As urnas de 2026 terão um contorno etário diferente: 21,03% dos concorrentes têm 60 anos ou mais, segundo análise do g1 com base nos registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em 2022, essa fatia era de 17,48%. Em números absolutos a quantidade de postulantes encolheu quase 30%, mas o peso dos mais velhos aumentou, alterando o perfil da corrida eleitoral.
A idade média subiu em todos os cargos, com destaque para vices na chapa presidencial, que saltaram de 53,9 para 60,3 anos. O avanço coincide com um sistema político mais concentrado, impactado pelo fim das coligações proporcionais e pelo endurecimento da cláusula de barreira, fatores que dificultam a entrada de novos rostos e, por consequência, puxam a média etária para cima.
Mais experiência, menos renovação
Dividindo-se os 20.621 registros atuais por faixa etária, todas as categorias abaixo dos 60 anos perderam espaço em relação a 2022. Já entre 60 e 69 anos, a participação passou de 13,91% para 16,04%. Acima dos 70, o crescimento foi de 3,57% para 4,99%. Em outras palavras, mais de um em cada cinco candidatos que pedirão voto em outubro já tem idade para aposentar-se pelo INSS.
Faixa a faixa
- 18 a 29 anos: queda de 8,79% para 8,34%;
- 30 a 39 anos: redução de 16,90% para 14,97% – maior recuo proporcional;
- 40 a 49 anos: leve baixa, de 25,66% para 24,91%;
- 50 a 59 anos: de 31,17% para 30,75%;
- 60 a 69 anos: avanço de 13,91% para 16,04%;
- 70 anos ou mais: alta de 3,57% para 4,99%.
Apesar do ganho relativo, o número absoluto de candidatos entre 60 e 69 anos caiu de 4.069 para 3.307. O movimento torna-se ainda mais visível entre os septuagenários, cujo total praticamente não mudou — de 1.044 para 1.030 — enquanto o universo de candidaturas despencou mais de oito mil nomes.
Sistema político mais fechado
Para a cientista política Mayra Goulart, da UFRJ, o envelhecimento não está isolado: “Menos pessoas disputam, e a disputa fica concentrada em quem já está dentro. A idade média sobe como consequência”. O fim das coligações proporcionais, aplicado pela primeira vez em 2022, obrigou partidos a lançar chapas próprias para deputados federais, estaduais e vereadores, elevando o custo político para novatos. Já a cláusula de desempenho eleitoral, que retira recursos partidários de legendas com votação insuficiente, encolheu o espaço para siglas pequenas, tradicionalmente porta de entrada de candidatos jovens.
Ao todo, o país perdeu nove partidos com representação relevante desde 2018. Essas legendas eram responsáveis por milhares de candidaturas de “teste”, oriundas de movimentos sociais, organizações de juventude e lideranças regionais. Sem elas, grande parte dos postos vagos foi ocupada por figuras já conhecidas do eleitorado, com carreiras consolidadas e, naturalmente, maior idade.
Eleitorado acompanha a curva de envelhecimento
O fenômeno não se limita aos quadros políticos. O TSE aponta que o número de eleitores com 60 anos ou mais subiu 13,9% desde 2022, enquanto o contingente de jovens aptos a votar encolheu. O Brasil terá 158,7 milhões de eleitores em outubro, mas a pirâmide etária do eleitorado já exibe base mais estreita: nas faixas de 16 a 24 anos, a retração foi de quase 300 mil títulos.
A mudança demográfica ajuda a explicar o apelo por candidaturas mais velhas. A lógica é simples: partidos buscam nomes que dialoguem com a maior fatia do eleitorado. Ao mesmo tempo, políticos experientes detêm redes de apoio consolidadas, financiamento de campanha e fama acumulada — ativos cobiçados num cenário de verba restrita e polarização elevada.

Imagem: Internet
Diferença por cargo
Chapas majoritárias
- Vice-presidente: idade média passou de 53,92 para 60,33 anos (+6,4 anos);
- Vice-governador: de 47,21 para 51,39 anos;
- Governador: de 51,29 para 52,48 anos;
- Senador: de 55,10 para 56,02 anos;
- Presidente da República: de 57,77 para 58,67 anos.
Disputas proporcionais
- Deputado distrital: média sobe de 46,90 para 49,82 anos;
- Deputado estadual: de 48,21 para 49,56 anos;
- Deputado federal: quase estável, de 48,99 para 49,30 anos.
Nos cargos com maior volume de concorrentes — deputados federais e estaduais — o avanço é discreto, inferior a 1,5 ano. Mesmo pequeno, o salto consolida uma tendência iniciada em 2014 e reforçada nas últimas duas eleições gerais.
Impactos para a representação política
O processo de envelhecimento das chapas suscita debate sobre representatividade. Jovens de 18 a 29 anos compõem cerca de 14% do eleitorado, mas representam apenas 8,34% dos candidatos. A discrepância é ainda maior quando se observa a parcela feminina e negra dentro dessa faixa etária, grupos historicamente subrepresentados.
Organizações da sociedade civil que estimulam a renovação política apontam que a redução do número total de candidaturas tornou mais acirrada a disputa por vagas nas listas partidárias. Candidatos estreantes, sem base eleitoral consolidada, enfrentam maiores obstáculos para captar recursos do Fundo Eleitoral e garantir visibilidade no horário gratuito de rádio e TV.
Possíveis efeitos legislativos
Uma Assembleia mais envelhecida pode priorizar temas ligados à terceira idade, como previdência e saúde preventiva. Ao mesmo tempo, agendas caras à população jovem — ensino superior, emprego, moradia — correm o risco de perder espaço. A curto prazo, analistas preveem maior taxa de reeleição, porque o eleitor tende a associar experiência à capacidade de resolver problemas, sobretudo em momentos de incerteza econômica.
Perspectivas para 2026 e além
A consolidação de bancadas maduras pode estimular partidos a adotar cotas internas para a juventude, repetindo a lógica da cota de gênero. Outra possibilidade discutida no Congresso é retomar algum tipo de coligação proporcional flexibilizada, abrindo caminho a pequenos grupos regionais. Por ora, o cenário aponta para um ciclo de continuidade: será preciso mais que retórica de renovação para inverter a curva etária da política brasileira.
Até outubro, as legendas poderão ainda substituir nomes nas chapas. A experiência recente, porém, mostra que mudanças significativas são raras: candidatos veteranos concentram recursos e apoiadores, tornando-se peças centrais das campanhas. Assim, a tendência é que os mais velhos mantenham vantagem numérica e simbólica na disputa de 2026.
