A coordenação da campanha de Fernando Haddad (PT) ao Palácio dos Bandeirantes definiu dois eixos centrais para tentar empurrar a eleição paulista de 2026 até o segundo turno: transformar a privatização da Sabesp em símbolo do desgaste do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) e nacionalizar o debate com críticas às políticas comerciais norte-americanas que, segundo os petistas, ameaçam a soberania brasileira e atingem setores-chave da economia de São Paulo.
O comando da campanha, liderado pelo presidente estadual do PT, Kiko Celeguim, acredita que o descontentamento de prefeitos aliados ao governador e de parte da bancada governista abrirá espaço para Haddad crescer nas pesquisas conforme o debate avance, especialmente nas inserções de rádio e TV, onde o partido pretende “preencher os vazios” do adversário.
Estratégia eleitoral do PT paulista
Celeguim afirma que o partido inicia a corrida “convicto de que sairá na dianteira” e, na reta final, pode ultrapassar Tarcísio se conseguir colar no governador a pecha de insensibilidade com temas locais. Para isso, a narrativa petista enfatiza o que chama de “vácuos” do projeto de reeleição do atual chefe do Executivo, sobretudo em áreas onde prefeitos reclamam de falta de investimentos estaduais.
Desgaste de Tarcísio e rachaduras na base
Nos bastidores, dirigentes petistas citam prefeitos da região metropolitana, do Vale do Paraíba e do interior que teriam recebido menos recursos do que esperavam ao longo do mandato. A expectativa é que esses administradores se tornem pontos de apoio decisivos para o ex-ministro da Educação, garantindo palanques locais e mobilização de cabos eleitorais. Deputados estaduais e federais igualmente insatisfeitos são cortejados para reforçar a percepção de isolamento do governador.
Privatização da Sabesp no centro do debate
Transformada em vitrine – ou alvo – da disputa, a companhia de saneamento é apontada pelo PT como a face mais visível da agenda “entreguista” atribuída a Tarcísio. A campanha promete visitar cidades que registraram intermitência de abastecimento nos últimos anos para mostrar que, mesmo após a venda de ações, persistem relatos de falta d’água e tarifas consideradas altas.
Histórico da estatal e reação do eleitorado
Criada em 1973, a Sabesp é responsável pelo atendimento de 28 milhões de pessoas. O governo paulista concluiu a oferta de ações que diluiu a participação do Estado ao patamar minoritário, alegando que a mudança atrairia investimentos. Petistas, porém, calculam que o tema encontra campo fértil entre moradores que temem aumento de contas e redução de subsídios sociais. A ideia é personalizar cada queixa, vinculando-a à figura do governador.
Temas nacionais ganham palanque estadual
Além da agenda hídrica, a campanha decidiu nacionalizar o discurso ao denunciar medidas de governo dos Estados Unidos que impactam a economia paulista. O principal exemplo é o “tarifaço” implantado pela gestão Donald Trump sobre etanol, aço e derivados de celulose. Segundo o PT, esses setores concentram milhares de empregos em São Paulo e sofrem diretamente com barreiras comerciais.
Impactos econômicos em SP
- Setor sucroalcooleiro: usinas do interior amargam redução nas exportações de etanol, afetando produtores rurais e cortadores de cana.
- Indústria de papel: fábricas no Vale do Paraíba relatam perda de competitividade diante da sobretaxa norte-americana.
- Calçadistas: polos em Franca e Jaú veem queda na demanda externa, pressionando postos de trabalho.
Ao associar esses prejuízos à suposta falta de “entusiasmo” de Tarcísio na defesa do setor produtivo, Haddad pretende reforçar a imagem de que um governador alinhado a Lula teria mais peso para negociar com potências estrangeiras e proteger a indústria paulista.

Imagem: Diogo Zacarias
Propaganda eletrônica como motor de crescimento
O PT calcula que, com a segunda maior bancada federal do país, disporá de um tempo significativo no horário eleitoral gratuito. O cronograma prevê três frentes: explicar os impactos da privatização da Sabesp, exibir depoimentos de trabalhadores afetados pelo tarifaço e explorar eventuais contradições de Tarcísio em temas de soberania. Jingles, vídeos dinâmicos e inserções regionais compõem o pacote, além do uso intensivo de redes sociais para distribuir recortes voltados a públicos segmentados.
Dirigentes petistas também estudam promover carreatas temáticas — “Caravana da Água” e “Caravana da Soberania” — percorrendo municípios estratégicos para reforçar o discurso adotado nas telas. A meta é consolidar Haddad como a principal alternativa de centro-esquerda antes mesmo do debate final na televisão.
Convenção nacional do PT confirma Lula
Enquanto a campanha paulista toma corpo, o cenário nacional ganhou novo capítulo no último domingo, quando o PT oficializou, em convenção no Expo Center Norte, a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição. Aos 80 anos, o presidente busca um quarto mandato, feito que o colocaria atrás apenas de Getúlio Vargas em tempo de permanência no cargo.
Trajetória e influência no pleito estadual
Lula já venceu pleitos presidenciais em 2002, 2006 e 2022, depois de tentativas frustradas em 1989, 1994 e 1998. O simbolismo de sua figura deve ser explorado pelo diretório paulista, que planeja aparições conjuntas do presidente e de Haddad em regiões onde o lulismo mantém alto índice de aprovação. A correlação direta entre desempenho nacional e estadual é vista como trunfo para alavancar o ex-prefeito da capital no interior, território em que o PT historicamente enfrenta maior resistência.
Com essa combinação de crítica à privatização, defesa da soberania e capital político de Lula, o partido joga suas fichas na erosão da popularidade de Tarcísio e aposta em um segundo turno em que, calcula, o eleitorado ressentido com a desestatização da Sabesp e com perdas econômicas provocadas por tarifas estrangeiras poderá pender para o lado petista.
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