O governo federal iniciou nesta segunda-feira (10) a fase “Adimplentes” do programa Desenrola, oferecendo condições de crédito mais brandas para dois públicos que pagam as contas em dia: trabalhadores informais e estudantes ou empresas adimplentes com contratos do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). As novas regras foram fechadas às pressas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) na sexta-feira anterior para garantir a presença de um número maior de bancos na iniciativa.
O desenho final obriga todas as instituições interessadas a usar 30% de recursos próprios a cada operação, enquanto os 70% restantes virão do Tesouro por meio do Fundo Garantidor de Operações (FGO). A União assume parte dos riscos, mas exige contrapartida expressiva dos bancos para destravar até R$ 500 milhões em empréstimos destinados a até 500 mil informais e 100 mil clientes do Fies, segundo estimativa do Ministério da Fazenda.
O que muda com a nova etapa do Desenrola
O Desenrola 2.0, lançado em junho, passou a contemplar agora quem não apresenta histórico de inadimplência recente. A lógica é premiar “bons pagadores” que, apesar de manter as contas em dia, enfrentam crédito caro por não terem carteira assinada ou por contarem apenas com o histórico do Fies. Para atrair o sistema financeiro, a Medida Provisória 1.382 — editada em 1º de agosto e ajustada dias depois — ampliou a possibilidade de combinação de verbas públicas e privadas.
Antes, apenas Banco do Brasil e Caixa podiam mesclar recursos da União com capital próprio. Agora, qualquer banco ou financeira autorizada pode aderir, desde que coloque de seu caixa os 30% mínimos. A regra ainda derrubou a cobrança de taxas extras que as grandes instituições pretendiam impor às menores pelo uso de seus canais, aumentando a concorrência interna no programa.
Garantia e limite de risco
- O FGO cobre 50% das primeiras perdas da carteira de cada banco.
- Para a operação individual, a garantia pública pode chegar a 100% do valor contratado.
- Com a combinação, a exposição máxima de cada instituição cai, o que reduz o juro final.
Crédito para trabalhadores informais
Podem procurar a nova linha pessoas que atuam sem vínculo de carteira assinada, não sejam servidoras públicas nem recebam aposentadoria ou pensão do INSS. É necessário possuir um empréstimo pessoal não consignado ainda em andamento, com saldo de até R$ 15 mil por banco, e pelo menos quatro parcelas já quitadas.
A dívida precisa estar em dia ou atrasada há, no máximo, 90 dias tanto em 29 de junho de 2026 (data da MP nº 1.373) quanto no momento da contratação do novo financiamento. Quem preencher os requisitos poderá trocar o débito antigo por um contrato com juros limitados a 1,99% ao mês.
Condições de alongamento
- Prazo igual ao restante do contrato original, com extensão extra que varia de um a seis meses, conforme o período ainda por vencer.
- Parcela nova não poderá ultrapassar 90% do valor da prestação anterior.
- Possibilidade de crédito adicional de até 50% do saldo devedor, desde que a prestação continue dentro do teto de 90%.
A lógica é dar fôlego ao orçamento dos informais e, ao mesmo tempo, reduzir o custo de captação dos bancos, que contam com a cobertura parcial do FGO.
Linhas especiais para estudantes e empresas do Fies
Graduados que contrataram o Fies até 2017, já estão na fase de amortização e mantêm a mensalidade em dia há pelo menos 36 meses podem renegociar ou tomar novo crédito para abrir ou fortalecer o próprio negócio. A oferta estende-se ainda a micro e pequenas empresas ligadas a esses profissionais.
Renegociação da dívida estudantil
- Desconto de 12% sobre o total do contrato para quem optar pelo pagamento à vista.
- Prazo de adesão vai até 31 de dezembro de 2026.
Crédito para empreender
- Juros de até 11% ao ano (0,87% ao mês).
- Limite de R$ 80 mil para pessoas físicas e R$ 180 mil para pessoas jurídicas.
- Prazo máximo de 60 meses (PF) e 96 meses (PJ).
Dados da Fazenda indicam que parte relevante dos beneficiários do Fies concluiu cursos que levam ao trabalho autônomo e precisa de capital inicial para comprar equipamentos ou montar estrutura comercial. A linha especial, portanto, pretende converter formação em geração de renda, reduzindo a probabilidade de inadimplência futura.

Imagem: Internet
Como solicitar
Nesta largada, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil concentram a oferta dos produtos. Porém, a portaria publicada após a deliberação do CMN libera a entrada de demais instituições a qualquer momento.
Para o trabalhador informal, o processo começa com análise de crédito: o banco confirma se o contrato atual se enquadra nos critérios e simula a troca da dívida. Já o graduado do Fies pode iniciar tudo pelo aplicativo ou site do banco onde mantém o financiamento — quem preferir pode procurar uma agência física. Em ambos os casos, a contratação deve ser feita exclusivamente pelos canais oficiais, requisito imposto para reduzir fraudes.
Documentação básica
- Documento de identificação com foto.
- Comprovante de residência.
- Comprovante de renda ou extratos que demonstrem fluxo financeiro para informais.
- Número do contrato anterior (empréstimo pessoal ou Fies).
Bloqueio temporário para apostas online
Uma cláusula inusitada entrou no texto final: quem aderir ao Desenrola Adimplentes terá o CPF bloqueado para cadastro ou movimentação em plataformas de apostas esportivas por seis meses. O objetivo, de acordo com a equipe econômica, é evitar a utilização do crédito subsidiado em jogos de azar, preservando a finalidade produtiva da linha.
Impacto esperado e próximos passos
Se confirmada a demanda projetada — 500 mil informais e 100 mil usuários do Fies —, o governo calcula injetar até R$ 5 bilhões na economia, considerando a alavancagem proporcionada pelos 30% privados. Para o setor financeiro, o programa oferece nova carteira de crédito de menor risco, protegida pelo FGO, e contribui para a fidelização de clientes hoje fora do radar das linhas tradicionais.
A Fazenda monitora o volume contratado em tempo real para decidir se será necessário redirecionar verbas para outros grupos ou aumentar o orçamento. Enquanto isso, entidades de defesa do consumidor acompanham a execução para garantir que o teto de juros e as condições de alongamento sejam respeitados — cláusulas que, no papel, diferenciam o Desenrola Adimplentes dos pacotes de refinanciamento convencionais.
Com a largada oficial, a aposta do governo é de que, ao estimular o bom pagador, seja possível fortalecer a cultura de adimplência ao mesmo tempo em que se gera atividade econômica nos segmentos mais sensíveis ao crédito.
