo — sinal interno de que o presidente vê no aliado uma ponte para o eleitorado conservador do Republicanos, principalmente no Nordeste.

    Republicanos segura flerte com Bolsonaro

    Até o início do ano, a direção nacional do Republicanos analisava declarar apoio ao senador Flávio Bolsonaro. Entretanto, a ala nordestina do partido, onde prefeitos e vereadores convivem com a popularidade de Lula, se opôs ao movimento. O endosso de Hugo Motta consolidou a posição de neutralidade e permitiu ao presidente petista celebrar, na prática, um apoio extraoficial relevante.

    Para o Planalto, o objetivo é reproduzir a estratégia vitoriosa de 2022: avançar nos redutos nordestinos para compensar prováveis perdas no Sul e no Centro-Oeste. Naquele pleito, Lula venceu em todos os 223 municípios paraibanos. Recebeu 64,21% dos votos no primeiro turno contra 29,62% de Jair Bolsonaro e, no segundo, ampliou para 66,62% contra 33,38%.

    Disputa ao Senado pressiona palanque de Lula

    O apoio de Motta também leva em conta a candidatura de seu pai, Nabor Wanderley (Republicanos), a uma das duas cadeiras do Senado que estarão em disputa em outubro. O Republicanos integra a chapa local encabeçada pelo vice-governador Lucas Ribeiro (PP), alinhada ao Planalto, mas Lula firmou compromisso pessoal com Veneziano Vital do Rêgo (MDB) para outra vaga, mesmo sem o MDB na coligação estadual.

    Além de Nabor e Veneziano, o ex-governador João Azevedo (PSB) também reivindica o uso da imagem presidencial em sua campanha. O resultado é um emaranhado de pedidos que Cida Ramos, presidente estadual do PT, classifica como “um problema bom”: “Há um compromisso com Veneziano e com João, mas Nabor também pede voto para Lula e o presidente não vai rejeitar votos”, resumiu.

    Equilíbrio delicado

    No entorno de Lula, a avaliação é que a preferência por Veneziano se manterá, mas sem criar atritos desnecessários com Nabor ou João Azevedo. O petista deve alternar aparições públicas, limitando a exposição a eventos nacionais para evitar fotos que soem como exclusividade a um único candidato.

    Força municipal como trunfo

    Hugo Motta aposta na engrenagem eleitoral construída ao longo da última década. O Republicanos elegeu 50 prefeitos na Paraíba em 2024; se somados aliados diretos de Motta, o número de prefeitos simpáticos ao grupo ultrapassa 170, segundo a própria bancada. Esses cabos eleitorais são vistos como decisivos tanto para a reeleição de Lula quanto para o avanço da candidatura de Nabor ao Senado.

    “É a capilaridade municipal que faz a diferença”, costuma repetir Motta em reuniões reservadas. O deputado lembra que, em 2022, a estrutura montada pelo Republicanos foi determinante para ampliar a vantagem de Lula sobre Jair Bolsonaro logo no primeiro turno. A leitura é compartilhada pelo Planalto, que busca preservar a aliança e conter pressões de setores do PT que preferiam um alinhamento automático com candidaturas de esquerda.

    Articulação no Congresso

    Além da Paraíba, Lula enxerga em Motta um aliado estratégico no Legislativo. Presidente da Câmara desde fevereiro, o deputado tem demonstrado disposição para pautar projetos de interesse do governo, desde que não colidam frontalmente com a bancada evangélica que também integra. As próximas semanas serão teste para essa parceria, quando o Palácio do Planalto pretende enviar o pacote de reformas do pacto federativo.

    {internal_links}

    A construção dessa relação passou a ficar mais visível com o lançamento do programa Brasil Contra o Crime Organizado, em maio, no Palácio do Planalto. Na ocasião, Lula e Motta apareceram lado a lado em fotos oficiais, sinalizando afinidade política mesmo antes da declaração explícita de voto.

    Próximos passos

    A reunião presencial confirmada para esta semana deve ocorrer entre quarta e sexta-feira no Palácio do Alvorada, segundo fontes da Secretaria de Comunicação Social. A pauta inclui três pontos principais: alinhamento para a campanha nacional, avaliação do cenário legislativo e discussão sobre o palanque paraibano ao Senado.

    Embora ainda não haja previsão de agenda pública conjunta, interlocutores de ambos os lados afirmam que Lula pode visitar a Paraíba nos próximos meses para inaugurar obras do Novo PAC, o que daria oportunidade de aparecer ao lado de Motta e de outros líderes locais. O governo quer usar essas viagens como vitrine de entregas e, ao mesmo tempo, selar acordos eleitorais antes da convenção partidária de julho.

    Análise interna

    No diretório nacional do PT, o apoio de Motta é interpretado como sinal de que o presidente consegue dialogar com setores mais conservadores sem ceder em pautas sociais. Para aliados do Republicanos, a ligação desta terça mostra que Lula entende a “moeda de troca” regional: apoio à reeleição em troca de espaço para o grupo de Motta na eleição estadual.

    Se o desenho se mantiver, Lula terá ao seu lado um bloco municipal robusto, enquanto Motta consolida presença nos altidores do presidente em todo o estado — uma sinergia que, para estrategistas de campanha, pode selar o resultado de outubro antes mesmo de a propaganda obrigatória ir ao ar.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.