Ao ajudar União Brasil e Progressistas a declararem neutralidade na disputa presidencial, Davi Alcolumbre recolocou seu nome na mesa de negociações do Palácio do Planalto e abriu caminho para novos encontros com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A manobra, concluída dias antes do primeiro café da retomada entre os dois, enfraquece palanques regionais que vinham ancorando a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) e reposiciona a federação nos maiores colégios eleitorais do país.
Nos bastidores, a neutralidade interessa tanto ao PT, que tenta limitar o alcance do adversário, quanto ao próprio Alcolumbre, que busca garantir votos para continuar presidindo o Senado a partir de 2027. A conta do senador inclui ainda uma bancada mais robusta para União Brasil-PP, objetivo compartilhado pelo bloco do centrão.
Costura silenciosa nos bastidores
Desde junho, interlocutores de Alcolumbre mantiveram conversas quase diárias com o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, e com dirigentes do PP. O desenho final, aprovado na última semana das convenções, prevê que a federação não declare apoio formal a nenhum candidato ao Palácio do Planalto e libere seus diretórios estaduais a reproduzir a posição de equidistância. A fórmula diminui a pressão sobre aliados que disputam governos locais e querem evitar a foto ao lado de Flávio Bolsonaro, mas também não pretendem subir no palanque de Lula.
A última rodada de negociação ocorreu por telefone, quando Alcolumbre participou de uma reunião que reuniu Rueda, emissários do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), e lideranças do PP. Na avaliação dos presentes, a atitude do presidente do Senado foi decisiva para vencer resistências internas e sacramentar a neutralidade.
O clima entre Alcolumbre e Lula havia azedado no ano passado, após o Senado rejeitar a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. Ao articular a posição neutra da federação, o amapaense reparou a ponte com o Planalto, colocou seu capital político à disposição do PT e ganhou novo fôlego para a campanha pela reeleição no comando da Casa.
Rio de Janeiro: freio no reduto bolsonarista
No estado com maior exposição da família Bolsonaro, a postura neutra foi comemorada por Eduardo Paes, que tenta suceder Claudio Castro no Palácio Guanabara. Sem o endosso oficial de União Brasil-PP ao PL, o senador Flávio Bolsonaro perdeu acesso a uma fatia relevante de tempo de TV e estrutura de campanha, enquanto Lula se livrou de um palanque hostil em território decisivo.
Minas Gerais: isolamento do PL
Em Minas, segundo maior colégio eleitoral, a federação decidiu apoiar o governador Mateus Simões (PSD) e manter distância do candidato bolsonarista. A escolha reforça a estratégia de isolá-lo politicamente, repetindo uma configuração que já havia dado certo em 2022, quando muitos prefeitos mineiros preferiram neutralidade a declarar voto.
São Paulo: jogo ainda favorável a Tarcísio
O maior desafio para Lula continua sendo São Paulo. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) mantém vantagem confortável nas pesquisas e atrai partidos do entorno do PL. Mesmo assim, dirigentes de União Brasil e PP decidiram repetir a receita da neutralidade, evitando transferência direta de tempo de TV e recursos para a campanha de Flávio Bolsonaro. Ainda que Tarcísio permaneça forte, a decisão reduz a capilaridade do adversário presidencial em algumas regiões do interior.

Imagem: Ricardo Stuckert / PR
Interesses cruzados: Planalto, Senado e centrão
Para Lula, a recomposição com Alcolumbre soluciona dois problemas simultâneos: diminui a dependência do PT em relação ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e garante um aliado potencial na Mesa do Senado em eventual segundo mandato. Já o senador do Amapá calcula que, caso Lula mantenha a dianteira apertada nas pesquisas, valerá a pena estar perto do governo na hora de compor a nova Mesa Diretora.
O acerto também agrada ao centrão. Sem obrigatoriedade de adesão a Flávio Bolsonaro, União Brasil e PP podem priorizar a eleição de bancadas robustas, mantendo a liberdade de negociar cargos e emendas com quem vencer a disputa pelo Planalto. Parlamentares experientes lembram que, em 2022, a neutralidade rendeu ao União Brasil a terceira maior bancada da Câmara, posição que ampliou seu poder de barganha.
Apesar da aproximação, a aliança ainda não é automática. Setores do PT desconfiam da lealdade de Alcolumbre e temem um movimento brusco caso o cenário eleitoral mude. Por isso, dirigentes petistas defendem “construção passo a passo”, com entregas concretas em votações sensíveis, como eventual reforma administrativa, previstas para depois do primeiro turno.
Próximos encontros e expectativas
O segundo café da reconciliação entre Lula e Alcolumbre já tem data reservada para a próxima quinzena. Assessores do Planalto dizem que o presidente pretende agradecer pessoalmente o esforço do senador e discutir votos para projetos prioritários. Alcolumbre, por sua vez, levará um mapa atualizado das intenções de voto para a Mesa do Senado e pedirá aval para avançar nas conversas com independentes.
Se os dois lados mantiverem o ritmo, a neutralidade de União Brasil-PP poderá se transformar em apoio formal a Lula no segundo turno, cenário que ganharia musculatura caso Flávio Bolsonaro demonstre dificuldades nas primeiras pesquisas de outubro. Até lá, Alcolumbre seguirá calibrando cada movimento, num equilíbrio que envolve seu próprio futuro político e a recomposição de forças no Congresso Nacional.
