A corrida presidencial de 2026 começou com um impasse inusitado para Flávio Bolsonaro (PL). Quando a campanha tentou registrar a candidatura do senador, descobriu que, no sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ele já aparecia filiado a outro partido: o Missão. O registro fraudulento trazia um endereço fictício – “Rua dos Bandidos, nº 666, Bairro Miliciano, Rio de Janeiro” – e obrigou a Justiça Eleitoral a intervir com urgência.
Na tarde de quinta-feira (13), o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, determinou o cancelamento imediato da filiação ao Missão e o restabelecimento do vínculo de Flávio Bolsonaro com o PL, liberando o envio do pedido de candidatura. Até a decisão, o senador permanecia impedido de formalizar sua participação na disputa ao Planalto.
Endereço fictício e duas tentativas de filiação
Relatório técnico de quatro páginas, produzido pela área de tecnologia do Missão e divulgado à imprensa, detalha o passo a passo da inscrição fraudulenta. Segundo o documento, a primeira tentativa ocorreu em 2 de agosto, na modalidade de filiação que prevê contribuição inicial de R$ 4.789,68. Houve duas tentativas de pagamento via PIX, ambas sem sucesso.
No mesmo dia, um segundo cadastro foi aberto, desta vez isentando o novo filiado de qualquer contribuição financeira. Nesse pedido, o sistema interno do partido detectou divergência entre o CPF digitado e o número associado ao título de eleitor informado – indício de falsificação. Ainda assim, o procedimento seguiu tramitando até que, em 12 de agosto, o TSE efetivou a filiação, já com o endereço satírico “Rua dos Bandidos”, número cabalístico “666” e o suposto “Bairro Miliciano”.
Por que o cadastro não foi barrado?
O Missão afirma ter notificado o TSE sobre a inconsistência e solicitado a exclusão do registro. De acordo com o relatório, o tribunal respondeu negativamente, mantendo o processo ativo até homologá-lo na manhã do dia 13. Na avaliação da Corte, não houve qualquer invasão aos seus sistemas; uma pessoa com credenciais verdadeiras do partido teria realizado todo o procedimento.
Decisão do TSE e impacto na campanha do PL
Com o senador vinculado oficialmente ao Missão, a campanha do PL ficou impossibilitada de registrar a candidatura dentro do prazo legal. Somente após a determinação de Kassio Nunes Marques, por volta das 15h30, o vínculo partidário foi regularizado. Técnicos do tribunal confirmaram que a manobra não partiu de ataque hacker, mas de uso indevido das credenciais concedidas ao partido para acessar o sistema Filia.
Nos bastidores, aliados de Flávio Bolsonaro classificam o episódio como “sabotagem eleitoral”. O entorno do senador sustenta que ele jamais autorizou qualquer aproximação com o Missão e que desconhecia as tentativas de pagamento registradas no dia 2. A equipe jurídica do PL estuda acionar criminalmente os responsáveis.
Divergência de CPF foi ignorada
Um ponto levantado pelo Missão é a divergência de CPF, que seria suficiente para barrar a filiação. Mesmo com a inconsistência, o sistema do TSE validou o cadastro, gerando uma crise. Fontes no tribunal argumentam que o cruzamento automático de dados não indica fraude quando o número de título de eleitor confere com o nome completo, razão pela qual o pedido foi processado.
Versão do Missão: “terceiro não identificado”
O presidente da sigla, Renan Santos, declarou que a filiação de Flávio Bolsonaro foi obra de “um terceiro não identificado, sem autorização do titular do nome”. Ele garante que os registros de log do partido apontam para um usuário externo, mas que, mesmo assim, alguém do gabinete do senador teria acessado o e-mail indicado no cadastro e confirmado a adesão.

Imagem: Internet
“Temos como comprovar que alguém entrou no e-mail de Flávio, apertou o botão de confirmação da filiação e ainda clicou para acessar nosso aplicativo de militância”, escreveu Renan na rede X. Em nova manifestação, o dirigente afirmou que Flávio “não é bem-vindo” na legenda, porque o episódio “atinge a honra” do Missão.
Convite a uma acareação pública
Para afastar suspeitas de armação interna, Renan propôs uma acareação ao vivo, com transmissão aberta, entre ele e o senador. A ideia é exibir, na frente das câmeras, cada endereço IP e log de acesso ao sistema. Até o momento, a equipe de Flávio Bolsonaro não respondeu ao convite.
TSE reafirma segurança do sistema
Diante dos questionamentos, o TSE reiterou que não houve falha de segurança em suas plataformas. Segundo a Corte, somente usuários autorizados podem submeter novos filiados. Se as credenciais foram repassadas ou capturadas por terceiros, trata-se de conduta interna irregular, e não de invasão externa.
Apesar da explicação, o episódio reacendeu críticas sobre a facilidade de registrar filiações digitais. Especialistas em direito eleitoral lembram que, mesmo antes da pandemia, os partidos vêm pressionando por processos totalmente on-line, o que amplia responsabilidades internas quanto ao sigilo das chaves de acesso. O caso de Flávio Bolsonaro, ainda pendente de investigação, pode servir de base para ajustes nas normas de validação de CPF e título de eleitor.
Próximos passos
Com a filiação corrigida, o PL corre para protocolar o registro da candidatura de Flávio no TSE dentro do calendário oficial. O partido também pretende solicitar à Polícia Federal a abertura de inquérito para rastrear quem usou as credenciais do Missão e como obteve informações pessoais do senador.
Já o Missão, cuja chapa presidencial é encabeçada pelo próprio Renan Santos, pretende anexar todos os documentos à Justiça Eleitoral para provar que tentou cancelar a filiação indevida. A sigla avalia, ainda, ingressar com ação por danos morais contra o responsável pela fraude.
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