Em meio à pré-campanha presidencial, o senador Flávio Bolsonaro (PL-DF) afirmou que reconhecerá o resultado das eleições de outubro, mesmo mantendo críticas ao sistema eletrônico de votação. Em entrevista ao programa Canal Livre, da TV Band, ele disse confiar que o Tribunal Superior Eleitoral, hoje comandado pelo ministro Kassio Nunes Marques, atuará com “mais segurança e transparência” que em 2022.
O parlamentar, que tenta seguir os passos do pai no Palácio do Planalto, declarou que “vai concorrer com as regras existentes” e que “o TSE será imparcial”. Apesar da promessa de acatar o veredito das urnas, Flávio reiterou ressalvas quanto à segurança do equipamento, defendeu novas camadas de proteção e disse que seu posicionamento não representa ataque ao sistema, mas “cobrança por aprimoramentos”.
Confiança condicionada a mudanças
Questionado sobre as dúvidas que ele próprio levantou em anos anteriores, Flávio repetiu que não apresenta provas de falhas, mas insiste em “mecanismos adicionais” de verificação. “O que eu sempre pedi, assim como o presidente Bolsonaro pediu, foi mais segurança e transparência. Nada além disso”, declarou.
O senador não detalhou quais seriam os dispositivos desejados, limitando-se a dizer que uma “camada a mais” seria suficiente para dissipar suspeitas recorrentes entre seus apoiadores. Segundo ele, a gestão de Nunes Marques à frente do TSE sinaliza disposição para reforçar a integridade do processo: “Tenho certeza de que, diferente de 2022, o tribunal tomará todas as providências para que a eleição ocorra sem questionamentos”.
Erro reconhecido sobre fabricante das urnas
Durante a entrevista, Flávio comentou a polêmica gerada por uma reunião com diplomatas estrangeiros, na qual afirmou que as urnas brasileiras seriam produzidas pela empresa Smartmatic — companhia citada por ele como envolvida em fraudes eleitorais na Venezuela. “Essa parte eu me equivoquei, não produziu”, admitiu, reforçando que o ponto central continua sendo a busca por mais barreiras de segurança.
Relação com os Estados Unidos
O senador também fez menção à negativa de vistos a dois integrantes do governo dos Estados Unidos, apontados em reportagem do Washington Post como responsáveis por estratégias de questionamento ao sistema eleitoral brasileiro. Para Flávio, a decisão “passa a impressão de que se está escondendo alguma coisa”, frase que ecoa a desconfiança de setores bolsonaristas sobre interferência externa no pleito nacional.
Tensão familiar exposta
Flávio foi confrontado sobre o vídeo em que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro disse ter sido “maltratada e humilhada” por ele. O senador evitou confrontar a cunhada, resumindo que “não pode dizer o que se passa na cabeça de Michelle” e atribuiu o episódio a uma suposta insegurança dela diante de sua candidatura: “Acho que ela estava insegura e agiu dessa forma”.
Anistia para envolvidos no 8 de Janeiro
Outro ponto sensível abordado na entrevista envolve a tentativa de anistia para acusados de participação na trama golpista de 2022, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro. Flávio disse que, se eleito, pretende articular a aprovação do perdão no Congresso durante a transição entre o atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o próximo mandato. “É um passo necessário para pacificar o país”, argumentou, sem detalhar como convenceria parlamentares da oposição.
Repercussão no Congresso
Ao ser indagado sobre a receptividade da proposta entre deputados e senadores, o pré-candidato reconheceu que o debate é “delicado”, mas acredita que a sociedade “não aguenta mais ver gente presa” por atos de 2022. Ele não mencionou números de apoio ou prazos, mas sinalizou que o tema entraria na agenda do primeiro semestre do eventual governo.
Críticas sem abandonar a corrida
Mesmo admitindo desconfiança sobre o sistema eletrônico, Flávio reforçou que não cogita boicotar o pleito: “Vou concorrer com as regras estabelecidas”. A fala difere do tom adotado por aliados em 2022, quando ameaças de contestação do resultado se multiplicaram antes mesmo da votação. Agora, o senador tenta equilibrar a retórica que mobiliza sua base — marcada por ceticismo em relação às urnas — e o compromisso público de respeitar o desfecho das urnas.

Imagem: Internet
Ministro Kassio no centro das atenções
Parte da confiança manifestada por Flávio está ancorada na figura de Kassio Nunes Marques, indicado ao Supremo pelo ex-presidente Bolsonaro e atual presidente do TSE. O senador acredita que o ministro conduzirá a Corte sem favorecer qualquer campo político, ainda que venha a implementar ajustes reclamados pela direita. “A presença dele ali muda o clima”, avaliou.
Peso eleitoral das declarações
As afirmações de Flávio repercutem entre públicos distintos. Para eleitores fiéis ao bolsonarismo, a cobrança por “mais transparência” mantém viva a narrativa de vigilância sobre o sistema eleitoral. Já adversários veem na promessa de aceitar o resultado uma tentativa de suavizar a imagem após o desgaste provocado pelos atos golpistas de 2022.
Especialistas consultados nos bastidores da campanha confidenciam que a estratégia mira ampliar o leque de apoios, sobretudo entre conservadores que rejeitaram a contestação radical das urnas no último ciclo eleitoral. A calibragem do discurso, porém, esbarra na necessidade de não afastar a base engajada em pautas de combate ao que chama de “ativismo judicial”.
Próximos passos
Flávio Bolsonaro seguirá em agenda de entrevistas e viagens para reforçar a mensagem de confiança condicionada: aceitará a vontade popular, desde que o TSE reforce mecanismos de segurança. No Palácio do Planalto, auxiliares de Lula observam as declarações como sinal de que a oposição tentará disputar a narrativa institucional, ao mesmo tempo em que mantém vivo o debate sobre eventuais falhas das urnas.
Nos bastidores do Congresso, a articulação de uma eventual anistia deve enfrentar resistência de parlamentares que consideram grave a invasão às sedes dos Três Poderes em 2022. Flávio aposta em acordo suprapartidário para aprovar o perdão e transformar o tema em bandeira de campanha, num gesto para consolidar lealdade ao pai e a correligionários investigados.
Cenário eleitoral em mudança
Com pesquisas apontando cenário ainda indefinido, a postura de Flávio pode ter impacto direto na percepção de moderação ou radicalização do bolsonarismo. Resta saber se a combinação de compromisso público com a democracia e críticas reiteradas ao sistema de votação produzirá confiança entre indecisos ou reforçará o rótulo de ambiguidade.
Enquanto isso, o calendário avança e o TSE organiza as eleições sob a presidência de Nunes Marques, que, segundo o senador, “fará o que for preciso” para garantir transparência. Até outubro, o debate sobre segurança das urnas, anistia e tensão familiar seguirá no radar político, com potencial de moldar alianças e definições eleitorais.
