ANPD suspende transmissões ao vivo do Discord no Brasil após morte de adolescente e acende alerta sobre violência on-line

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    A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou nesta quarta-feira (12) a interrupção de todas as transmissões ao vivo realizadas no Discord em território brasileiro. A medida foi tomada poucos dias depois da morte de uma menina de 13 anos que, segundo investigações, teria sido incentivada por outros usuários a tirar a própria vida durante uma live na plataforma.

    O bloqueio atinge exclusivamente o recurso de lives: servidores, chats de voz e texto seguem funcionando. A suspensão vale até que o Discord apresente, à ANPD, evidências concretas de mecanismos capazes de blindar crianças e adolescentes de conteúdos que estimulem automutilação, crueldade contra animais ou qualquer forma de violência extrema.

    Motivação: tragédia de 13 anos reacende debate

    O caso que precipitou a decisão envolve uma adolescente que participava de uma transmissão coletiva. Testemunhas relatam que, durante a live, outros participantes instigaram a jovem a cometer suicídio. O episódio mobilizou autoridades federais, entre elas a primeira-dama Janja Lula da Silva, que defendeu publicamente a retirada imediata do aplicativo do ar. A Polícia Civil apura a responsabilização penal de quem estava conectado no momento do ato.

    O que a ANPD encontrou

    Técnicos da agência analisaram o funcionamento do sistema de lives e apontaram três pontos críticos:

    • Impossibilidade de monitoramento em tempo real, já que o Discord não mantém registro automático do conteúdo transmitido.
    • Dependência quase exclusiva de denúncias de usuários, o que retarda a remoção de cenas de violência.
    • Ausência de verificação etária eficaz, permitindo que menores ingressem em servidores voltados a adultos.

    Sessões de sadismo transmitidas como entretenimento

    A decisão da agência repercute denúncias que vêm se acumulando desde 2022. Grupos fechados colocam adolescentes para cumprir “desafios” em tempo real: cortar a própria pele, queimar animais ou destruir objetos da família. Boa parte dessas agressões é filmada, mas desaparece logo depois, dificultando a produção de provas. Em setembro de 2022, por exemplo, uma garota da Grande São Paulo foi filmada tentando esfaquear e incendiar um gato; a gravação reuniu cerca de 16 mil integrantes em um único servidor.

    Alertas ignorados desde 2023

    No ano passado, reportagem do programa Fantástico expôs servidores brasileiros onde menores eram coagidos a violência física ou psicológica diante das câmeras. À época, ativistas já alertavam que, sem ferramentas de controle robustas, o Discord havia se tornado “terra sem lei” para desafios extremos. A própria reportagem enviou à plataforma fotos de automutilação feitas por garotas de 12 e 14 anos, mas recebeu respostas genéricas de que o material seria analisado.

    Escalada de crueldade na internet

    Dados da SaferNet Brasil mostram crescimento simultâneo no número de denúncias e no grau de sadismo dos conteúdos. Para o presidente da entidade, Thiago Tavares, redes baseadas em anonimato e transmissão efêmera criam ambiente perfeito para atos violentos. Já a psicanalista Vera Iaconelli compara o acesso precoce a smartphones a “entregar fogo às crianças sem ensinar como não se queimar”. Segundo ela, a ausência de mediação adulta potencializa comportamentos de risco.

    Reação política e pressão pública

    Além da manifestação da primeira-dama, senadores e deputados passaram a discutir projetos de lei que obriguem plataformas a implantar verificação etária por documento oficial. O Ministério da Justiça acompanha o caso e não descarta acionar o Marco Civil da Internet para punir eventual descumprimento de ordens judiciais. Organizações de defesa dos direitos da infância pedem que o Discord apresente, em prazo curto, filtros de inteligência artificial e canais de denúncia em português com resposta imediata.

    Como funciona a suspensão

    A ordem da ANPD se baseia nos artigos 52 e 55 da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que autorizam sanções a controladores de dados que coloquem menores em risco. Até segunda comunicação oficial:

    1. Lives estão proibidas; qualquer tentativa de iniciar transmissão no Brasil deve ser tecnicamente bloqueada pela empresa.
    2. O Discord deve enviar relatório detalhado, com prazos, sobre ferramentas de moderação proativa e verificação de idade.
    3. O descumprimento pode render multa diária e, em último caso, a suspensão total do serviço no país.

    Sanções possíveis

    Se a plataforma não comprovar adequação, a LGPD permite multa de até 2% do faturamento no Brasil, limitada a R$ 50 milhões por infração. A agência pode ainda determinar publicização da falha ou bloqueio completo do tratamento de dados brasileiros pelo Discord.

    Impacto na comunidade gamer

    Embora tenha nascido para conversas de jogadores, o Discord virou rede social multifuncional, abrigando comunidades de estudo, trabalho e lazer. Streamers que dependem do recurso de live agora buscam alternativas como Twitch ou YouTube. Moderadores de servidores educacionais temem êxodo de alunos, mas reconhecem a necessidade de maior proteção.

    Riscos e responsabilidades compartilhadas

    Especialistas lembram que a tecnologia não substitui supervisão humana. Pais que desconhecem o funcionamento de chats de voz muitas vezes demoram a perceber sinais como cortes nos braços ou mudanças bruscas de humor. Escolas, por sua vez, enfrentam desafios para intervir fora do ambiente físico. Para a SaferNet, protocolos de orientação e escuta ativa podem evitar tragédias, mas dependem de colaboração entre família, educadores, governo e empresas.

    Próximos passos

    O Discord terá de provar, em relatório técnico, como pretende rastrear e coibir transmissões violentas. A ANPD não divulgou prazo público, mas informou que a suspensão será reavaliada “tão logo a empresa apresente comprovação satisfatória”. Até lá, cresce a pressão sobre outras plataformas para que adotem políticas preventivas antes de novos escândalos envolvendo menores.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.