A política externa brasileira atravessa uma semana de atrito simultâneo com dois vizinhos estratégicos. Sem embaixador em Buenos Aires há sete dias, o Itamaraty também luta para conter o mal-estar aberto com Assunção, onde o representante brasileiro foi chamado a prestar esclarecimentos. De um lado, insultos do presidente argentino Javier Milei a Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro Alexandre de Moraes; de outro, a declaração de Lula de que o Paraguai teria “invadido” o Brasil antes da Guerra do Paraguai. O resultado é um ambiente diplomático raramente tão contaminado na América do Sul pós-redemocratização.
Ao longo da última semana, o embaixador Julio Bitelli deixou a chancelaria argentina por ordem de Mauro Vieira, com quem já teve três reuniões em Brasília. Em Assunção, o governo de Santiago Peña exigiu explicações após as falas de Lula. Entre gestos simbólicos e trocas de farpas públicas, especialistas veem risco de paralisação de agendas regionais, como a do Mercosul, justamente no momento em que o bloco busca acordos comerciais fora do continente.
O estopim com Buenos Aires
A tensão ganhou corpo quando Javier Milei participou da convenção do PL, partido de Jair Bolsonaro. Na capital federal, o argentino comparou Lula a um “presidiário” e chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes de “lixo careca”. A fala, transmitida ao vivo, forçou o Itamaraty a reagir. Dois dias depois, Julio Bitelli recebeu a convocação extraordinária para regressar a Brasília — sinal que, no jargão diplomático, indica forte desagrado.
O afastamento temporário do embaixador não equivale ao rompimento de relações, mas interrompe contatos de alto nível e limita assuntos práticos, como negociações sobre comércio de energia elétrica e projetos de infraestrutura. O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina; para Brasília, a aposta é que pressões internas em Buenos Aires contenham novas ofensas e permitam o retorno de Bitelli sem perda de prestígio.
Impacto político interno
- Com a economia argentina em crise, Milei recorre ao confronto ideológico para sustentar sua base liberal-libertária.
- Para Lula, responder agressões dá munição à oposição doméstica; por isso, o Planalto prefere que o Itamaraty conduza o caso.
- No Congresso brasileiro, parlamentares alinhados a Bolsonaro celebraram o discurso de Milei, enquanto governistas cobraram reação firme.
Atrito inesperado com o Paraguai
Se a irritação com Milei era prevista por observadores, a crise com o Paraguai pegou a diplomacia de surpresa. Durante evento público, Lula afirmou que o vizinho “invadiu o Brasil” no século XIX, comentário que, segundo Assunção, deturpa as causas da Guerra do Paraguai (1864-1870). O chanceler paraguaio convocou o embaixador João Carlos Park Lee para ouvir explicações formais.
A reação, tida como rápida e dura, ocorre num momento sensível: Brasil e Paraguai precisam renegociar, até 2026, o tratado de Itaipu, que estabelece preço e repartição da energia gerada pela hidrelétrica binacional. Qualquer ruído político pode afetar as discussões técnicas, inclusive sobre tarifas para consumidores brasileiros.
Sensibilidades históricas
Para Assunção, o relato de Lula reforça um estereótipo de culpa paraguaia no conflito que devastou o país e ainda marca sua memória coletiva. Diplomatas lembram que a versão brasileira foi questionada por historiadores recentes, mas apontam que revisões acadêmicas não devem ser usadas em declarações políticas sem contexto.
Consequências regionais
As duas crises ocorrem num tabuleiro mais amplo. O Mercosul discute aproximação com a China e renegocia o acordo de livre-comércio com a União Europeia. Brasília avalia que discursos agressivos podem ser usados por setores europeus contrários à parceria para alegar instabilidade institucional no bloco.

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Segundo o correspondente Ariel Palacios, em entrevista a jornalistas brasileiros, a animosidade também fragiliza a coordenação na Tríplice Fronteira (Foz do Iguaçu, Ciudad del Este e Puerto Iguazú), onde cooperação em segurança depende de confiança política. “Quando líderes trocam ofensas, quem perde é a fronteira, que precisa de operações conjuntas contra contrabando e tráfico”, resumiu Palacios.
Cálculo eleitoral e ideológico
- Milei se apresenta como contraponto ao “socialismo” que atribui ao PT de Lula.
- Lula, por sua vez, evita choque frontal para não ferir interesses comerciais, mas ressente-se do uso eleitoral de seu passado judicial.
- No Paraguai, Peña mantém boa relação com Bolsonaro e tenta equilibrar-se entre os dois polos para garantir benefícios no acordo de Itaipu.
Saídas possíveis
No Itamaraty, a avaliação é que a volta de Julio Bitelli a Buenos Aires depende de três fatores: cessar as ofensas públicas, receber um sinal – ainda que discreto – de boa-vontade do governo argentino e preservar a autonomia do embaixador para dialogar. Pessoas próximas a Mauro Vieira afirmam que, se Milei mantiver silêncio por algumas semanas, “a tendência é o reenvio”.
Quanto ao Paraguai, espera-se um gesto simbólico de Lula, possivelmente em encontro bilateral à margem de alguma cúpula regional. Consultores lembram que, em 2009, o então presidente petista fez concessões tarifárias em Itaipu para arrefecer tensões semelhantes.
Riscos de prolongamento
Se nenhuma das partes recuar, o Brasil pode ver barrado no Congresso argentino o aditivo que abre o mercado de gás boliviano via GNL para a região Sul. No Paraguai, o Senado poderá atrasar a ratificação de documentos técnicos de Itaipu, postergando investimentos em transmissão de energia que interessam às indústrias paranaenses e paulistas.
Empresários consultados pelas federações de comércio do Mercosul demonstram preocupação. A Confederação Nacional da Indústria calcula que 20% das exportações brasileiras para a Argentina em 2023 foram de alto valor agregado – setor que sofreria primeiro com qualquer restrição.
O que observar nas próximas semanas
- Novo discurso de Milei em eventos internacionais, sobretudo se incluir críticas ao governo Lula.
- Movimentação do chanceler paraguaio em Washington, onde busca apoio para modernizar Itaipu.
- Agenda do Mercosul: a presidência pro tempore do bloco passará ao Uruguai ainda este semestre, colocando outro ator na mediação.
- Reações do Supremo Tribunal Federal brasileiro, após ter sido atacado diretamente, e possíveis notas de entidades jurídicas argentinas.
Até lá, especialistas avaliam que o principal ativo brasileiro continua sendo o peso econômico. Porém, sem diálogo aberto, até mesmo vantagens financeiras podem se converter em munição retórica. Na região, a diplomacia costuma operar sob o princípio do “equilíbrio entre pragmatismo e cortesia”. As cenas recentes mostram quão frágil esse equilíbrio pode ser quando líderes optam pelo confronto pessoal.
