A sequência de ataques verbais entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o argentino Javier Milei obrigou o Itamaraty a acionar um dos recursos mais duros da diplomacia: chamar seu embaixador em Buenos Aires para consultas. Apesar da gravidade do gesto usado para demonstrar desconforto, especialistas ouvidos apontam que a interdependência econômica dos dois maiores sócios do Mercosul impede, por ora, qualquer rompimento institucional.
Desde a posse de Milei, em dezembro, a relação pessoal entre os chefes de Estado é marcada por ofensas públicas — de “presidiário” a “patacoada”. Ao mesmo tempo, fluxos comerciais, projetos de infraestrutura e negociações dentro do bloco regional continuam avançando, sinal de que interesses de Estado falam mais alto do que a disputa política.
Troca de farpas e gestos inéditos
O episódio mais recente ocorreu durante a convenção que confirmou a candidatura de Flávio Bolsonaro, em que Milei voltou a chamar Lula de “presidiário” e classificou o ministro do STF Alexandre de Moraes como “lixo careca”. A fala cruzou a fronteira em poucas horas e gerou reação incomum: o Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador brasileiro na Argentina, Júlio Bitelli, a Brasília para avaliar o tom da resposta.
No governo brasileiro, a ordem tem sido rebater sem ampliar o conflito, linha que nem sempre vem sendo seguida. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou Milei de “palhaço”, enquanto o titular da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos, classificou o argentino como “caricatura patética”. Internamente, auxiliares do Planalto e diplomatas criticaram o destempero dos colegas, por entender que eles adotaram o mesmo estilo agressivo de Milei, destoando da tradição do Itamaraty.
Estratégia para as redes sociais
Para a professora Denilde Holzhacker, da ESPM, Milei se apoia em uma estratégia semelhante à do ex-presidente norte-americano Donald Trump: declarações polêmicas que inflamam sua base nas redes. “É uma guerra de narrativa. Na prática, pouco muda”, avalia. O professor Antônio Jorge Ramalho, da UnB, concorda e vê uma tentativa do argentino de obter protagonismo perante seu eleitorado, “falando para a bolha” e ultrapassando limites de respeito ao povo brasileiro.
Histórico de choques entre presidentes
A tensão atual não é inédita na relação bilateral. Em 2019, o então presidente Jair Bolsonaro apoiou abertamente a reeleição de Mauricio Macri. Com a vitória de Alberto Fernández, Bolsonaro se recusou a cumprimentá-lo, faltou à posse e nem enviou representante — ruptura de uma tradição diplomática de mais de três décadas entre Brasília e Buenos Aires.
Mesmo assim, durante quase todo o mandato de Fernández, acordos comerciais avançaram. O padrão se repetiu na transição entre Fernández e Milei: Lula enviou o chanceler Mauro Vieira para a posse, mas o clima azedou rapidamente. Desde então, os dois líderes colecionam provocações públicas, enquanto equipes técnicas tocam projetos de financiamento em energia, infraestrutura e comércio.
Papel do Mercosul
O bloco regional costuma servir de palco para essas disputas. Em 2021, Bolsonaro, então presidente pro tempore do Mercosul, reclamou da “falta de ambição” do governo Fernández e defendeu reduzir a Tarifa Externa Comum. Já Milei chegou a questionar o valor do próprio Mercosul durante a campanha, mas recuou ao perceber as barreiras adicionais que enfrentaria para negociar diretamente com a União Europeia.
Economia fala mais alto
Brasil e Argentina respondem por cerca de US$ 31 bilhões em comércio bilateral anual, segundo dados oficiais mais recentes. O mercado automobilístico, dependente de componentes que cruzam a fronteira, simboliza esse entrelaçamento. Há ainda linhas de crédito brasileiras para obras em território argentino e projetos de integração energética que beneficiam ambos os lados.

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Esse volume de interesses leva analistas a concluir que as ofensas presidenciais têm efeito limitado. “Negócios seguem uma lógica de longo prazo; presidentes passam, contratos ficam”, resume Holzhacker. A visão é partilhada por diplomatas em Brasília e Buenos Aires, que mantêm negociações regulares sobre temas como gás da Vaca Muerta, financiamento do BNDES a rodovias e harmonização de normas sanitárias.
Insulto versus protocolo
Mesmo quando o nível político se deteriora, ritos diplomáticos continuam sendo observados. Chamar o embaixador para consultas, por exemplo, é um instrumento previsto para demonstrar insatisfação sem romper relações. “É o penúltimo passo — antes do fim, mas longe dele”, explica um negociador ouvido reservadamente. Também por isso, a chancelaria argentina não retaliou, evitando escalada formal.
Saídas para o impasse
Enquanto Milei aposta no confronto retórico, o governo Lula tenta escolher quando responder. Lula já ironizou o colega perguntando “Quem é esse cara?” e disse que preferiu não baixar o nível para preservar a liturgia do cargo. Auxiliares lembram que, em 2022, após encontro improvisado na Cúpula das Américas, Bolsonaro e Fernández enterraram parcialmente suas diferenças. A depender do cenário eleitoral nos dois países, algo semelhante pode ocorrer nos próximos anos.
Por ora, a expectativa no Itamaraty é de que a convocação do embaixador brasileiro sirva como alerta: exageros pessoais trazem custos diplomáticos. Se Milei insistir, outras respostas estão no arsenal, como notas de protesto ou redução de agenda bilateral. Nenhuma, porém, inclui bloquear comércio ou inviabilizar o Mercosul, considerados interesses permanentes.
Impacto interno
No Brasil, o episódio virou munição política. Parlamentares alinhados ao ex-presidente Bolsonaro aproveitaram o apoio de Milei a Flávio para pressionar Lula. Já governistas viram nas ofensas terreno fértil para reforçar a imagem de Milei como figura descontrolada. Sobre a mesa, entretanto, permanecem questões concretas: liberação de linhas de crédito, flexibilização tarifária no Mercosul e cooperação na área de defesa.
Continuidade apesar das rusgas
Diplomatas veteranos recordam que Brasília e Buenos Aires viveram crises até mais graves, como a disputa pelo programa nuclear nos anos 1970. Todas foram superadas quando prevaleceu a percepção de que, sem entendimento entre os dois vizinhos, a América do Sul perde estabilidade. Assim, mesmo com os ataques verbais atuais, a integração comercial, energética e política segue como pilar de ambos os governos.
Enquanto Lula e Milei medem forças no palco discursivo, técnicos negociam silenciosamente os detalhes de uma cota automotiva para 2025, meios de financiar exportações brasileiras e a agenda da próxima cúpula do Mercosul. Os tropeços da retórica, por ora, não foram suficientes para frear a engrenagem que há décadas sustenta a relação.
