Perfis oficiais do senador Flávio Bolsonaro (PL) exibiam, até esta quarta-feira (12), a informação de que o pré-candidato à Presidência possuía uma pós-graduação em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Questionada pelo g1, a instituição declarou não ter qualquer registro acadêmico do parlamentar. Após o contato, a campanha reconheceu o erro, atribuiu o dado a “equívocos possivelmente extraídos da Wikipédia” e solicitou a correção dos sites que replicaram o currículo.
O suposto título aparecia desde 2019 em páginas do Senado, da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e em perfis mantidos pela própria assessoria no LinkedIn. Mesmo uma nota biográfica enviada em 27 de julho aos jornalistas repetia a pós inexistente. Confrontada com a ausência de comprovação, a equipe do senador apresentou diplomas de Direito (Universidade Cândido Mendes), especialização em Políticas Públicas (Iuperj) e MBA em Empreendedorismo (FGV), mas nenhum documento relativo à Ciência Política.
Como a informação se espalhou
A menção à pós-graduação começou a circular em janeiro de 2019, quando Flávio assumiu o mandato de senador. A Agência Senado publicou então um perfil com dados fornecidos pelo próprio gabinete. O mesmo texto, com poucas variações, passou a figurar no site da Alerj — onde ele exerceu quatro legislaturas — e na Wikipédia, de onde teria sido copiado por outras plataformas.
Páginas oficiais
- Senado Federal: perfil de 18/01/2019 trazia “pós em Ciência Política pela UFRJ”.
- Alerj: ficha do ex-deputado repetia a mesma formulação.
- LinkedIn: conta certificada pela assessoria listava a especialização até sair do ar ontem.
Na tarde desta quarta, edições foram feitas na Wikipédia para remover a referência; o perfil no LinkedIn foi deletado e pedidos de alteração foram encaminhados ao Senado e à Alerj.
Pronunciamento da campanha
Em nota, a assessoria afirmou que “eventuais registros diferentes” dos diplomas reais do senador são frutos de “erros ou equívocos, possivelmente extraídos de páginas como a Wikipédia”. Disse ainda que a equipe “já solicitou as correções junto às plataformas”. O comunicado lista a formação correta: graduação em Direito (2006), pós-graduação em Políticas Públicas pelo Iuperj (2012) e MBA em Empreendedorismo pela FGV (2015).
Confirmação da UFRJ e depoimento de professor
A UFRJ informou, por meio do Sistema Integrado de Gestão Acadêmica (SIGA), que não existe matrícula de Flávio Nantes Bolsonaro em nenhum curso da instituição. O sistema, criado em 2001, concentra todos os dados acadêmicos da universidade. A única referência com sobrenome Bolsonaro é a do irmão mais novo, Eduardo, formado em Direito.
Valter Duarte, docente e ex-coordenador do Departamento de Ciência Política entre 2004 e 2009, também negou ter tido o senador como aluno. “Posso garantir que ele nunca fez curso de Ciência Política aqui”, declarou.

Imagem: Internet
Trajetória política e acadêmica de Flávio Bolsonaro
Advogado de 45 anos, Flávio iniciou a carreira pública aos 21, elegendo-se deputado estadual em 2002 pelo Rio de Janeiro. Exerceu quatro mandatos consecutivos na Alerj até conquistar uma vaga no Senado, em 2018. Durante a maior parte desse período, apresentou-se como especialista em Ciência Política — título agora desmentido.
Diplomas confirmados
- Direito: Universidade Cândido Mendes, 2006.
- Especialização em Políticas Públicas: Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), 2012.
- MBA em Empreendedorismo: Fundação Getulio Vargas, 2015.
Casos semelhantes e checagem de outros pré-candidatos
A revelação ocorre em meio ao esforço de verificação de currículos dos principais nomes na disputa de 2026. Em 2009, por exemplo, Dilma Rousseff admitiu ter informado incorretamente mestrado e doutorado não concluídos na Unicamp em fichas oficiais. Agora, reportagem do g1 também ouviu universidades e campanhas de outros presidenciáveis:
- Lula (PT): não tem curso superior; fez formação de torneiro mecânico no Senai.
- Ronaldo Caiado (PSD): UFRJ confirma graduação em Medicina (1979).
- Renan Santos (Missão): USP confirma que não concluiu Direito.
- Romeu Zema (Novo): declara administração pela FGV; documento ainda não apresentado.
Ainda que frequentes, inconsistências em perfis públicos podem configurar infração eleitoral se configurarem propaganda enganosa deliberada. Especialistas ouvidos pelo portal alertam que a lei pune a divulgação de títulos acadêmicos falsos como “abuso de poder político”, hipótese que só se comprova se houver intenção de ludibriar o eleitor.
Próximos passos
Após admitir o erro, a campanha de Flávio Bolsonaro afirma ter revisado todo o material oficial para eliminar referências à pós-graduação inexistente. As páginas do Senado e da Alerj já foram notificadas para atualizar o histórico do senador. A equipe também estuda protocolar um pedido de retificação nos bancos de dados da Justiça Eleitoral antes da formalização da candidatura, prevista para o início de 2026.
No curto prazo, a exposição do equívoco pressiona o parlamentar a explicar por que a falsa titulação permaneceu por mais de quatro anos em canais oficiais, inclusive em releases enviados pela própria assessoria. Os adversários, por sua vez, devem explorar o episódio como arma de campanha, reforçando a importância da checagem de dados num pleito marcado pela proliferação de desinformação.
