O Avante confirmou, nesta segunda-feira (3), o escritor e psiquiatra Augusto Cury como candidato do partido à Presidência da República nas eleições de 2026. Na convenção realizada na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), Cury adiantou que, se vencer o pleito, defenderá uma mudança do modelo presidencialista para o semipresidencialista e já apontou o governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) como nome preferencial para assumir o posto de primeiro-ministro.
A candidatura foi oficializada diante de filiados da legenda e de aliados regionais, como o prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), e o presidente da Alesp, André do Prado (PL), que concorre ao Senado. A presença de Tarcísio, que disputa a reeleição ao Palácio dos Bandeirantes, deu o tom político do encontro e rendeu elogios mútuos entre o governador e o estreante na corrida presidencial.
Convenção cheia e discurso voltado a mudanças institucionais
O ato partidário lotou o plenário Juscelino Kubitschek, na Alesp, com militantes portando bandeiras do Avante e de movimentos que defendem reformas de Estado. É a primeira vez que a sigla lança candidatura própria ao Planalto. Em sua fala, Cury — autor de best-sellers de autoajuda traduzidos para mais de 70 países — afirmou que o atual desenho institucional “engessa a gestão” e pregou dividir responsabilidades entre um chefe de Estado e um chefe de governo.
Proposta de semipresidencialismo
Segundo o escritor, caberia ao presidente cuidar de temas estratégicos, como a defesa nacional e a política externa, enquanto um primeiro-ministro, eleito pelo Congresso, administraria políticas públicas cotidianas. A ideia, diz ele, permitiria “decisões mais ágeis” diante da complexidade de um país continental. “É hora de modernizar o sistema para entregar serviços de qualidade à população”, declarou.
Tarcísio na mira para chefiar o governo
Cury foi além e sinalizou que convidaria Tarcísio de Freitas para o posto de primeiro-ministro, caso o projeto seja aprovado pelo Legislativo. O governador respondeu ressaltando a “coragem” do autor em trocar a carreira literária pelo desafio eleitoral e prometeu “estar à disposição” do aliado. O gesto foi interpretado como aproximação de Tarcísio a um campo fora do eixo tradicional de alianças do Republicanos, mas sem compromisso formal.
Pilares do programa: saúde mental e educação
Ainda antes da convenção, Cury conversou com jornalistas e listou áreas que considera prioritárias. O psiquiatra se apresentou como porta-voz dos “32 milhões de neurodivergentes” no país — termo que engloba pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, dislexia e outras condições. O último Censo, lembrou, identificou 2,4 milhões de brasileiros com diagnóstico formal de autismo, mas a estimativa pode ser maior ao considerar subnotificações e outras variações neurológicas.
Políticas para neurodivergentes
Cury prometeu construir uma rede de atendimento especializada, ampliar capacitação de professores e ofertar linhas de cuidado na atenção primária de saúde. “Essas pessoas enfrentam barreiras invisíveis todos os dias; o Estado precisa garantir inclusão real”, defendeu. Ele criticou a carência de dados oficiais e sinalizou que uma de suas primeiras medidas seria instituir um cadastro nacional unificado sobre o tema.
“Era de ouro” da educação
O candidato chamou docentes de “cozinheiros do conhecimento” e fixou como meta a construção de uma “era de ouro” para a educação básica. Entre as propostas citadas estão:
- ampliação do ensino integral em escolas públicas, com atividades esportivas e artísticas;
- expansão do ensino técnico no ensino médio, em parceria com institutos federais e setor privado;
- programas de alfabetização emocional, disciplina sobre a qual Cury escreve há décadas;
- valorizar a carreira docente, com formação continuada e plano nacional de salários.
Na avaliação de especialistas presentes à convenção, o pacote repete iniciativas já existentes, mas o autor argumenta que faltam escala e continuidade. Ele não detalhou custos nem fontes de financiamento, mas disse acreditar em “realocação inteligente” de verbas e parcerias público-privadas.

Imagem: Internet
Vice indefinido e articulações em curso
Com o prazo para convenções partidárias se encerrando na quarta-feira (5), o Avante segue sem anunciar nome para a vice-presidência. Nos bastidores, dirigentes buscam alguma sigla disposta a compor, mirando tempo de TV e capilaridade estadual. Cury admitiu que dialogou, meses atrás, com o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), outro pré-candidato ao Planalto, sobre a possibilidade de chapa única, mas sinalizou que o entendimento “está praticamente descartado”.
Conversas com Romeu Zema
Segundo Cury, o alinhamento programático existiria sobretudo em questões econômicas e na defesa de gestão eficiente, mas as siglas não chegaram a consenso sobre quem lideraria a coligação. Pessoas próximas ao mineiro alegam que Zema, em crescimento nas pesquisas internas, prefere manter candidatura independente e negociar apoio apenas em um eventual segundo turno.
Calendário eleitoral e próximos passos
Após o fim das convenções, os partidos têm até 15 de agosto para registrar oficialmente candidatos e coligações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nos bastidores, aliados de Cury correm contra o relógio para sacramentar o nome do vice e fechar palanques regionais. A expectativa é de que o escritor intensifique viagens pelo país a partir de setembro, quando começa a propaganda gratuita no rádio e na TV.
Embora ainda figure como outsider na disputa, o autor reconhece que precisará transformar reconhecimento editorial em votos. A direção nacional do Avante aposta que a mensagem de saúde mental e educação, aliada ao discurso de reforma de Estado, pode abrir espaço entre eleitores insatisfeitos com a polarização.
Até o momento, nenhum outro presidenciável se manifestou sobre a proposta de semipresidencialismo apresentada por Cury. A matéria deverá ganhar corpo no debate público caso a campanha avance, já que a mudança exigiria emenda constitucional e apoio de três quintos do Congresso em dois turnos.
Nos corredores da Alesp, a oficialização da candidatura foi recebida com curiosidade. Para a cúpula partidária, o simples ato de lançar um nome nacional consolida o Avante como legenda programática, escapando da imagem de sigla satélite. Resta saber se o psiquiatra conseguirá traduzir seus 35 milhões de livros vendidos em capital político suficiente para levar a disputa até outubro de 2026.
